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Esse tal de rock’n’roll (parte II)

Por Diego Muniz e Felipe Candido
 
Para entender como o rock'n'roll tupiniquim (do mais transgressor ao moderno) se formou, perguntamos aos músicos, produtores e jornalistas quais lugares frequentavam, que bandas escutavam e como se informam há três décadas. Os depoimentos formam um panorama do rock nacional antes mesmo dele ser considerado o tal.

Perguntamos para cada um:
Qual o álbum de rock que marcou sua vida?
Quais locais você frequentava 30 anos atrás?
Que show marcou sua vida?
Quais bandas escutava?
Como se informava?

 
 
Humberto Gessinger (Porto Alegre)
Líder da banda Engenheiros do Hawaii
Álbum Animals, do Pink Floyd. Já era fã da banda, mas esse foi o primeiro disco deles que comprei em "tempo real", logo que lançado
Locais Shows, lojas de instrumentos e de discos. Em nenhum dos três casos tínhamos muitas opções em Porto Alegre. O lugar mais legal, onde várias bandas locais tocavam em shows coletivos, era o Auditório Araujo Vianna. Um local ao ar livre, no maior parque da cidade, o Redenção. Tocar lá a primeira vez foi um rito de passagem para quem tinha estado na arquibancada
Show Por coincidência não foram de rock. Foram de argentinos: Astor Piazzolla e Atahualpa Yupanqui. Também vi John McLaughlin e Egberto Gismonti no gigantinho. Difícil acreditar, hoje, que música instrumental lotava ginásios
Bandas Rock progressivo. Sou o último remanescente dessa tribo. Quanto mais obscuras, mais gostávamos, como a italiana PFM e a alemã Triumvirat
Fonte de informação Revistas importadas, que eram sempre poucas e antigas
 
Nelson Motta (Rio de Janeiro)
Jornalista, compositor e produtor musical
Álbum Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band [Beatles] ou o Hotter Than July, de Stevie Wonder
Locais Noites Cariocas, no Morro da Urca, já que eu era o dono da casa (risos). Lá tocaram todas as melhores bandas de rock do Brasil
Bandas Gostava muito da Blitz e da Gang 90 e As Absurdettes. E internacionais, The Police, Blondie, Eurythmics, Rolling Stones, Led Zepelin e Kid Creole and the Coconuts
Shows O dos Rolling Stones, em Nápoles, 1982 (que pude assistir do palco – não há dinheiro que pague
Fonte de informação Era muito amigo do Ezequiel Neves e do Julio Barroso, que sabiam de todas as novidades (risos). Também lia a Rolling Stone americana e a New Musical Express inglesa. O rádio também tocava muitas novidades. Também viajava bastante para Nova York nessa época
 
Rogério de Campos (São Paulo)
Jornalista, editor e vocalista da Banda Crime
Álbum   Let it Bleed, dos Rolling Stones.  Mas também The Bells, porque foi o disco que me fez descobrir Lou Reed. London Calling, do The Clash. E uma coletânea que nem sei o nome do Jimi Hendrix
Locais Madame Satã, devo ter tocado lá umas dez vezes, Napalm e Carbono 14
Bandas Clash, Lou Reed, Doctor Feelgood, 999, Kurtis Blow, Warren Zevon, Gang of Four, Stranglers, Gil Scott-Heron e sempre Rolling Stones
Show Honestamente: The Internationalists, com o Minho K, Thomas Pappon e Jair Marcos, na PUC
Fonte de informação Não me informava. Era bem ignorante. Lia algumas revistas gringas que chegavam atrasadas, lia a Ilustrada, a Pipoca Moderna e não tinha muito mais que isso
 
