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Festival de cinema leva sessão de curtas para dentro de presídio

Por Edu Fernandes
 
O complexo prisional de Campina Grande (PB) é diferente da maioria das penitenciárias brasileiras. Lá, os internos têm a chance de fazer cursos técnicos e participam de atividades de humanização.
 
Atualmente, está em construção no local um campus da UEPB, uma iniciativa inédita no Brasil. Essa proximidade do mundo acadêmico com o sistema carcerário possibilitou a realização de uma sessão de curtas-metragens para os internos no dia 30 de agosto. O evento fez parte da programação do Comunicurtas, festival de cinema de Campina Grande.
 
“Como terá um campus da UEPB dentro do presídio, um membro da nossa equipe teve a ideia de estender o festival aqui dentro”, disse Fabíola Rodrigues, da produção do Comunicurtas. “Como ainda não conseguimos trazer os cursos de extensão para aqui, trazemos os curtas”. Os cursos de formação de atores e de produção de vídeos não serão ministrados no presídio.
 
“O tempo demora para passar para os apenados, eles não têm contato com o mundo externo”, avalia Fabíola. “Eu acredito que essa sessão ameniza esses dois problemas ao quebrar a rotina”.
 
José Benjamin Pereira Filho conversa com as detentas antes do início da sessão
 
Para concretizar a ideia, era necessário o aval da universidade, na figura da reitora Marlene Alves.
“A professora Marlene fez uma visita às apenadas e sentiu que havia uma grande carência”, relatou José Benjamin Pereira Filho, professor do departamento de História da UEPB. “Essa iniciativa é de extrema importância porque isso é cultura. Isso ruma da humanização, que é um dos pilares da nossa universidade”.
 
O evento se deu de forma parcelada, primeiro com a ala feminina. Todas as detentas foram para a sala de cinema improvisada com suas melhores roupas e maquiagem no rosto. Depois foi a vez dos homens tomarem os assentos. Nos dois casos, todos participaram da sessão com pequenos comentários e risadas.
 
Os agentes penitenciários também aproveitaram a exibição. Alguns prestavam atenção aos filmes enquanto outros registravam o momento com suas câmeras fotográficas.
 
As duas sessões tiveram conteúdos basicamente iguais, com documentários e ficções produzidos na Paraíba. Uma das diferenças é que as mulheres assistiram a O Tratamento, uma comédia que se passa dentro de um salão de beleza, e os homens viram Jogo de Olhar, um documentário sobre o mais popular clássico futebolístico do estado, o embate entre Treze e Campinense.
 
Uma das internas presentes na plateia foi Liliana de Freitas. Durante seu período de encarceramento, ela já fez curso técnico de pizzaiola e sonha em estudar Letras quando o campus da UEPB for inaugurado no presídio. “A direção informou sobre os filmes e eu achei que seria uma oportunidade de ficarmos mais espertas”, afirmou a futura professora. “É sempre bom participar desses eventos (…). Foi como eu imaginei”.
 
O cineasta Aly Muritiba fez questão de conferir a sessão. Residente em Curitiba, ele estava em Campina Grande para ser jurado do Comunicurtas, mas achou uma brecha na agenda para ir até o presídio.
 
Cena do filme 'A Fábrica'
 
Aly tem uma relação antiga com a população carcerária. Ele já foi agente penitenciário e realizou um curta-metragem dentro de um presídio. A Fábrica conta a história de uma idosa que precisa fazer um celular entrar na penitenciária em que seu filho está preso.
 
O filme já foi projetado para apenados no Brasil e no exterior. “Eu nunca estive presente quando meu curta foi exibido em presídios”, reclamou Aly. “Pelo retorno que me relataram, as sessões são superpositivas. (…) Na França, A Fábrica causou algum estranhamento. Para eles parece inverossímil porque eles podem fazer telefonemas da prisão. Por outro lado, eles sentem que o filme mostra um lado humanizado”.
 
A iniciativa do Comunicurtas foi aprovada pelo cineasta. “É uma ação social de difusão importantíssima, pois faz o cinema chegar aos locais que a princípio não seriam atendidos”, disse. “A maioria das pessoas aqui nunca foi ao cinema”. Aly faz apenas uma ressalva: “O realizador deveria vir”.
 
 
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