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Estrangeiro na terra de David Byrne, Caetano Veloso se afina com ‘talking head’ em NY

Por Mauro Ferreira do Blog Notas Musicais
Resenha de CD
Título: Caetano Veloso and David Byrne Live at Carnegie Hall
Artistas: Caetano Veloso e David Byrne
Gravadora: Nonesuch
Cotação: * * * *
 
O lançamento do CD Caetano Veloso and David Byrne Live at Carnegie Hall nos Estados Unidos neste primeiro semestre de 2012 – em edição da gravadora Nonesuch Records ainda não disponibilizada no Brasil – expõe afinidades e conexões entre o cantor e compositor baiano e o artista escocês residente em Nova York (EUA), cérebro do já desativado grupo Talking Heads.
 
Na gravação ao vivo, captada na apresentação de 17 de abril de 2004 que juntou Caetano e Byrne no palco do Carnegie Hall, Caetano e Byrne se encontram e se afinam em cinco dos 18 números do show centrado nas vozes e nos violões dos artistas. Caetano é o anfitrião – o que convida o violoncelista Jaques Morelenbaum a entrar em cena a partir do quinto número, Coração Vagabundo (Caetano Veloso, 1967) –  ao mesmo tempo em que é o estrangeiro na terra musical de Byrne.
 
O disco expande e oficializa uma conexão que começou informal quando o álbum Estrangeiro (1989), de Caetano, foi lançado nos Estados Unidos, merecendo elogios públicos de Byrne.
 
Em 1990, um dueto em (Nothing But) Flowers – música composta por Byrne com três integrantes do Talking Heads (Chris Frantz, Jerry Harrison e Tina Weymouth) e lançada pelo grupo no álbum Naked (1988) – no Montreux Jazz Festival, na Suíça, desenvolveu a conexão que gerou até parceria bissexta de Caetano com Byrne, Dreamworld: Marco de Canaveses, gravada pela dupla em 1998 em disco da série beneficente Red Hot + e rebobinada neste sedutor disco ao vivo.
Como Caetano é o estrangeiro em NY, o CD oferece aos norte-americanos breve recorte de sua obra no set inicial feito por Caetano com sua voz, seu violão e as adesões de Morelenbaum e do percussionista Mauro Refosco (convidado a entrar em cena em Manhatã, canção de 1997, emblemática no roteiro por reiterar a condição  de estrangeiro de Caetano no palco do Carnegie Hall). 
Byrne – o convidado de honra – entra em cena no meio de música de sua lavra solitária entoada por Caetano, The Revolution (David Byrne, 2001), alvo de um dos duetos mais harmoniosos do disco. A entrada de Byrne em cena é a deixa para o início do set individual do talking head – após o qual acontece a maior interação entre ambos.
 
A foreign sound para Byrne, Um Canto de Afoxé para o Bloco do Ilê (Caetano Veloso e Moreno Veloso, 1982) põe em cena o português tosco do talking head. Já Nothing But (Flowers) – cantada pelo dois na língua-mãe do universo – é o ápice do encontro, o ponto culminante da beleza, apesar do caráter déjà vu do dueto.
 
Neste apogeu, terra é ceu se irmanam, ou seja, Terra (Caetano Veloso, 1979) e Heaven (David Byrne e Jerry Harrison, 1979) são alocadas lado a lado, belas canções geradas no mesmo ano de 1979. Heaven ganha uterino contracanto de Caetano, estrangeiro que sempre falou a língua do mundo com sua música e que, por isso mesmo, se afina tanto com Byrne neste CD ao vivo.
 
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