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Essa história daria um livro: laços de amor e amizade que foram eternizados

Por Maria Fernanda Moraes
 
Você já deve ter escutado várias vezes alguém dizer “Nossa, essa história daria um livro!”. Pois é, histórias incríveis não são necessariamente aquelas com enredos fantásticos, quase impossíveis ou muito trágicos. Basta apenas ser boa. E boas narrativas de amor e amizade são pratos cheios para se transformarem em livros e eternizarem esses laços.
 
“Eu tenho ideias para romances e ela tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante” – essa é uma das frases que o escritor José Saramago diz no documentário José & Pilar, lançado em 2010. Miguel Gonçalves Mendes, diretor do filme, resolveu reunir num livro o material inédito resultante dos anos acompanhando o casal – Saramago e sua esposa, a jornalista espanhola Pilar del Río – para o documentário. A obra José & Pilar – Conversas Inéditas (Companhia das Letras) traz entrevistas realizadas durante o período em que o diretor conviveu com o autor e sua alma gêmea.
 
Lançado recentemente, o título expõe as opiniões dos dois sobre temas polêmicos e outras trivialidades, denota suas personalidades diferentes e complementares. São depoimentos sinceros e comoventes sobre trabalho, arte, morte e, claro, sobre o amor que os unia.
 
Seguindo na linha dos casais na literatura, Querido Scott, Querida Zelda (Companhia das Letras) reúne a correspondência trocada pelo escritor F. Scott Fitzgerald e sua mulher, Zelda Sayre Fitzgerald.
 
As cartas vão de 1918, ano em que os dois se conheceram, até 1940, quando Fitzgerald morreu após um ataque cardíaco, em Hollywood. O relacionamento conturbado do casal foi o catalisador e a inspiração para quase todos os trabalhos que publicaram.
 
Zelda sofria de uma doença mental e Scott era dependente alcoólico, o que sempre gerou comentários sensacionalistas sobre a relação. Um dos mitos difundidos pelos jornais da época era o de que Scott tinha muitos ciúmes da criatividade de Zelda e reprimia o talento da esposa por conta disso, levando-a à loucura. 
 
O casal se mudou diversas vezes e morou em Paris por um certo período, em 1924, onde conviveram com escritores americanos como Gertrude Stein e Ernest Hemingway. As correspondências conseguem nos dar uma visão do panorama intelectual da "era do jazz" e da "geração perdida" da época, além de expor as sucessivas brigas e reconciliações do casal.
 
Outro par famoso no meio literário é, indiscutivelmente, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Memórias de uma moça bem-comportada (Editora Nova Fronteira) narra lembranças da autora no período entre 1908 e 1929.
 
Simone fala da sua infância e juventude, estudos, amizades e como conheceu Sartre. Esse é o primeiro volume da sua autobiografia e foi escrito quando a autora tinha 48 anos.
 
Ela conta importantes passagens da sua vida, como a sua opção por estudar filosofia, a amizade com Zaza, que faleceu aos vinte anos, e sua iniciação na vida boêmia em Paris nos anos 1920, e fecha com chave de ouro narrando seu encontro com Jean-Paul Sartre, o importante filósofo e seu companheiro por muitos anos.
 
LAÇOS DE AMIZADE NA LITERATURA
 
Dois escritores mineiros, grandes amigos que passaram a se corresponder por cartas. É essa a história contada em Cyro & Drummond (Editora Globo), que traz as correspondências entre Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos, fruto de uma amizade que teve início no final da década de 1920, em Belo Horizonte.
 
Drummond era o então editor do Diário de Minas e Cyro acabara de ingressar como redator. A obra reúne as correspondências entre 1931 e 1986 e não se restringe somente a cartas: são 163 textos, bilhetes, telegramas, radiogramas e cartões-postais. A novidade da publicação fica por conta das confissões pessoais e literárias que os dois comungavam devido ao forte laço de companheirismo que permitia essa intimidade.
 
Também por meio de cartas se fez a amizade entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, como pode ser conferido no livro Clarice Lispector e Fernando Sabino Cartas perto do coração (Editora Record). As correspondências trocadas por eles datam de 1946 a 1969.
 
“Trocávamos ideias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos, reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo”, diz o próprio Sabino nas páginas da publicação. Apesar de vários momentos de pausa, a correspondência manteve uma cadência de vários anos.
 
O início foi quando Clarice ainda morava em Berna, na Suíça, e escrevia ao autor mineiro, que morava no Rio de Janeiro na época. Como os dois sempre se mudavam muito de residência, as correspondências perduraram por diferentes lugares do mundo. Em 1946, Sabino se mudou para Nova Iorque, enquanto Clarice fixou residência em Washington, em 1952. A partir dessa data, Sabino retornou ao Rio de Janeiro.
 
AS FAMOSAS CARTAS DE MARIO DE ANDRADE
 
O filósofo Michel Foucault dizia no livro O que é o autor que a escrita compartilhada por meio das cartas é uma maneira de se aperfeiçoar toda a vida, uma atitude na qual a ajuda alheia é sempre necessária ao trabalho da alma sobre si própria.
 
E ninguém menos do que Mario de Andrade usufruiu dessa ideia. Em Câmara Cascudo e Mário de Andrade – Cartas, 1924-1944 (Editora Globo), os escritores – Cascudo em Natal e Mario em São Paulo – discutiam sobre as novidades do mundo, artes, política. Numa das passagens da obra, Cascudo (que nas cartas é chamado carinhosamente de Cascudete) chega a passar o endereço de Stravinsky para Mário (carinhosamente apelidado pelo amigo de “bestão”).
 
