Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.08.2014 21.08.2014

Fernando Aguzzoli, “O Neto da Vó”

Por Tiago Wonka
 
Diz a sabedoria popular que, para a vida de um homem valer a pena, é preciso que ele plante uma árvore, escreva um livro e tenha um filho. Fernando Aguzzoli tem apenas 23 anos e – à sua maneira – já fez as três coisas.
 
Em 2008, a avó de Fernando, Dona Nilva, foi diagnosticada com Alzheimer, uma doença neurodegenerativa que provoca confusões mentais, perda de memória a curto e longo prazo, alterações de humor, irritabilidade e agressividade. E o pior? Não tem cura. Foi um choque para toda a família ver aquela senhora, sempre alegre, estar prestes a ser abocanhada por esse monstro assustador. Mudanças drásticas tiveram que ser feitas para cuidar da vovó, e a mais radical delas foi feita por Fernando: ele deixou temporariamente de lado seus planos (faculdade, projetos e carreira) para se dedicar a Dona Nilva.
 
A vida pode ser muito ingrata às vezes, então por que não rir ao invés de chorar? Sim! Foi assim que Fernando começou a cuidar da avó, dando importância ao bom humor. Bom humor esse que sempre foi marca da simpática senhorinha. O passo seguinte foi criar a fanpage “Vovó Nilva”, no Facebook, que, de inicio, era restrita a família e amigos, mas aos poucos foi atraindo mais pessoas, de diversos cantos do país. Fernando, além de postar fotos e vídeos da Vó Nilva, também publicava os diálogos e as situações engraçadas que aconteciam diariamente em casa.
 
Nilva, que era avó, tornou-se “filha”, Fernando, que era neto, tornou-se “pai” – como ele mesmo gosta de dizer. Os dois plantaram juntos uma semente que cresceu e virou uma linda árvore, com bons frutos. Um desses frutos é o livro Quem, Eu?, lançado pela editora Belas Letras. E é sobre os detalhes desse trabalho que “o neto da vó” fala ao SaraivaConteúdo:
 
O livro tem uma linguagem bem jovem, é fácil e rápido de ler, como na web. Como você administrou o processo de levar as histórias da página para o livro?
 
Fernando. Eu fiz questão de manter um diálogo com o leitor, bem como é a proposta da fanpage. Uma troca de experiências em que eu conto um pouco da minha aventura e o leitor me procura em várias plataformas pra compartilhar sua própria história. Fiz questão de manter uma linguagem muito acessível, assim eu poderia atingir a todo público, desde jovens netos até vovós. Os comentários médicos são muito acessíveis para que todos entendam a doença e o trato diário; nada de conteúdo teórico, é tudo muito aplicável e de fácil compreensão. A identidade da vovó, bem italiana e informal, está impressa em nossos diálogos. Essa foi uma questão muito importante para mim – eu teria que ler o parágrafo e ouvir a voz da minha avó; se assim fosse, estaria ótimo! 
 
E como foi a seleção das histórias? Tem alguma que não deu para entrar na obra e você pode compartilhar com a gente?
 

Fernando. As histórias estão todas compiladas no livro; as que por algum motivo ficaram de fora estão arquivadas para um segundo volume! Mas são diálogos no mesmo estilo, sem qualquer sentido e super-hilários. 

Você usa hashtags nas legendas das fotos e QR codes em algumas páginas para mostrar vídeos, o que são coisas raras de se ver em livros. Foi ideia sua?
 
Fernando. Foi sim. Eu falo sobre a relação entre uma avó e um neto; são duas gerações que no Brasil ainda se distanciam muito, seja pela formalidade, seja pelo abismo que há entre as duas culturas e a forma de manifestá-las. O livro é parte da vida da minha avó como a tecnologia é parte da minha, e eu queria unir esses dois universos. Um livro que pode trazer um pouco do meu mundo, mesmo falando sobre uma linda história que une gerações, pode dar certo. Acho que o resultado foi maravilhoso.
 
As cartas que você escreveu e publica são emocionantes, têm uma carga dramática forte, além de serem muito pessoais. Por que resolveu inseri-las na publicação?
 
Fernando. Pois fizeram parte. As cartas que escrevi refletem muito do que sentia no momento, acho importante transmitir isso. Uma coisa é escrever aquilo que vivi três meses atrás, outra é apresentar uma carta que escrevi naquele momento, traduzindo tudo aquilo que senti e muito mais!
 
Eu soube que você gosta de fotografia! O título tem uma galeria de fotos bem grande. Como foi a seleção das imagens?
 
