Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.08.2010 02.08.2010

Ferreira Gullar, o poeta aos 80

Por Bruno Dorigatti e Ramon Mello
Fotos de Tomás Rangel

  

Umatarde em Copacabana 

Segunda-feira,12 de julho. Apenas alguns carros rodam pelas ruas Duvivier e Carvalho deMendonça, no sempre movimentado e barulhento bairro de Copacabana, Rio deJaneiro. A paz e o silêncio imperam e pouca gente circula pelo comércio local,onde funcionam uma loja de antiguidades, um brechó, uma cutelaria, lojas deferragens. Na esquina, ali perto, no primeiro andar de um prédio antigo,Ferreira Gullar nos recebe à vontade – camisa marrom quadriculada, calça socialpreta e sandálias de couro – para uma conversa descontraída e  informal sobre a sua trajetória. Em princípio,muito sério, nenhum sorriso é visto no rosto emoldurado pelos fios lisos decabelos brancos, quase prateados. 2010 tem sido generoso com o poeta maranhense,que completa 80 anos no dia 10 de setembro. Até lá, sai o seu novo livro depoemas, Em alguma parte alguma, depois de 11 anos desde a edição de Muitasvozes, em 1999, pela editora José Olympio. No último dia de maio, na cidadede Monteiro Lobato, onde iniciava uma série de palestras em bibliotecas dointerior de São Paulo, ficou sabendo que havia recebido o Prêmio Camões, o maisimportante da língua portuguesa. E o poeta nos informa que, ainda este ano, sai Zoologia bizarra, um livro com suas colagens a ser lançado pela Casa daPalavra. Em sua sala, a biblioteca guarda volumes antigos e alguns maisrecentes, como Poemas esparsos e a Nova antologia poética, ambosde Vinicius de Moraes, Crônicas, de Oscar Niemeyer, Agosto e Coleirado cão, de Rubem Fonseca, As flores do mal, de Charles Baudelaire, Lamachine du monde, edição francesa do livro de Carlos Drummond de Andrade, Crônicasda província do Brasil, de Manuel Bandeira, livros sobre Portinari, ArthurBispo do Rosário, Raul Bopp. Acima, esculturas, de Gullar e D. Quixote, fotos euma infinidade de objetos, como o copo com a famosafrase proferida na Flip, em 2006: “Não quero ter razão, quero ser feliz”. Pelasparedes, pinturas de amigos como Iberê Camargo, colagens, um original deNiemeyer. No teto da sala estão pendurados oito móbiles coloridos, que dançamlentamente conforme o vento que circula no ambiente. A mesa, no centro da sala,é ocupada por uma pilha de papéis, entre convites, textos originais, recortesde papéis coloridos e um calendário repleto de anotações. Ao ouvir a campainha,se pergunta: “Será que marquei dois compromissos na mesma hora?” Confere: “Não,felizmente.” Informalmente, já se vê seu sorriso, Gullar reclama do barulho davizinhança, de um bar que varre a madrugada com pagode alto e ninguém tomaprovidência. Na calçada ao lado de seu prédio, um vendedor de livros, queestende os volumes em uma toalha no chão, dia desses foi abordado pela polícia,motivada pelo Choque de Ordem do atual prefeito carioca. Ao ver a cena, Gullardesceu e foi tirar satisfação. Como um vendedor de livros, que espalha cultura,poderia estar incomodando alguém? Ouviu dos policiais que eles receberam umadenúncia. “Ora, então por que não atendem a denúncia de reclamação dobarulho?”, indagou o poeta. Não teve resposta, mas depois de muita conversaconvenceu os homens da lei de que o vendedor de livros era mesmo inofensivo.Ele segue vendendo seus livros, assim como o pagode continua noite adentro pelobairro. A seguir, um passeio pela vida de Gullar, a partir deste e de outrosdepoimentos concedidos pelo poeta.

