Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 14.09.2012 14.09.2012

Festival em Belo Horizonte exibe produções de curtas-metragens

Por Iveilyze Oliveira
 
Minas Gerais é um Estado conhecido por sua rica história cultural. A saborosa gastronomia, o teatro que se iniciou com as congadas e folias de reis e a literatura que revelou nomes hoje consagrados, como Carlos Drummond de Andrade.
 
Para o mineiro, o cinema é um objeto de reflexão desde os anos 40: com a criação, em Belo Horizonte, do Centro de Estudos Cinematográficos (1951), da "Revista de Cinema" (1954) e dos cinejornais que mostravam, por meio de filmes, as festas, os desfiles e as inaugurações das obras de Juscelino Kubistchek.
 
Apostando na produção cinematográfica e com o objetivo de proporcionar ao público o acesso a um formato pouco difundido, Belo Horizonte recebe o 14º Festival Internacional de Curtas, de 14 a 23 de setembro, realizado pela Fundação Clóvis Rossi e com exibições no Cine Humberto Mauro e na Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes.
 
Este ano, o Festival, que é dividido em três mostras competitivas (nacional, internacional e mineira), atraiu mais de 2.200 curtas inscritos, de 85 diferentes países. Cada filme tem, no máximo, 40 minutos de duração.
 
CURTAS MINEIROS EM DESTAQUE: TEMÁTICA E DESENVOLVIMENTO
 
Na “Competitiva Minas”, 15 filmes foram selecionados. O diferencial desta edição é o perfil jovem dos cineastas, que fogem das produções básicas para uma experimentação visual.
 
Francisco Franco, mineiro de Pouso Alegre, é o típico cineasta destemido. “Enquadro a estética dentro do argumento do roteiro. Gosto de coisas desconexas também”, diz o criador de Bomba, um dos curtas selecionados para o Festival. A história envolve o universo adolescente quando dúvidas e curiosidades batem à porta. “A proposta foi colocar no papel uma história pessoal, num contexto mais global. É um filme ambientado nos anos 90, quando você emprestava um CD para seu amigo e ele voltava arranhado e engordurado”, completa Franco.
 
Adorável Criatura, de Dellani Lima, retrata o cotidiano com poesia. Urubus, o enigma humano e as cores da morte são alguns dos toques que o curta traz. “Ele se diferencia como tudo o que é contemporâneo. Tive a ideia a partir da minha experiência como ator e sua maior ferramenta: o corpo. Uma obra de experimentação, com a tentativa de traduzir o gesto para falar da vida, de mudanças”, explica Lima, paraibano que, desde 2000, acolheu BH para produzir filmes.
 
Curta Adorável Criatura
Cena do curta Fugaz
 
Outro curta em destaque por usar um tema comum, mas que explora várias linguagens cênicas, é Fugaz, do belo-horizontino Joacélio Batista. A história é focada em um garotinho que brinca com outras crianças vestido de rei. “Já faz algum tempo que faço experiências audiovisuais e comecei a filmar jogos lúdicos (com o sobrinho). Com o tempo, resolvi flertar com a narrativa clássica e a ficção. Nesse processo, foi preciso fazer muitas observações e prestar atenção no convívio com as crianças para não perder a espontaneidade. Enquanto preparava a câmera, elas inventavam brincadeiras e eu parava tudo pra filmar”, diz Batista.
 
Descobrir personagens curiosos impulsiona o trabalho de Pedro Carvalho. O mineiro, também de BH, produziu Um Olhar Passageiro. O curta mostra a vida de um senhor que trabalha consertando máquinas fotográficas. “Um dia, me deparei com uma velha câmera fotográfica e procurei uma pessoa para consertá-la. Foi então que cheguei até o Juarez (personagem central do filme). Fiquei interessado no trabalho dele, uma coisa quase extinta. A proposta era mostrar o conflito de um senhor que estava extremamente ameaçado pela tecnologia digital e lançar mão dela para a realização do filme”, enfatiza Carvalho.
PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA MINEIRA: EXPERIMENTAÇÃO E POESIA
 
Afinal, o que há de diferente nos filmes feitos em Minas em comparação com os de outros estados?
 
O cineasta Pedro Carvalho analisa que a produção local acompanha com estrutura o ritmo do cinema, apesar da concorrência e limitação da área. “Se não fosse o barateamento dos custos de produção e as simplificações que a tecnologia digital trouxe, talvez eu não tivesse feito nenhum filme. O cinema mineiro tem uma diversidade de discursos e linguagem, uma característica do que é considerado um bom cinema em termos gerais. Possivelmente, as diferenças sejam essas especificidades que, de alguma forma, refletem nos materiais produzidos aqui: nossa história, política e cultura”.
 
Para Joacélio Batista, a característica que define essa pluralidade mineira é a ousadia da experimentação. “A produção mineira atual é muito diversificada. Sou de uma geração onde segmentos como a videoarte e o documentário são um norte. Vejo a ficção tomando um corpo interessante e mudando essa paisagem. É como se o curta estivesse entre territórios. Tem muito da videoarte no meu trabalho misturado com o cinema tradicional. É um improviso, mas com técnica na produção mineira”.
 
Dellani Lima, que gosta de juntar todas as ramificações da arte, acredita que o diferencial da produção mineira é a mistura poética. “A maioria dos realizadores que se destacam no cenário procuram, em suas obras, seguir suas próprias tendências estéticas, contrapondo qualquer discurso hegemônico de ‘mercado’ ou ‘industrial’. Muitas vezes extrapolam gêneros e campos da arte. Há muitos diálogos do que é produzido aqui em Minas com uma cinematografia não nacional, como mundial, depois de tantas mudanças tecnológicas e estruturais. A produção local é muito grande, diversa e se destaca no experimental e poético”.
 
Já Francisco Franco pensa que a produção mineira se destaca por expor o regionalismo, mas aposta em novas possibilidades cinematográficas. “Gostaria de ver produções que a identifiquem como um estado instigante e que vai muito além do pão de queijo e do cafezinho preto. Temos regiões em Minas absurdamente imagéticas, tanto em aspectos geográficos quanto antropológicos. O mineiro é um personagem curioso”.
 
Independente da estética defendida por cada profissional do cinema, percebemos que, além da temática tradicional nos filmes locais, a produção mineira desperta o encantamento nas pessoas pela liberdade de conteúdo, locações naturais, com o cinema de contemplação, e por saber se guiar na rápida velocidade imposta pela contemporaneidade.
 
14º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte
Site oficial.
 
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