Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.08.2011 10.08.2011

Excepcional capacidade para afundar

Por Daniel Louzada, do Blog Este Livro
Na foto a capa do livro A Viagem Vertical de Vila-Matas
 
Às vezes acontece ao leitor. Às vezes, já desde o primeiro parágrafo, acontece do leitor perceber que entrou em território movediço. Essa é a sensação estranha e poderosa que provoca o universo das narrativas do espanhol Enrique Vila-Matas, um dos grandes escritores contemporâneos.
A Viagem Vertical foi o primeiro título de Vila-Matas lançado no Brasil pela Cosac Naify. Trama engenhosa e fabular em que ótimos personagens desfiam suas maneiras peculiares de ver (ou narrar) o mundo, trata-se de excelente passo de entrada na obra do autor.
O livro descreve o percurso trágico e algo cômico de Federico Mayol. Certa tarde, no dia seguinte às suas bodas de ouro, Mayol é surpreendido pela mulher: ela pede que ele vá embora de casa, que a deixe porque não sabe quem é em razão de ter passado a vida inteira a sua sombra.
O fato detona a odisséia pessoal de Mayol. Desencontrado, questiona-se sobre quem é e tem a urgente necessidade de ser outro. Esse sentimento é reforçado pela descoberta de que o filho mais velho, herdeiro e continuador de seu grande  orgulho, a Seguros Mayol, também vive profunda crise interior.
Abalado nos dois fundamentos de vida que o auto-identificavam, o catalão Federico Mayol está perdido aos 77 anos. A solução que encontra é viajar, sair de Barcelona. Parte, então, sem saber bem para onde e para que. Vai a Portugal, ao Porto, depois à Lisboa, em seguida à ilha da Madeira, ao mar, ao Atlântico. Sempre abaixo, em direção ao sul, verticalmente.
Um homem em confronto com sua história e frustrações pessoais como a falta de cultura literária. Mayol viaja em busca de si mesmo através do outro ou pela solidão essencial que a todos habita. Um velho, no fim, precisando recomeçar, ir ao fundo.
Trecho.  “Ao pensar tantas coisas, Mayol oscilava entre duas realidades contrapostas: o desespero e a alegria. Sabia que era mortal e isso, somado à injusta atitude de sua mulher, lhe causava desespero. Mas, por outro lado, sabia que triunfara sobre a morte, porque poderia perfeitamente já estar morto e no entanto vivia, o que lhe alegrava e o levara até a inventar para si uma Dulcinéia. Essa luta entre desespero e alegria constituía o núcleo principal da vida de Mayol.”
Sobre o autor. Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona em 1948. Estreou na ficção na década de 70 e desde então publicou vários livros. Veja, a seguir, outros títulos lançados no Brasil pela Cosac Naify:
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