Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.03.2013 04.03.2013

Êta, danado! O ‘velho’ Marcelino Freire por trás do agitador cultural

Por Maria Fernanda Moraes
 
Marcamos a entrevista para uma típica sexta-feira de verão, dessas que os paulistanos ainda relutam em se adaptar, com encontros antes e depois das chuvas. E como não podia deixar de ser, cheguei ao apartamento de Marcelino Freire em meio a um temporal. Atendendo às expectativas criadas em torno de um “agitador cultural”, o escritor estava fazendo fotos para uma revista e, enquanto trocava as primeiras palavras comigo, respondia a alguns e-mails e atualizava seu perfil no Twitter.
 
Ele realmente é esse artista multimídia que a maioria conhece. Mas, muito mais que isso, o escritor pernambucano guarda uma essência artística que hoje em dia parece mais diminuta por aí do que deveria ser. Para não deixar esse lado adormecer, se lançou em outro desafio: vai publicar um romance no segundo semestre. A oralidade, que se tornou sua marca registrada, ainda está lá, e todo esse trabalho para adaptá-la ao contexto de um romance o motivou.
 
Durante o bate-papo, Marcelino contou que esta é a terceira tentativa de escrever um romance. “Eu descobri que a minha dificuldade era porque eu ainda estava muito ligado ao universo sonoro do que eu escrevo. Eu ainda ficava maquinando aqueles sons, aquelas falas dos personagens, e aí me tornava muito escravo daquele estilo”.
 
O novo livro – Só o Pó – traz a história de um velho poeta que mora no centro de São Paulo e convive com as agruras de envelhecer sozinho. Para encontrar o fio da meada, o escritor passou cerca de um mês em Buenos Aires, no fim do ano passado. “Comecei a escrever em São Paulo várias histórias cruzadas de pessoas idosas. Mas em Buenos Aires, um desses velhos tomou a história pra si”.
 
Ele também revelou que a ideia surgiu a partir de um questionamento pessoal. “O que eu estaria fazendo daqui a 30 anos? Hoje tenho 45, sou um escritor contemporâneo, que organiza Baladas Literárias e tal. Mas o que será no futuro? Eu não tenho filhos, sou solteiro. E com essa pergunta, comecei a pensar nesse tema, que vem muito nos meus contos. Vários deles têm como personagens centrais os velhos”.
 
No enredo, o velho de Marcelino é um dos grandes poetas vivos do Brasil, mas está esquecido. É homossexual, rabugento e convive com garotos de programa e travestis no centro da cidade. “Ele tem uns 60 e poucos anos, com cara de 97, porque a poesia faz isso com as pessoas, deixa-as bem mais velhas e mais doentes também”. A história ainda ganha ares policiais quando o velho descobre que o garoto de programa com o qual ele saía foi assassinado.
 
Acompanhe mais da conversa:
 
Como foi a transição dos contos para o romance?
Marcelino: Eu queria há muito tempo escrever algo em que me sentisse desafiado. Pensei em voltar a escrever para teatro, mas tive vontade de me dedicar a algo mais longo. Isso não significa que vou abandonar minha voz literária. Você lê o romance e sabe que tem ali uma articulação, um trabalho de rimas. Mas isso a serviço de uma história, de um personagem.
 
Você ministra muitas oficinas de criação literária. Acredita que esse ofício de escritor pode ser lapidado?
Marcelino: Oficina não ensina ninguém a ser escritor. Se eu conseguir transformar alguém em leitor, já vai ser bom demais! O que acontece muito é que as pessoas querem publicar, não querem escrever. Quando elas percebem que escrever requer leitura, treino, disciplina, entrega, um encontro com a sua voz, aí algumas se assustam, desistem. As pessoas também  acham que precisam de um vocabulário elevado, pensar em palavras como “efêmera”, “inefável”, “leve brisa matinal”, “orvalho”. Nunca vi gostar tanto de “outono”! [risos] Nós não temos outono! De onde vem esse outono? Eu digo: “Eu quero a tua palavra! Qual é a tua palavra?”. O poeta inaugura um olhar para as coisas, e eu quero que as pessoas consigam lançar esse olhar.
 
Você mora em São Paulo desde 1991. Qual a influência da cidade na sua obra hoje?
Marcelino: Angu de Sangue só foi possível porque eu vim morar em São Paulo. Eu descobri que escrevia diferente, com essa cantoria, esse jeito rimado, depois que cheguei aqui. As pessoas me falavam “Nossa, você escreve cantado”. São Paulo contaminou a minha literatura, deu o sotaque a ela. São Paulo também me deu o Recife, porque eu não sabia que tinha o Recife em mim.
 
Te incomoda carregar essa alcunha de “agitador cultural”?
Marcelino: Eu adorei uma expressão que um escritor amigo meu, Jommard Muniz de Brito, me disse: eu não sou um agitador cultural, sou um AGITADO cultural. Eu achei isso ótimo! Tenho essa agitação em mim, sempre fiz isso para não me sentir pequeno, menor. Porque a gente tem tudo contra a gente: não temos dinheiro, não temos tempo, é muita coisa que a gente não tem. E eu tenho dificuldade em acreditar que o escritor é só essa figura que se isola, que escreve um livro e já resolveu. Acho que temos que lembrar que somos escritores contemporâneos, e estamos num país em que se lê muito pouco e onde muitos escritores morreram esquecidos.
 
O que você lê atualmente? Como procura por novos escritores?
Marcelino: As oficinas têm me ajudado muito. Eu fico torcendo para que os alunos “acordem pra Jesus” para a gente tomar cerveja juntos! Quero um exército de gente tomando cerveja e conversando e comendo amendoim [risos]. Também me mandam muitos livros, originais… Atualmente estou muito animado com autores novos, como a Japa Tratante, o Felipe Valério, Inês Monguilhott, Jorge Antonio Ribeiro. E sempre acompanho as atividades do Sarau da Cooperifa, liderado pelo Sérgio Vaz.
 
 
 
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