 

De volta ao Maranhão 

Radicado no Rio de Janeiro desde o começo dos anos 1950, JoséRibamar Ferreira (Gullar era o sobrenome da mãe) nasceu na Rua dos Prazeres,497, em São Luís do Maranhão. Assim o poeta relata em seu “Poema sujo”, escritono exílio em Buenos Aires, nos 1970: 

“meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
                            ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
                            sob as balas do 24º BC
                            na revolução de 30”

“Nasci numa ilha, consequentemente cercada por água em todosos lados, inclusive, de cima também, pois o que chovia… De modo que meu convíviocom a água é uma coisa permanente. A tal ponto que quando eu saí de São Luís, aescolha que eu fiz foi o Rio de Janeiro, não por ter água aqui, por ser umacidade à beira-mar, mas porque era a capital cultural do país. E a água que euestava precisando naquela época era cultura, mergulhar neste oceano deconhecimento. Depois, conheci São Paulo, uma cidade linda, mas onde não moraria,porque não tem mar, não tem praia. Tem água, mas é encanada, o rio estápoluído, quer dizer… Essa ideia de que a cidade está perto da água e,especialmente perto do mar, é uma coisa que me constitui.” 

Na infância, os banhos nos rios São Luís e Anil eram quase diários.“E foi assim, tomando banho naquela águas, que um dia aprendi o seu ladomortal; um dos nossos companheiros afogou-se. Aquilo era divertido, jogar-se docais dentro d’água, mas parei de tomar banho no Rio Anil.” O futebol era outradistração naqueles tempos. “Éramos todos garotos, entre oito e dez anos, enosso campo de futebol era a área cimentada do Mercado Novo, que ficava emfrente à quitanda de meu pai. A pelada era depois das quatro da tarde, quando játínhamos voltado da escola. Pereba, Carroca, Espírito e eu, também conhecidocomo Periquito, podíamos ser considerados sofríveis, para não dizer pernas depau. Os dois craques eram Esmagado e Canhoteiro que, aliás, iam no futuro setornar estrelas do futebol profissional”, recordou em crônica sobre o amigo quechegaria à seleção brasileira.

Poesia: “Coisa de gente morta” 

Quando garoto, ainda sem saber o que era poesia, Gullar acreditavaque fosse coisa de gente morta. “Tinha 13 anos, por aí, e, como todo mundo, nãosabia o que ia fazer da vida. Como a vida é inventada, como é que vou meinventar?” Uma nota boa numa redação o fez pensar que poderia ser este o seucaminho. A nota dez não veio por causa de dois erros de português. “Se eu vouser escritor, tenho que saber a língua, gramática, ortografia. Passei dois anoslendo gramática, a Gramática expositiva, de Eduardo Carlos Pereira.” Ao finaldo livro, havia uma antologia de poemas, desde Camões, Bocage, Gonçalves Diasaté Bilac. Todos mortos. “Comonão conhecia nenhum poeta no meu bairro e os que eu conheci no livro estavamtodos mortos, achava que poesia era uma profissão de mortos, uma coisa que sefazia antigamente. É estranho que mesmo assim eu decidi ser poeta, adotar uma profissãode defuntos.” 

Os primeiros poemas, as irmãs liam. Outro irmão, maisvelho, ficou preocupado, chamou Gullar de canto e disse: “Olha em que você estáse metendo”. Pois perto de onde morava, tinha uma casa grande, de família rica,onde um tinha ficado meio pirado, fazia discursos da janela, declamava poemas. “Aímeu irmão pensou que eu ia ter o mesmo destino. Enquanto pra mim poesia eracoisa de defunto, pra ele era coisa de maluco.” Um dia, a irmã mais velha,Concita, falou o seguinte: “Olha, você sabe que o pai da Iracema é poeta?” “Nãoacredito.” “É poeta e mora aqui perto.” Era um poeta de verdade, de carne eosso, tanto que os filhos se chamavam Iracema, Horácio, Homero, Lucrécio.Gullar foi até lá, mas não levou muita fé. “Ele estava de tamanco, camisinha, umacasa pequena… Pra mim, poeta era Byron com aquela cabeleira, Castro Alves.Ele não parecia poeta, olhei e fiquei meio desconfiado. Foi o primeiro queconheci, que leu os meus poemas, se entusiasmou, me levou para o jornal. O problemaé que a cidade estava cheia de poetas, fiquei amigo deles, uns da minha idade,outros mais velhos”, recorda Gullar que teve o primeiro poema, “O trabalho”,inspirado numa redação escolar de mesmo nome, publicado no jornal O Combate,em meados dos anos 1940. 

A ocupação, fora do colégio, além dos banhos de rio e do futebol,era jogar pedras nas pessoas. “Eu era um pivete, o Periquito. Meus colegas eramo Esmagado e o outro, me desculpe a expressão, o Espírito da Garagem da Bosta –esse era meu mundo. Quando me tornei ledor de gramáticas, rompi com eles.Ficavam gritando, me chamando pra rua, mas eu queria ficar lendo. E não faziaamizade com ninguém, até que conheci o poeta Manoel Sobrinho, pai de Iracema ecompanhia. Foi assim que entrei para a literatura.” 

