Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.10.2010 14.10.2010

Feira de Frankfurt 2010: Volta ao mundo dos livros

Por Daniel Louzada*, de Frankfurt
Foto de divulgação

O grande tema da Feira do Livro de Frankfurt 2010foi, sem dúvida, o livro digital. Nos debates, na abordagem de algunsexpositores e mesmo em boa parte das conversas de corredor os assuntos foram asoportunidades e características dessa nova leitura para uma tecnologia quealguns, apocalipticamente, dizem estar à beira da derrocada. Afora exagerosproféticos, é fato que o livro digital vem aí para ocupar um espaço aindaimpreciso e editoras, agentes, autores e livreiros querem se preparar da melhorforma pra isso. É sintomático que empresas que, a rigor, não tem ligaçãohistórica com o livro, empresas de tecnologia que exploram ou criam conteúdos,estejam entre os expositores. De qualquer forma, a Feira de Frankfurt foi maisdo que isso.

As regras continuam valendo e a feira seguiu suadinâmica: compra e venda de direitos, lançamentos, apostas em linhas editoriais,novidades aqui e ali. Neste ano, ao contrário de 2009 em razão da crise, houvemais otimismo em relação às perspectivas imediatas. Ainda assim, notável é quenão tenha surgido nenhuma grande aposta, potenciais hits, aqueles que todaseditoras e as livrarias querem ter. 

O mais interessante para se ver foi a diversidade,as possibilidades de hits médios. Pensando num mercado como o brasileiro ficaclaro que há muitas lacunas editoriais com potencial comercial que, no entanto,alguns editores, no frenesi da corrida para os livros já testados nos mercadosdos EUA e da Inglaterra, sobretudo, deixam passar. 

O tamanho da feira dá a dimensão do alcance dolivro, produto de uma indústria pequena se comparada a tantas outras. Andar porseus imensos pavilhões (às vezes com dois ou três pisos, quase impossíveis dese percorrer em três dias), antes de cansativo, é uma oportunidade paraentender como o livro dialoga com os potenciais leitores. 

Além das representações dos países, houve grandediversidade temática. No primeiro caso, os países foram agrupados por afinidadeidiomática e cultural: assim, por exemplo, os latino-americanos ou os do lesteeuropeu ficaram em pavilhões comuns (exceção é a Alemanha, anfitriã do eventoque ocupou além do gigante e bonito pavilhão 3 também boa parte do 4). Nosegundo caso, editoras com enfoque em áreas como gastronomia, turismo,sexualidade, mangás e arte ficaram próximas.

O pavilhão 8 que abrigou, entre outras, editorasinglesas e dos EUA, foi um dos mais movimentados por contar com a maior partedos pesos pesados do mercado internacional, produtores das tendênciaspopulares. Ao mesmo tempo, trouxe também excelentes editoras de ficção, arte euniversitárias – como a da Universidade de Chicago, na melhor tradição deingleses e norte-americanos – as inglesas Verso Books, extraordinária editorado pensamento crítico contemporâneo, Omnibus Press (música) e Quirk Books(cultura pop).

O pavilhão 3, o mais vibrante e bonito, reuniueditores alemães. Nele havia uma área bem montada para quadrinhos, mangás eoutros subgêneros, assim como espaços dedicados ao turismo e aos livrosinfantis. Boas escolhas e abordagens foram perceptíveis, por exemplo, emeditoras como a Haupt, nos livros de viagem da Conrad Stein, nas coletâneas defotos da Steidl e na já mais conhecida Reclam com seus simpáticos, sóbrios ebaratos livros de bolso.

Já o pavilhão 4 foi dos mais surpreendentes.Primeiro por editoras espetaculares como a alemã Gestalten (design e arte) e,em seguida, por uma série de editoras médias e pequenas que em comum possuemidentidade e, via de regra, excelente design gráfico. Destaque para Bertz +Fischer (cinema), Ventil Verlag (cultura pop) e Claudia Gehrke Verlag (temaspara o público lésbico). Nesse pavilhão também foi notável conferir o espaçodado ao audiolivro e o andar reservado ao não-livro – pense em tudo que serelaciona com o objeto livro: materiais de papelaria, embalagens, expositoresetc.

O pavilhão 5 foi o lugar dos latino-americanos, dePortugal, Espanha e Itália. Lá estavam o país homenageado de 2010, a Argentina,e o Brasil, que receberá a honra em 2013. O país vizinho contou também com umaexposição logo na entrada da feira. Considerando a grande literatura argentina,essa exposição poderia ser melhor elaborada, pois quase se resumiu a painéis.Sobrou proselitismo, faltou conteúdo: na entrada da mostra havia três grandesfotos da presidente da Argentina Cristina Kirchner. 

O pavilhão 6 destacou as editoras francesas e asnórdicas, entre outras. Casas consagradas, como Gallimard, ou menores, massempre com personalidade. Dentre elas, a infanto-juvenil Thierry Magnier e aeditora de quadrinhos Edition Moderne.

China imponente

Fora da ótica do exotismo é possível achar coisasinteressantes nos estandes de países menos próximos culturalmente do Brasilcomo os do leste europeu – no da Eslovênia, por exemplo, era distribuído umlivreto do filósofo Slavoj Zizek, sem dúvida a maior personalidade da pequenanação. Os países do leste europeu compuseram um conjunto bastante homogêneo,assim como os da Ásia, onde se impunha a China não só pelo tamanho do seu estande,mas pela força de sua economia (capaz de comprar muitos livros de todo omundo). A importância do mercado chinês é tanta que vários materiais dedivulgação de expositores ocidentais contemplavam seu idioma. Outro mercadocobiçado e presente foi o indiano.

Notáveis ainda são as editoras, sobretudobritânicas, dedicadas à memória militar. Há livros com toda ordem de enfoque:biografias, análises históricas e muitos títulos ilustrados, sejam panorâmicossobre conflitos armados ou especificamente sobre armamentos ou uniformes dedeterminada época. Aqui, evidentemente, o que rende mais é a II Guerra Mundial.Dentre essas editoras, relevo para as britânicas Casemate UK, Pen and SwordBooks, Grub Street (aeronáutica) e Gazelle (memória sobre o Holocausto) e paraa espanhola Andrea Press (modelismo de guerra). 

A Feira do Livro de Frankfurt contou ainda com umaextensa programação de eventos. Boa parte deles teve como mote temasargentinos. Outros enfocaram a realidade de países latino-americanos como odebate que reuniu o chileno Antonio Skármeta e o argentino Martin Kohan. Valeregistrar ainda a presença da própria Saraiva na feira, representada por seusdiretores Frederico Indiani e Cesar Groh, numa mesa que abordava as estratégiasda empresa para o livro digital.

Percorrer a Feira de Frankfurt com olhos deleitor, essa figura simples, pode trazer alguma luz sobre o debate acerca dolivro digital, debate às vezes enfadonho porque baseado exclusivamente emsuposições e interesses imediatos. Nas discussões sobre mudança tecnológica,onde fica o homem? A tecnologia muda, o homem fica. Onde fica o leitor nessahistória? O importante, no fundo, é que se leia mais e melhor. Andar, já ditou oescritor israelense Amós Oz em seu deserto, pode ser um caminho para pensarsobre a própria condição. Andar pela feira, se cabe o paralelo, não é ter medode que a imensidão de hoje se transforme em um deserto material amanhã, mas simentender que o homem e sua necessidade de saber e de dividir conhecimentocontinuam.


* Daniel Louzada é Gerente de Produtos da Livraria Saraiva

Recomendamos para você