Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 12.08.2011 12.08.2011

Existem várias maneiras de aprender as coisas, uma delas é com o pai

Por Isabela Moraes
Todo mundo tem uma história que vivenciou com o pai. Luís Colombini reuniu 54 relatos de pessoas bem-sucedidas que contaram a maior lição que aprenderam com seus pais no livro Aprendi com Meu Pai (Editora Saraiva), que ele acaba de lançar.
Por que a reedição do livro?
Luís Colombini. O livro está esgotado desde 2008, há três anos fora do mercado e nesse tempo nunca parou de chegar e-mails de pedidos, reclamando que não o encontra, que já tentou em todo lugar. Então, como estava chegando o dia dos pais, o editorial achou legal reeditar.
 
 
 
 
 
Como você escolheu os entrevistados?
Luís Colombini. Eu escolhi. Estava conversando com um amigo, que me contou uma história do pai dele, ai eu falei que também tinha uma história com o meu pai. Pensei ‘todo mundo tem uma história com o pai”. Perguntei aos meus amigos, e eles tinham ótimas histórias. Na época, meu filho estava com 6 ou 7 anos; educar é difícil. Quem mora em São Paulo sabe como é esta cidade, violência, pessoas perdendo a noção de tudo, ficando malucas, uma crise de valores e princípios. Daí, pensei que seria legal fazer um livro resgatando os valores e princípios, e a melhor maneira de fazer isso é sempre com histórias para não ficar aquela coisa chata de ‘meu pai me ensinou a ser bonzinho, a não roubar…’. Fui fazendo uma lista de pessoas que eu queria saber a história, e ai foi entrando, Paulo Autran, Maurício de Souza, executivos, o presidente da Vivo.
Alguma história do livro recordou o seu tempo de criança?
 
Luís Colombini. Muitas. Uma surpresa é que das 54 histórias, nenhuma se repete, isso é que é engraçado. Embora tudo seja a mesma coisa, é tudo tão diferente que no final acaba tendo um viés muito particular. É impossível uma pessoa, qualquer homem ou mulher, ler o livro e não se identificar, não reconhecer um traço do pai em algum ou vários dos relatos. E se você também é pai, é impossível deixar de ver bobagens que você fez ou erros, ou acertos que estão lá. Tem uma do Belarmino Iglesias Filho, que é o herdeiro da rede Rubaiyat. O primeiro [restaurante] Rubaiyat era no centro da cidade e o pai dele o levava para lá. Um dia, o pai pendurou o paletó no escritório, que era horroroso, azul claro, mais que o pai adorava e foi lá cuidar do restaurante. O moleque ficou na sala pulando, subiu na mesa, pegou o tinteiro e lá se foi nanquim para cima do paletó. Quando o pai voltou, ao invés de falar umas boas para ele mostrando o que ele tinha feito, perguntou: ‘meu filho, você sabe quem fez isso?’ Os dois foram em busca de quem poderia ter feito, perguntando de garçom em garçom, e o filho falando que não sabia nada. Ele então percebeu que o pai não estava procurando um culpado para castigar, estava procurando a verdade, que o filho fosse homem e assumisse, e ele fala para o filho que se ele tiver que cair, caia, mais caia de pé. E foi a última mentira. Isso também me lembra, não pelo meu pai, mas porque a lição é útil, porque a minha mãe quando ficava brava com alguma coisa, ela falava sobre a mesma coisa cinco dias seguidos a ponto de infernizar, era uma tortura, ia sempre acusando, acusando. O Belarmino fala que é um saco você ter um filho e emparedá-lo, se você vai dar um esporro nele, você pode até grudar na parede, mas tem que dar uma saída para ele.
Quando garoto seus herois eram Super-Homem, Batman e o Capitão Kirk. Hoje, qual é o seu heroi? E qual a diferença daqueles para os de hoje?
 
Luís Colombini. Hoje o meu maior heroi é uma mulher: J.K Rowling, que vendeu 200 milhões de livros no mundo, essa é a minha heroína.  Os dois casos lidam com coisas impossíveis, de um lado eles têm superpoderes e de outro uma mulher que fez uma coisa que ninguém fez.
Seu pai morreu muito novo, com 54 anos. É por este motivo que o livro tem 54 histórias? Se ele ainda estivesse vivo, o que ele contaria sobre vocês?
Luís Colombini.  É exatamente por isso que o livro tem 54 histórias.  Não faço a menor ideia [do que ele contaria]. Ele talvez me contasse do dia em que ele me salvou quando caí na piscina, isso talvez. Também de uma tarde que o acompanhei quando ele foi dar aulas nos Estados Unidos; no escritório, ele ficou trabalhando e eu fiquei em outra mesa lendo durante aproximadamente três horas. Não aconteceu absolutamente nada, ninguém falou com ninguém. E na hora de ir embora, ele disse ‘foi uma das melhores horas da minha vida’.  Sempre tinha uma cumplicidade. Foi uma bela experiência, talvez ele contasse isso.
Quando você tiver 54 anos qual vai ser o seu histórico como pai? O que você vai contar do seu filho?
 
