Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.09.2012 21.09.2012

Fantasticon agita o final de semana em São Paulo

Por Marcelo Rafael
 
A literatura de Fantasia tem ganhado cada vez mais espaço no cenário nacional, com autores de destaque como André Vianco, Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhóz atingindo facilmente a casa do milhar na vendagem de seus livros. Para debater o tema, reunir escritores e público e realizar o lançamento de alguns títulos, um dos eventos mais importantes do gênero ocorreu na cidade de São Paulo no último final de semana: a Fantasticon.
E tem repeteco neste sábado (22/09) e domingo (23/09): em sua sexta edição, este é o primeiro ano em que o simpósio ocorre em dois finais de semana. E o local não poderia ser mais apropriado: a Viriato Corrêa, uma biblioteca temática em Literatura Fantástica, na cidade de São Paulo.
ALTA LITERATURA E LITERATURA DE ENTRETENIMENTO
No sábado (15/9), ocorreu a mesa-redonda “Alta Literatura vs. Literatura de Entretenimento”, com a presença do jornalista, escritor e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, Manuel da Costa Pinto; da escritora vencedora do Prêmio Saramago de literatura em 2011 com o livro Os Malaquias, Andrea del Fuego; e do também escritor Luiz Bras, pseudônimo de Nelson de Oliveira.
No debate, Manuel da Costa Pinto afirmou que não existe “alta cultura”, assim como também não existiria “alta literatura”. “O que vai dizer se uma coisa é literatura ou não é o consenso entre leitores, críticos e jornalistas”, disse, sem distinção de “alta” ou “baixa” cultura.
Para ele, o próprio termo “literatura” pode ser questionado. “A gente diz ‘literatura grega’, mas não existia ‘literatura’ na Grécia Antiga, não existia na Idade Média, não existia no Renascimento, não existia no Barroco. ‘Literatura’ é um fenômeno nascido do [movimento literário do] Romantismo pra cá”, analisou.
E foi além. “Ou aquilo é uma boa literatura e entretém, ou aquilo não é literatura e não entretém”, comentou, afirmando que as obras podem tanto convocar a um olhar crítico, que exige um conhecimento da história literária, quanto apenas ao prazer. O jornalista comentou o exemplo de O Vermelho e O Negro, de Stendhal, canonicamente considerado alta literatura, mas que, para ele, também é uma ótima fonte de entretenimento.
Já para Andrea del Fuego, a questão é a valoração da cultura. “Quem é que dá o valor à literatura? A crítica literária faz isso? Faz. Outro que tem esse poder muito grande é o editor, o cara que seleciona. A editora tem um perfil que você, de olho fechado, pega um livro e sabe que aquele é um livro de qualidade”, comentou.
Mas ela também não descarta o papel do leitor e faz referência às palavras de um psicanalista que afirma que “Há uma pressão muito grande pra que você leia a alta literatura, para que você tenha uma certa erudição”. Ler os clássicos, segundo esse pensamento, seria bom para parecer bem em um círculo social, em uma conversa com o professor ou com a pessoa amada, mas, em última instância, quem decide o que vale a pena é o leitor.
Do ponto de vista dos autores, Luiz Bras avalia que, para muitos, o selo de aprovação de uma universidade parece ser o que conta. “Não basta vender livros no mundo todo, existe a ideia de que se tem que ser reconhecido e estudado nas universidades”, comentou.
 
Logo oficial do evento
E o entretenimento? Pode vir de um best-seller ou de um clássico, segundo del Fuego. “Uma coisa é o prazer da leitura, outra é o prazer de ler”, acrescentou. Mesmo que o leitor se depare com um livro aclamado e que encontre resistência para terminá-lo, vencer essa resistência inicial, pra ela, já é se configura em um prazer.
Best-seller ou não, del Fuego avalia que o importante é ler. “Ler mais, para melhorar o repertório. O próximo livro vai te abrir outros colchetes, outras tags mentais mais que o livro anterior”, completou.
PREMIAÇÕES
Além dos debates, o simpósio também conta, este ano, com duas cerimônias de premiação. A primeira aconteceu no último domingo e entregou o certificado de participação aos três finalistas do I Prêmio Hydra. A próxima acontece no último dia de evento, 23 de setembro, com a cerimônia do Prêmio Argos.
O Hydra, idealizado pelo norte-americano Christopher Kastensmidt em parceria com o publicitário Tiago Castro e a blogueira Ana Carolina Silveira, selecionou contos de fantasia publicados em qualquer meio (de antologias a blogs) entre 2009 e 2011. O vencedor teve seu trabalho vertido para o inglês e publicado na revista eletrônica The Intergalactic Medicine Show, de Orson Scott Card (autor com várias obras publicadas no Brasil pela Devir).
Giulia Moon, autora consagrada no gênero de vampiros, ficou em terceiro lugar. Ela conta que soube do prêmio via blog e, quando percebeu que se tratava de algo sério, animou-se e inscreveu dois contos. Eu, A Sogra, publicado em Imaginários Vol. 1, acabou levando a terceira colocação. Ela considera importante iniciativas desse tipo e a oportunidade de publicar lá fora. “Você vê que o mercado está fervilhando”, afirmou.
Flávio Medeiros, que não pôde comparecer à cerimônia, ficou em segundo lugar com Por Um Fio, da antologia Steampunk – Histórias de Um Passado Extraordinário. Brontops Baruq foi eleito o primeiro colocado com História com desenho e diálogo, publicado na revista Portal Fundação do Projeto Portal.
  Foram mais de 200 textos inscritos e, segundo Kastensmidt e Castro, a seleção foi difícil e muita coisa boa acabou ficando de fora. Mas o resultado foi tão positivo que a revista resolveu publicar também o segundo colocado, Flávio Medeiros. Todos receberão pagamento por suas publicações.
Kastensmidt, que faz sessão de autógrafos do seu conto O Desconveniente Casamento de Oludara e Arani, do livro de bolso Duplo de Fantasia Heroica 3, já pensa na próxima edição do prêmio e está em busca de novas parcerias.
 
A programação completa do segundo fim de semana do evento, que terá oficina de customização steampunk, a presença do Conselho Branco Sociedade Tolkien e sessão de cinema fantástico infantil, entre outras atrações, pode ser acessada no site da Fantasticon.
 
Fantasticon – VI Simpósio de Literatura Fantástica
Onde: Biblioteca Viriato Corrêa – Rua Sena Madureira, 298 – Vila Mariana – São Paulo
Quando: 22 e 23 de setembro, das 11h às 19h30
Entrada gratuita
 
 
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