Ricardo Schott (Rio de Janeiro)
Jornalista, gerente de conteúdo da LabPop Content e colaborador da Billboard
Álbum O disco que eu mais escutei na vida, a ponto de quase furar o vinil (ou danificar o CD) foi o Physical graffiti, álbum duplo do Led Zeppelin, de 1975. Mais recentemente, discos como Nevermind, do Nirvana (1991) e Vs, segundo do Pearl Jam (1993), cumpriram esse papel
Locais Eu tinha oito anos. Mas na época já estava dando os primeiros passos como fã de rock, por causa do meu pai e dos meus tios. Lembro-me de reuniões do meu tio com amigos em que eles ouviam discos de rock no último volume. E meu pai, todo fim de semana, acordava com os álbuns Atom Heart Mother, do Pink Floyd (1970), e Journey to the Centre Of The Earth, do Rick Wakeman (1974)
Bandas Com oito anos, o que eu mais ouvia era rock nacional, porque era a música que meus primos mais velhos ouviam, que a molecada do colégio escutava. E meus pais gostavam também. Por outro lado, recebi muitas informações de Beatles e de rock progressivo da minha família
Show Todos os que os Rolling Stones fizeram no Brasil, e o do Paul McCartney em São Paulo, em 2010
Fonte de informação Só pela televisão e pelo rádio. Em 1982, quando era bem criança, a rádio Fluminense começou a tocar rock no Rio. Como meu pai estava montando um negócio e havia feito uma série de anúncios lá, minha família passava o dia fazendo escuta para ouvir os anúncios. Claro que eu acabava mais era escutando as bandas!
 
 
Mauricio Nogueira (Rio de Janeiro)
Guitarrista do Matanza
Álbum Creatures of the Night, do Kiss. Esse foi o primeiro disco de rock que ganhei na vida. Depois vieram outros, Fresh Fruit, do Dead Kenneys, meu primeiro disco de punk hardcore. Na ala nacional, sem dúvida Sepultura, com Beneath the Remains, Ratos de Porão com Brasil e o Camisa de Vênus com disco ao vivo
Locais Tinha 5 anos de idade, então eu gostava mesmo era de jogar bola na rua
Bandas Kiss, passei alguns anos no fim da minha infância só ouvido eles. Depois minha lembrança já era com discos do Dead Kennedys
Fonte de informação Comecei a ler sobre música com a revista Bizz, tinha também a revista Som Três, que fazia uns pôsteres “animais” de umas bandas. Logo depois surgiu as revistas Metal e Rock Brigade, onde descobri tudo sobre o que eu mais gostava, heavy metal e trash
 
Beto Bruno (Porto Alegre)
Vocalista do Cachorro Grande
Álbum O segundo disco dos Mutantes de 1969. Acho o melhor álbum de rock já gravado no Brasil. E para mim foi a maior influência saber que pode ser feito rock de primeira qualidade cantado em português
Locais Ainda era uma criança. Mas logo em seguida, na adolescência, comecei a frequentar shows de rock de bandas brasileiras
Bandas Titãs, Ira! e Ultraje a Rigor. Inclusive tenho a discografia completa delas e, ainda hoje, sempre que posso, vou aos shows
Fonte de informação Ficava ligado em todos os shows que passavam pela cidade onde eu morava. Mas, o mais importante, o que mais rolava, eram as fitas K7 que a rapaziada trocava entre si
 
 
Paulo Ricardo (São Paulo)
Vocalista e baixista do RPM
Álbum Help, do The Beatles. Esse foi o primeiro disco que comprei na vida e a partir dele tornei-me um beatlemaníaco incurável
Locais Madame Satã, no Bexiga. O Satã foi uma casa fundamental para o rock brasileiro dos anos 80, onde punks, skinheads, góticos, jornalistas e modernos em geral se encontravam para assistir a centenas de bandas novas que surgiam, entre elas o RPM
Bandas The Beatles, Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, Joy Division, The Police, Echo & The Bunnymen e The Clash
Fonte de informação Revistas como a Rolling Stone americana, The Face, Arena, NME, Melody Maker, alguns poucos programas de rádio na Fluminense, Kid Vinil e muito boca a boca
 
 
Leu a primeira parte da matéria?
Os depoimentos de John Ulhoa, Kid Vinil, Fábio Cascadura, Clemente Nascimento, Fê Lemos, Arnaldo Dias Baptista e Zeca Baleiro
Veja aqui
 
 
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