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Fábulas contemporâneas

Por Bruno Dorigatti 

O sertão seco, cru e violento. A vida desrregrada e torta, bêbada e drogadicta do que se cunhou chamar subundo. O olhar intimista, delicado, próximo. Três enfoques que aparentemente pouco têm em comum se reuniram na terceira mesa da 8. Flip. Premiados e reconhecidos pela sua literatura, o cearense radicado em Pernambuco Ronaldo Correia de Brito e os paulistas Beatriz Bracher e Reinaldo Moraes conversaram sobre seus projetos literários e o que seus textos possuem de autobiográfico, em uma divertida mesa mediada pela jornalista Cristiane Costa.

“Não é nada diletanteescrever. É um ofício diário e permanente. Minha escrita tem um projeto, umprocesso, não cai do céu. É muito trabalho”, disse Ronaldo, ainda que nemsempre eles possam ser cumpridos. O escritor e médico, que acaba de lançar acoletânea de contos Retratos imorais (Alfaguara), lembrou do assassinatodo cineasta italiano Pier Pasolini, que o impressionou muito. Imaginou então umromance caudaloso, onde o crime acontecia em um filmagem. “Fiquei anos e anoscom essa ideia no juízo. Uma coisa imensa, páginas e páginas. Foram 20 anospensando e quando sentei para escrever se transformaram em apenas quatropáginas”, afirmou sobre a história presente em seu último livro. 

Para Beatriz, “vocênunca consegue escrever como quer. Não sou capaz de escrever muita coisa queamo. E não é capacidade. Você tem que agradar a si mesmo, primeiramente. Só seise é meu, depois, quando leio”. A escritora, que lançou o livro de contos Meuamor (Editora 34) em 2009, não soube dizer se há um projeto em sua escrita. “Quandocomeço, não sei onde vai dar.” Já Reinaldo, conhecido pelo romance Tanto faz,lançado em 1981, e que lançou ano passado o caudaloso e elogiado Pornopopéia (Objetiva), acredita que toda escrita metaboliza tudo que seu autor leu.“Estamos sempre decantando vozes na cabeça, desde a mãe, pai, amigos, tevê,rádio, plasmando isso na linguagem. Tento manter distância dos autores queaprecio, como Machado, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, pois fica muito ruimmacaquear aquilo.””

Apesar de crer quetodo escritor carrega nas tintas autobiográficas em tudo que escreve, Reinaldodiz não ter vivido todo o desbunde, porres, chapaceiras e surubas tântricas deseus personagens. E se Ronaldo fala em memórias inventadas, preenchidas pelaimaginação, Beatriz disse que mesmo quando acha que sua escrita não ébiográfica, ela na verdade, é. “Na ficção, tudo o que não é você passa a ser. Éo mais verdadeiro o que você escreve como ficção. Já desisti de achar que não ébiográfico, mas como coisas tão díspares são biográficas, eu nem sei”, disse. 

 

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