Foi Sobrinho quem lhe indicou o Tratado de versificação,de Olavo Bilac, onde aprendeu a fazer versos rimados e metrificados, decassílabos,hendecassílabos, dodecassílabos. “Aprendi tão bem a fazer versos rimados quecomecei a falar em dodecassílabos, já saía metrificado.” Isso em 1948, em São Luísdo Maranhão, onde o movimento modernista de 1922 só chegaria no ano seguinte.Os jornais começaram a publicar Murilo Mendes, os Sonetos brancos,Drummond, e o jovem não entendia aquilo, sem rima. “Fiquei cabreiro. Luadiurética? ‘Escrevo teu nome com letra de macarrão na sopa.’ Isso não  é poesia, esses caras estão de gozação.”Gullar foi então à biblioteca ler sobre a poesia moderna e descobriu Oempalhador de passarinhos, de Mario de Andrade, e Cinza do purgatório,de Otto Maria Carpeaux, a primeira compreensão da poesia moderna. “Na hora nãoaceitei, não, mas aí virei poeta moderno também. Moderno radical, mais radicaldo que o Drummond. Cheguei à conclusão de que esse negócio de rimar e metrificartinha que ser excluído, mas de uma maneira total, a tal ponto que, a partirdali, a linguagem tinha que nascer junto com o poema, não poderia antecedê-lo.A criação do poema seria a invenção da própria linguagem.”

 

Implodindo a linguagem 

“A minha atitude a partir daquele momento foi a de nãoobedecer norma alguma, rejeitar qualquer forma pré-estabelecida. Entrei numaaventura literária de tal ordem, que terminei desintegrando a linguagem. Os poemas que comecei a escrever em 1950 até1953, 1954 resultaram em A luta corporal, a busca pela linguagemessencial, onde nunca poderia chegar, evidentemente. Eu não abria mão da minhaatitude e a linguagem não se sujeitava à minha vontade. Então terminamos brigandoe eu arrebentei com a linguagem.” 

Passo a passo, Gullar vai abandonando os procedimentos adotadosanteriormente por outros, que são buscas e tentativas de dar um passo adiantena direção do que ele entende como poesia. “Ficar fazendo embromação que nãosignifica o avanço da minha proposta, não faço mais, eu paro de escrever. Tudoo que eu fizer a partir de agora vai ser para caminhar nesta direção”, era opensamento do poeta na metade do século. “Entrei em crise, pois era aconsumação do que pretendia, mas era também o fim da experiência.” Logo aochegar ao Rio, em 1951, torna-se amigo de Mario Pedrosa, crítico de arte, nomomento em que nascia a arte concreta no Brasil, que buscava uma nova linguagempara a pintura, uma mudança drástica em relação à pintura moderna, ligada aosentimento nacional, à redescoberta do Brasil, como também era com a poesia. Jána pintura abstrata, a linguagem é universal, são formas platônicas, ideais.Foi um corte abrupto na tradição modernista, com reações por parte da crítica ede artistas como Portinari. E que influenciou a concepção artística de Gullar. 

A luta corporal foieditado em 1954, às custas do poeta, na oficina da revista O Cruzeiro, ondeGullar tinha começado a trabalhar como revisor de textos, e se incomodou com o chefeda oficina, que não acertava a paginação dos poemas, fora das normas,esquisita. O livro foi a primeira de várias rupturas que marcam sua trajetória.

 

Enterrandoo poema 

Depoisdo encontro que teve com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e DecioPignatari, começava a se esboçar a poesia concreta. A linguagem velha foidesintegrada, era preciso inventar uma nova. Nascia então a poesia concreta, compalavras no espaço, que se articulam pela proximidade e semelhança entre elas,e não mais pelo discurso. Em 1956, Gullar entraria no Suplemento Dominical doJornal do Brasil, criado por Reynaldo Jardim, e começa a escrever sobre arte. Osuplemento se tornaria o veículo da poesia concreta publicando os manifestos,artigos e poemas do movimento. Ele rompe com os paulistas, depois que estesintentaram fazer a poesia matemática, e se filia a artistas como Lygia Clark,Helio Oiticica, Weissmann, Amílcar de Castro – responsável pelo novo projetográfico do SDJB. Era a turma neoconcreta, cuja origem está em procurar a saídado meramente ótico. É desse momento o Livro-poema, onde o passar daspáginas compunha o poema. Nasceu casualmente, mas logo chegou às artesplásticas. A partir daí, Lygia Clark e Helio Oiticica começaram a fazer obrasmanuseáveis, como seus penetráveis e labirintos. E o poeta sai do manuseávelpara o próprio corpo, quando cria o “Poema enterrado”, numa sala subterrânea nacasa do pai de Oiticica, na Gávea, onde o leitor entra e descobre três cubospara encontrar a palavra “rejuvenesça”. Na inauguração, por causa de uma fortechuva, o poema inundou. 