Fernando. Foi incrível! Muitas das fotos que ali colocamos estavam guardadas, e tivemos a oportunidade de resgatá-las. São todas de lembranças maravilhosas que tenho com a Dona Nilva! Construir uma imagem visual da “personagem” é essencial nessa história – por mais que a criatividade seja fantástica, vovó já existe, e é uma avó bem particular. 
 
“Este livro fala da relação entre uma avó e um neto, uma amizade com base em um amor incondicional”. Durante todo o percurso você explica como funciona a doença e como agir em determinadas situações. Eu diria que a obra – e o projeto como um todo – atingiu um publico que se identificou com a situação do Alzheimer, por estar, de repente, passando por algo parecido. Por que você achou importante colocar essas explicações mais “técnicas” no livro?
 
Fernando. O livro veio a ser uma homenagem à minha avó, mas não queria que fosse apenas um livro. Resolvi então reunir aquilo que, para mim, havia sido de difícil acesso: conteúdo prático! Médicos estão acostumados com uma linguagem técnica, muitas vezes saímos de consultórios sem entender uma frase completa do que disseram, e esse era um medo nas entrevistas quando propus a ideia. Mas as respostas voltaram para os profissionais diversas vezes, até o momento em que julguei que a resposta seria de fácil acesso para qualquer pessoa de qualquer classe. Os profissionais foram muito atenciosos e o resultado foi muito bacana pra quem vive algo como o que vivi.
 
Capa do livro Quem, Eu? e uma das milhares de fotos que Fernando tem ao lado da vovó
 
Você diz que nasceu com um talento para comunicação, estudou filosofia e escreve muito bem. Quais são suas referências literárias?
 
Fernando. Na verdade sou apaixonado por tudo aquilo que toca o meu coração e alma. Livros e filmes que marcam a sua vida, trazem aprendizados e mostram um lado diferente da vida, principalmente histórias reais! Toda história de superação, gente do bem compartilhando seus medos, dúvidas e superações, tem a minha total atenção. Um dos grandes livros que li e que motivou bastante esse processo foi A Lição Final, do professor americano Randy Pausch. Ele descobriu um câncer pancreático que o mataria, mas em vez de agir como a grande maioria faria, ele decidiu viver o tempo que lhe restava com um belíssimo alto astral, organizando sua última aula onde falaria sobre a vida! Um sucesso e um grande exemplo.
 
Essas referências o ajudaram ou inspiraram quando estava escrevendo a obra? Existia um modelo de projeto que você seguiu?
 
Fernando. Certamente muitas histórias que tive o prazer de assistir ou ler com minha avó retornaram como inspiração para essa aventura. Histórias como Marley & Eu, que relatam o dia a dia através de crônicas, P.S. – Eu Te Amo, que demonstra o amor sem limites, Mulheres do Calendário, que mostra a importância de compartilhar ideias e histórias para alcançar outras pessoas… essas e outras muitas histórias fizeram parte do que vivi. É a vida imitando a arte, e vice-versa. 
 
Você disse que pretende continuar com a página no Facebook para ajudar mais pessoas que estão passando por situações parecidas. Vovó Nilva ainda tem muito material, certo? Você pretende aproveitar esse material em outra página ou, quem sabe, um segundo livro?
 

Fernando. Um segundo livro pode ser uma ideia, mas ainda estou bem focado nesse primeiro, é tudo muito novo para mim. A página certamente vai continuar ativa, tem ajudado muita gente e incentivado uma galera a fazer o mesmo, por isso fico contente em seguir com esse trabalho.

Quais os projetos para o futuro?
 
Fernando. São muitos! Quero voltar para a faculdade, mas agora estou na dúvida se continuo em filosofia ou parto para psicologia ou jornalismo, mas também há a possibilidade de um novo livro, sobre o assunto ou não. O futuro próximo pertence ao Quem, Eu?, que tem aberto muitas portas. A questão é que de fato o último presente que minha avó me deixou foi um novo direcionamento para a vida! Sou muito grato por isso. 
 
O que a vó Nilva diria se visse esse livro hoje, com todas as situações engraçadas e inusitadas de vocês?
 
Fernando. "Quem, eu?". Certamente ela diria isso mesmo! (risos) Ela ficaria contente, toda boba em saber que o rosto dela hoje estampa a capa de um livro, já que sempre fora uma leitora apaixonada! Seria muito orgulho para uma velhinha só! (risos)
 
Vovó Nilva, uma senhorinha sempre alegre e divertida
 
 
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