Luís Colombini.  A gente estava pensando em fazer o Aprendi com o Meu Filho, ai falei que ia contar uma história, mas meu filho ficou bravo comigo. Quando ele tinha uns cinco anos de idade, ele queria uma bicicleta de aniversário, mas tinha que ser uma que era fabricada e vendida lá no Ipiranga. Ai pensei em fazer uma surpresa, falei para ele ir comigo em um lugar, ao invés dele falar sim, ficou me questionando. Eu insisti que ele fosse comigo na casa de um amigo meu. Fui de carro, e ele sempre perguntando onde estávamos indo. Passei na frente da loja e ele nem percebeu, fiquei super feliz. Parei o carro e fomos andando, quando chegou a uns três metros da loja eu virei para ele e falei “vira” ai ele virou e eu falei ‘feliz aniversário’, escolhe a bicicleta que você quiser. Ele ficou me olhando com uma cara, entrou meio murcho, foi lá e escolheu a bicicleta. Quando estávamos no carro de volta, ele disse que tinha gostado, mas quando virei a esquina, ele me perguntou: “pai, porque você me enganou? Falou que a gente ia fazer não sei o que com o seu amigo, e não foi isso”. Então a partir disso passei a prestar atenção, porque você nunca sabe quando vai acertar ou vai errar.
Para você, qual é o papel de um pai na sociedade em que vivemos?
Luís Colombini.  O mesmo que sempre foi, servir de modelo e referência. A questão é que os pais nunca ficaram muito em casa, só que agora eles tendem a ficar mais culpados, mais ausentes e tendem a compensar. Tem um bando de gente que eu conheço que não dá carinho para o filho, mas chega em casa e entope o filho de presentes. Claro que tem variações de pai, mas esse negócio de tentar compensar a ausência com o presente é muito comum.  Os pais acabam sendo muito permissivos, não colocam limites. Tem muitos filhos que são histéricos, ficam gritando até conseguir o que querem. Dá trabalho colocar limite. Pra mim, desde pequeno ‘não’ é ‘não’.
Qual é o presente de dia dos pais que pode te surpreender?
Luís Colombini.  Na verdade, ele já fez. Há um mês, ele leu um livro sozinho por livre e espontânea vontade. Só queria saber de jogar bola, vídeo game. Ai ele pegou um livro e leu, passou em casa e pegou mais um. Esse foi um belo presente.
 
 
Marcelo Duarte

 
No livro Aprendi com Meu Pai (Editora Saraiva), de Luís Colombini, há uma página em branco onde o próprio leitor pode escrever sua história.
 
Desafiamos Marcelo Duarte, jornalista e autor da série O Guia dos Curiosos, a contar o que ele acha que seus filhos escreveriam sobre ele nesta página em branco.
 
“Será que vou ganhar um livro desses no Dia dos Pais? Fico imaginando o que o Rodrigo, a Beatriz e o Antonio escreveriam a meu respeito. Acho que eles aprenderam a ver o mundo de um jeito bastante curioso. Os três sempre estiveram juntos comigo nas andanças que faço atrás de novidades para os livros, para o blog, para os programas de rádio e de TV. No começo, não entendiam bem por que tínhamos que rodar tanto para tomar um sorvete estranho ou para conseguir um livro todo empoeirado. Depois, eles se transformaram em companheiros dessas loucuras. Com aquele olhar de criança, os três passaram a me ajudar nas pautas das pesquisas. Certa vez, a Beatriz entrou no elevador do prédio e me perguntou o que significavam as letras P e O em um dos botões do painel. Não sabia responder. Liguei para a fábrica do elevador e descobri que PO era a sigla de “Push To Open” (aperte para abrir em inglês). Ponto para a Beatriz! O tempo vai passando, eles crescem, mas essa troca de informações e experiências só tem crescido. E é nessa convivência de pai e filhos que mostramos o quanto temos a ensinar – mas também o quanto aprendemos com eles.”
 
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