Gullarchega a outro impasse. “Eu, como poeta, tinha necessidade de continuar a usar alinguagem de poeta. E naquele caminho que eu tinha seguido, usava apenas uma ououtra palavra. Isso me afastava da minha condição de poeta. Podia fazer aquilo,mas tinha que retomar minha verdadeira expressão.” É quando chega a trabalharem Brasília, no governo de Jânio Quadros, para dirigir a Fundação Cultural, umacidade que ainda estava sendo feita, uma experiência inovadora no interior dopaís, onde só havia poeira vermelha e sertanejos, artesãos do Nordeste, umamistura do Brasil velho e do Brasil novo.


N
oexílio
 

Aaproximação com as ideias marxistas se deu, curiosamente, através do livro deum padre francês antimarxista. Filiou-se ao Partido Comunista logo após o golpemilitar de 1964, mas, um ano antes, se envolve com o Centro Popular de Cultura(CPC) da UNE, quando começa a atividade política e a produção dos cordéis, quese estende até o exílio. Gullar entra para a clandestinidade em 1970, eaguenta, trancado num quarto, por oito meses. Então peregrina por Moscou, ondefoi fazer um curso no Partido, Santiago, no Chile, Lima, no Peru e BuenosAires, onde escreve o Poema sujo. “Cheguei no dia em que morreu Perón,assumindo Isabelita. A instabilidade era crescente e os exilados chilenos euruguaios começaram a sumir ou ter que fugir. Sabia-se que a polícia daditadura brasileira atuava em acordo com a Argentina, e isso aumentava minhaintranquilidade. Enfim, temia que a qualquer momento, também eu sumisse. Entãodecidi escrever um poema que dissesse tudo o que me restava dizer, um poemafinal. Um belo dia, em maio de 1975, comecei a escrevê-lo e só o terminei emoutubro. Durante esses meses não vivia outra coisa senão o poema.” 

Publicadono Brasil em 1976, depois que Vinicius de Moraes, de passagem por Buenos Aires,fez o poeta gravar o poema em uma fita cassete, para que fosse transcrito eeditado aqui, pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, é no Poema sujo que aparece a letra feita para “O trenzinho caipira”, parte das “BachianasBrasileiras n. 2”, de Villa-Lobos. Quando garoto, o pai de Gullar o levava nasviagens de trem entre São Luís e Teresina. Então comerciante ambulante, seu NewtonFerreira vendia mercadorias maranhenses no Piauí, e vice-versa. “Eu me lembroda primeira vez em que fiz essa viagem: saíamos de madrugada e quando o diacomeçava a amanhecer o trem chegava nos Campos de Perizes, uma espécie dePantanal, enorme, muitas aves”, recorda. Ao ouvir pela primeira vez “Otrenzinho caipira”, Gullar se lembrou dessas viagens com o pai. Teve vontade decolocar letra, e tentou por 20 anos. Mas não conseguiu. Na capital argentina, quandotrabalhava no Poema sujo, “uma retomada de todo o indivíduo”, no momentoem que fala da viagem com o pai, recordou-se da música. 

“Interrompio poema, coloquei na vitrola o disco que levava comigoe em 20 minutos fiz a letra que por 20 anos tentei fazer. É um negócioengraçado. Na poesia, as coisas não são determinadas pela lógica e pelavontade. Há outros fatores. Se você não está no estado possível, ela não nasce.Tem o acaso também. A vida da gente, como tudo o que a gente faz, tem umcomponente de acaso muito grande, uma probabilidade de fatores incontroláveisque participam de tudo.” Se lhe perguntam: “Você é poeta?”, ele responde: “Àsvezes…”

 

Hoje  

Depois de mais de uma década, o aguardado livro de inéditosdo autor chega às livrarias na véspera dos seus 80 anos. E é sempre assim.Entre um livro e outro são muitos anos para publicar. O livro anterior a Muitasvozes (1999), Barulhos, havia sido lançado em 1987. Sua poesiareunida, 56 anos depois de A luta corporal, não ultrapassa 500 páginas. 

