Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.07.2014 29.07.2014

“Eu sou, antes de mais nada, um contador de histórias”, diz Etgar Keret

Por Maria Fernanda Moraes
 
“‘Conte uma história para mim’, ordena o homem barbudo sentado no sofá em minha sala (…) Tento explicar ao barbudo que, se ele guardar o revólver, isto só vai funcionar a seu favor, a nosso favor. É difícil inventar uma história com o cano de um revólver apontado para sua cabeça. Mas o cara insiste. ‘Neste país’, ele explica, ‘se você quer algo, precisa usar a força’”.
 
Mal se corre os olhos pelos primeiros parágrafos de “De repente, uma batida na porta”, o conto que abre o livro homônimo do escritor israelense Etgar Keret, e se tem algumas certezas: os dramas dos personagens estão ali e são escancarados de tal forma que beiram o tragicômico. As situações são estranhas, quase surreais, enquanto os protagonistas têm aquele jeitão do cara com quem você pode esbarrar na esquina ou encontrar na escola.
 
De Repente, Uma Batida na Porta(editora Rocco) é a primeira obra de Etgar lançada no Brasil e reúne 38 contos. O escritor vem ao país pela primeira vez para participar da 12a edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty, que tem início hoje), onde estará no sábado, dia 2 de agosto, na mesa “A verdadeira história do Paraíso”, ao lado do mexicano Juan Villoro.
 
“O Brasil é um dos poucos países do mundo onde eu nunca estive, mas sempre sonhei visitar. A natureza e o oceano incríveis são as duas coisas que me fazem fantasiar sobre esse país desde a infância. Estou feliz por finalmente realizar esse sonho e, pela primeira vez, conhecer as pessoas brasileiras”, contou ao SaraivaConteúdo.
 
Batemos um papo com o israelense sobre sua relação com a escrita, acompanhe:
 
De Repente, Uma Batida na Porta é seu primeiro livro publicado no Brasil. Há um fio condutor entre os contos dessa obra?
 
Etgar Keret. Não há uma trilha mental, mas eu acho que as histórias criam juntas um panorama da vida de uma pessoa de classe média que vive em Israel e tenta sobreviver aos dramas domésticos do cotidiano mundano, que em minhas histórias, muitas vezes, ganham um aspecto fantástico.
 
Nancy Rozenchan, a tradutora do seu livro no Brasil, comentou sobre o uso de gírias no seu texto e sobre você escrever com muita regularidade sobre temas como o sexo, mas com um vocabulário sem baixarias. Você se preocupa com a questão da linguagem?
 
Etgar Keret. Para mim, a sensibilidade da linguagem é apenas secundária em relação à  sensibilidade das criaturas vivas. As palavras que você escolhe criam a realidade do seu enunciado e, de forma muito parecida com um Deus, você tem a responsabilidade completa sobre o mundo que cria. Por isso, tem que escolher as palavras certas que serão as pedras dessa construção.
 
Além de escritor, você também é cineasta e tem uma relação forte com o cinema: mais de 40 curtas foram feitos como adaptações de suas histórias. Em que medida essa relação te ajuda na hora de escrever?
 
Etgar Keret. Eu sou, antes de mais nada, um contador de histórias e, como tal, contar histórias num novo meio de comunicação é sempre uma boa lição. Até agora, tenho experimentado contar histórias de ficção, não ficção, roteiros, teatro, histórias em quadrinhos, dança e até letras de músicas. Eu sinto que cada vez que embarco numa aventura que está além do meu habitat literário natural, volto com algumas ideias que acrescentam algo de novo à minha escrita: uma maior sensibilidade e uma facilidade em captar melhor as cores das histórias do mundo. São apenas algumas das percepções que eu tenho levado para a minha escrita de ficção depois de voltar dessas outras aventuras artísticas.
 
Você começou a escrever durante o serviço militar obrigatório. Como foi essa percepção de que suas experiências vividas poderiam ser convertidas em literatura?
 
