Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.02.2013 01.02.2013

Expresso poético: a literatura árabe desembarca no Brasil

Por Zaqueu Fogaça 
 
Uma literatura milenar e pouco conhecida pelos leitores brasileiros tem dado as caras nas estantes das livrarias do país. Presente no imaginário do mundo ocidental, a literatura árabe desembarca hoje em língua portuguesa sem precisar fazer escalas em outros idiomas.
Nesta última década, o Brasil presenciou o renascer da literatura árabe no país, período marcado por duas importantes publicações: o quarto e último volume do clássico Livro das Mil e Uma Noites, traduzido pela primeira vez do árabe para o português por Mamede Mustafa Jarouche, e Poemas, do sírio Adonis, traduzido por Michel Sleiman.
Porém, isso é apenas o começo, como explica o próprio Mamede Jarouche, professor de língua e literatura árabe da Universidade de São Paulo. “Essas traduções não passam de um mero começo. O Brasil mal conhece a literatura árabe, basta recordarmos que se trata de uma literatura que se produz desde o século VI até os dias de hoje, e num espaço geográfico que engloba o Norte da África até a Península Arábica e Iraque”, destaca.
Para Mamede, a escassez de obras árabes traduzidas diretamente para o português se deve, principalmente, à falta de tradutores, dadas as peculiaridades linguísticas do idioma: “As diferenças sintáticas, morfológicas e fonético-fonológicas constituem uma grande dificuldade, tendo como principal consequência a falta de tradutores dessa língua”, explica.
“Esse fenômeno brasileiro de tradução de obras árabes é coisa de uma década, por isso ainda não há muitas obras no mercado. Essa onda de traduções ainda está circunscrita ao eixo Rio-São Paulo, que concentra os arabistas em torno das grandes universidades brasileiras como a UFRJ, PUC-SP, UNIFESP e USP”, ressalta o também professor de língua e literatura árabe da Universidade de São Paulo, Michel Sleiman.
 
O clássico Livro das Mil e Uma Noites, traduzido pela primeira vez do árabe para o português
Nesse período, autores importantes da literatura árabe passaram a integrar os catálogos de editoras brasileiras. O principal deles foi o ganhador do Nobel de Literatura em 1988, Naguib Mahfouz, que teve algumas de suas obras publicadas no país, como Miramar, traduzida por Safa Jubran e publicada pela editora Berlendis, e Noites das Mil e Uma Noites, traduzida por Georges Khouri e Neuza Nabhan e publicada em 2001 pela editora Companhia das Letras.
A editora Planeta, por sua vez, publicou em 2004 aquela que é considerada a mais importante novela árabe do século XX, Tempo de Migrar para o Norte, do escritor sudanês Tayeb Salih, com a cuidadosa tradução de Safa Jubran. Em 2009, a editora Companhia das Letras publicou um dos maiores best-sellers da literatura árabe, O Edifício Yacubian, do escritor egípcio Alaa Al Aswany, traduzido por Paulo Farah.
“O mercado editorial brasileiro, mesmo com seu atual crescimento, ainda não se mostrou suficiente; contudo, o século XXI determinou um alavancar para a literatura árabe no Brasil, mostrando-nos a enorme importância, riqueza e variedade dessa criação literária, que tem muito para contribuir para o nosso engrandecimento como seres humanos”, analisa Mamede.
Apesar do crescente número de autores árabes traduzidos para o português, é preciso lembrar que esse fenômeno no país é um processo tardio. “Existem inúmeras obras de poetas e romancistas árabes que merecem ser traduzidas para o português. Autores marroquinos, libaneses, tunisianos, sírios, egípcios e argelinos já foram traduzidos na Europa e Estados Unidos”, alerta o escritor e ensaísta brasileiro Milton Hatoum.
“Essas traduções são muito boas, e é sem duvida um ponto alto da tradução no Brasil. Além dos tradutores mais citados, eu também destacaria o bom trabalho feito por Safa Abou-Chahla Jubran, que traduziu para o português os romances Porta do Sol e Yalo, do escritor libanês Elias Khoury”, relaciona o escritor e crítico literário Ricardo Lísias.
Outro fator que fortalece a chegada da literatura árabe no país é a presença cada vez maior de escritores que têm visitado o Brasil para participar de eventos literários. Em 2006, a sétima Bienal Internacional do Livro do Ceará prestou homenagem à literatura árabe, trazendo ao país alguns de seus representantes para participar de palestras e bate-papos com os leitores brasileiros.
 
Capa do livro Poemas, do sírio Adonis, traduzido por Michel Sleiman
A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a mais importante do país, é um dos eventos mais frequentados por escritores árabes. Em sua edição de 2006, recebeu o palestino Mourid Barghouti; em 2007, foi a vez da egípcia Ahdad Soueif; e em 2012, o poeta sírio Adonis, que compareceu à festa para divulgar a publicação da antologia de seus poemas.
Esta última década revelou novas caras da literatura árabe para os leitores brasileiros, despertando progressivamente o interesse de editores e alimentando boas expectativas quanto ao futuro dessa inestimável criação literária em território brasileiro. Resta aguardar para que essas estimativas se confirmem e que novos autores sejam publicados no país.
 
 
 
 
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