“Porque poesia não se faz por vontade. Não posso decidir, ‘vouescrever um poema hoje’. Não depende de mim. Bandeira já diz isso: ‘É o poemaque te escolhe, não a gente que decide que ele vai nascer’.” Um dia, ao chegara Nova York, no hotel, escreveu cinco poemas, depois de meses sem pegar nacaneta. “Só escrevo movido por alguma coisa que faz valer a pena escrever. Opoema tem que ter uma causa outra, um espanto, como sempre digo. A poesia nascedo espanto, de alguma coisa que me tira o equilíbrio, que me revela algo que eunão sabia, não conhecia. Ou algo que acontece comigo, inesperado, que nuncaexperimentei antes,” ideia que ainda encontra eco no crítico e filósofo francêsRoland Barthes: “Escrever é espantar-se”. 

E o que constitui Em alguma parte alguma? Poemassobre o cosmos, a linguagem e as artes plásticas, com versos dedicados aosamigos Amílcar de Castro, Iberê Camargo, Weissmann. “Neste livro, a questão dalinguagem, de ultrapassar sua forma usual, está presente o tempo inteiro. Tantoque o primeiro poema se chama ‘Fica o não dito por dito’. O poema não diz apoesia tal como o poeta quer dizer. É uma redundância falar isto, o que alinguagem não diz não se pode dizer. Mas é nesse limite, entre o que se podedizer e o que não se consegue dizer, que a poesia acontece.” O mesmo problemaque já aparecia em A luta corporal. E que persiste em muitos dos novospoemas. Só que agora Gullar não pensa mais em destruir a linguagem, mas emlidar lucidamente com essa loucura, esse limite e deslimite. 

Sobre o Prêmio Camões, o poeta se diz contente sobretudo coma reação das pessoas, que ficaram felizes com o prêmio. “Não sabia que tinhauma torcida tão grande”, afirma o poeta, vencedor do Prêmio Jabuti em 2007 nacategoria Melhor Livro do Ano com as crônicas reunidas em Resmungos (ImprensaOficial, 2006), e também ganhador, pelo conjunto da obra, do Prêmio Machado deAssis, a maior honraria da Academia Brasileira de Letras. Fora as entrevistas,não gosta, de forma alguma, de pensar no passado: “Tenho horror ao passado. Ouporque foi doído e você não quer lembrança ruim, ou porque foi bom e você temsaudade. Bom é o presente.” 

E os 80 anos, Gullar? 

“Não penso nisso, estou vivendo. Esse negócio de 80 anos, éo pessoal que vive falando, não estou preocupado com isso, nem acredito que eutenho 80 anos. Isso pra mim é um absurdo!” Toca o telefone na casa do poeta.Ele se levanta, sai do quadro da filmagem, e a caminho do aparelho conclui: “Éuma idade excessivamente alta pra mim.”

> Leia dois poemas inéditos de Gullar, que integram o novo livro, Em alguma parte alguma (José Olympio), que será publicado em setembro

O duplo

Foi-se formando

a meu lado

                 umoutro

que é mais Gullar do que eu

que se apossou do que vi

                        do que fiz

                do queera meu

 

e pelo país

                flutua

livre da morte

e do morto

               

pelas ruas da cidade

         vejo-o passar

          com meurosto

 

mas sem o peso

          do corpo

que sou eu

culpado e pouco

 

 

Acidente na sala

movoa perna esquerda

          de mau jeito

e acabeça do fêmur

                               atrita

                               no osso da bacia

sofroum tranco

 

eme ouço

perguntar:

         aconteceu comigo

         ou com meu osso?

 

eoutra pergunta:

         eu sou meu osso?

         ou sou somente a mente

quea ele não se junta?

 

eoutra:

seosso não pergunta,

          quem pergunta?

alguémque não é osso

          (nem carne)

          em mim habita?

alguémque nunca ouço

          a não ser quando

          em meu corpo

umosso com outro osso atrita?

 

> Assista à duas entrevistas com o poeta e confira um poema inédito

> Leia mais sobre Ferreira Gullar

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