Etgar Keret. Eu não tenho certeza nem mesmo hoje em dia de como isso se deu. Quando eu me sento e escrevo, não penso que estou fazendo literatura, só sinto que estou fazendo o que devo fazer. Escrever, para mim, é muito mais uma reflexão do que uma decisão consciente.
 
E como foi sua iniciação como leitor?
 
Etgar Keret. Eu comecei a ler quando tinha 3 anos de idade. Meu irmão mais velho me ensinou. Meus pais trabalhavam fora por longas horas, e a leitura me parecia ser a melhor maneira de passar o tempo. A primeira vez na vida que senti que a leitura era mais do que entretenimento foi quando, aos 7 anos, eu li As Aventuras de Huckleberry Finn. O tom complexo que a história tinha sobre o racismo e a escravidão me causou um tumulto emocional. Eu gostava do Huckleberry Finn, mas ao mesmo tempo, assim como Twain, queria eu também sentir que ele estava errado em acreditar que um escravo fugido deveria ser devolvido ao seu proprietário. E no final do livro, eu senti que a sua vitória moral também foi minha.
 
Você já declarou que não foi influenciado pelo modelo de escrita israelense, de estilo elevado, cujo livro ideal é o épico, e se difere de grandes nomes israelenses como Amos Oz e David Grossman. Quais foram as suas maiores influências como escritor?
 
Etgar Keret. Minhas duas maiores influências foram Franz Kafka e Kurt Vonnegut. Dois escritores que eu comecei a ler durante meu serviço militar obrigatório e cujos protagonistas tinham sentimentos muito próximos aos meus: são estressados, medrosos e imperfeitos. No mundo da eficiência militar e da padronização, seus heróis eram imperfeitos, como eu. E, ao contrário dos épicos israelenses que eu admirava, mas pareciam distantes da minha vida, esse tipo de personagem e de história eram coisas que eu acreditava que poderia escrever.
 
                                                                                                                         Yechiel Yanai
O escritor israelense vem pela primeira vez ao Brasil para lançar seu livro, De Repente, Uma Batida na Porta, na FLIP
 
E o que você lê hoje em dia?
 
Etgar Keret. Agora estamos em um estado de guerra, com mísseis sendo disparados em Israel e mais de 100 pessoas mortas em Gaza. Em momentos como este, eu só leio os jornais e espero pacientemente a sanidade retornar.
 
Ricardo Piglia dizia que um conto sempre conta duas histórias: uma visível e outra secreta, e que cada uma pode ser revelada de modos diferentes. Os seus contos, especificamente, trazem bastante dessa alternância de histórias, você brinca com a ficção e a arte de narrar. Como foi encontrar esse estilo pessoal?
 
Etgar Keret. Eu não escrevo a partir de um lugar consciente, mas se eu tentar me distanciar e analisar um pouco, acho que toda a minha escrita é construída sobre tensões: entre o mundano e o fantástico, entre o trágico e o cômico e entre o local e o universal. Para mim, a história é uma forma de energia, e as tensões dentro dela são necessárias para a sua existência.
 
Você já comentou que talvez seja um desafio para leitores de outros países, como os brasileiros, entender alguns pontos presentes na sua obra, como a relação com a violência e a imersão em uma sociedade que discute diariamente qual é a sua identidade. Você vê diferença no retorno de leitores que são seus compatriotas e dos leitores não israelenses?
 
Etgar Keret. Quando eu participei no ano passado da Feira do Livro de Guadalajara, fiquei espantado como tantas coisas que eu via como unicamente israelenses foram facilmente sentidas e vividas por meus leitores mexicanos. Eu acho que o principal ponto disso é que cada experiência emocional é universal e, mesmo se o seu contexto for distante e estranho, o sentimento por si só pode ser compartilhado através dos oceanos e do tempo.
 
 
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