Câmara Cascudo e Mário de Andrade – Cartas, 1924-1944
 
Mario de Andrade também teve um envolvimento com Anita Malfatti, que pode ser conhecido mais a fundo na publicação Cartas a Anita Malfatti (Editora Forense), organizada por Marta Rossetti Batista. As cartas tornaram-se frequentes no período de 1923 e 1928, quando a artista foi estudar na França por meio de uma bolsa do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo.
 
Nesse período, Anita declarou seu amor a Mario, mas não foi correspondida. A carta que traz a declaração foi rasgada a pedido dela, mas a posterior, na qual ela faz o pedido, foi guardada por Mario. "Cometi um crime de lesa-amizade. Escrevi uma carta sentimental a um amigo. Perdoe-me", pede Anita na correspondência posterior. Depois do episódio, Mario sempre se dirige a Anita com termos carinhosos, mas de cunho fraternal.
 
Em outra relação de amizade, Cartas a um Jovem Escritor e Suas Respostas (Editora Record), Mario de Andrade troca ideias com o então jovem escritor mineiro Fernando Sabino.
 
Era a consagração para o iniciante que, em 1942, recebe uma carta de ninguém menos que Mário de Andrade, precursor do Modernismo no país. Entusiasmado com as palavras de Mario, Sabino responde à correspondência emocionadamente e faz nascer assim uma longa amizade entre os dois, apesar da diferença de idade.
 
Por fim, o livro Pio e Mário – Diálogo da Vida Inteira (Editora Ouro Sobre Azul) mostra um diferencial entre as trocas de correspondências do escritor paulista. Isso porque Mario era acostumado a escrever para outros autores, artistas, músicos e intelectuais da época. Essa publicação, entretanto, reúne 204 correspondências trocadas entre Mário e Pio Lourenço Corrêa, um homem de modos simples mas de personalidade original, com um toque de excentricidade.
 
Pio era um parente distante de Mario e proprietário da Chácara da Sapucaia, em Araraquara, na qual o escritor se refugiava da rotina na cidade. Foi essa mesma propriedade que sediou a inspiração do autor para escrever Macunaíma em apenas seis dias. A obra traz ainda notas e textos de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, além de um abrangente registro fotográfico de pessoas, lugares e eventos importantes na reconstrução da história comum aos correspondentes.
 
A MÚSICA TAMBÉM É PALCO DE GRANDES HISTÓRIAS
 
Certamente o meio musical não poderia ficar de fora desse celeiro de boas histórias. Patti Smith e Robert Mapplethorpe protagonizam uma delas em Só Garotos (Editora Companhia das Letras).
 
Narrado pela própria Patti, o livro conta detalhes da época de ebulição de Nova Iorque, com suas casas de shows, livrarias e bares no momento da libertação artística e sexual. Era o cenário dos anos 60 em que jovens artistas, poetas e músicos buscavam seu lugar. Patti Smith, que foi a musa dos primeiros passos do punk, conta sua bela história de amor com o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe.
 
A obra vai desde a segunda metade da década de quarenta até o final da década de oitenta, período em que Robert, já famoso como fotógrafo de nus provocantes, morre vítima da AIDS. Permeando a história, a cantora expõe muitos detalhes da busca dos jovens artistas daquela época pela expressão artística pela qual tanto lutavam.
 
Conhecido como pai do rock na França, Serge Gainsbourg teve sua história de amizade com seu motorista, Alann Parouty, contada no livro Serge, mon patron – Le Carnet du Chauffeur de Serge Gainsbourg (Editora Pascal – ainda sem tradução para o português).
 
O autor trabalhou como motorista de Serge durante 12 anos e foi se tornando amigo e confidente do artista. Além de cantor, Serge foi escritor, diretor de cinema, fotógrafo, artista plástico e ator. Destacou-se também pelos inúmeros romances com estrelas do cinema da época, como Brigitte Bardot.
 
As amizades, entretanto, também podem não ter um final muito feliz. Foi o caso do rei Roberto Carlos e seu mordomo, Nichollas Mariano. A história da relação entre os dois e o desfecho nem tão amigável está em O rei e eu – minha vida com Roberto Carlos (Editora Edipan).
 
Capa do livro O rei e eu – minha vida com Roberto Carlos
 
Segundo o próprio autor, ele conheceu o cantor no início da carreira artística e o ajudou nas exposições pelas rádios, negociando com os locutores para tocarem o ainda desconhecido Roberto Carlos. A partir daí, desenvolveram uma amizade muito próxima, e Nichollas chegou a morar na casa do rei, prestou serviços como secretário particular e, posteriormente, foi nomeado mordomo.
 
Depois de 11 anos trabalhando juntos, houve um desentendimento e cortaram os laços. Foi quando Nichollas Mariano teve a ideia de escrever a obra, publicada em 1979.
 
Roberto Carlos, porém, não gostou da ideia e chegou a recorrer à justiça para proibir o livro, mas foi em vão. Apesar de o autor não denegrir a imagem de Roberto, ele conta detalhes particulares da vida profissional e sexual do cantor. Atualmente esgotada, a publicação é considerada peça rara de colecionadores.
 
AMIZADE BICHO + HUMANOS
Um dos laços de companheirismo e fidelidade mais antigos não poderia ficar de fora dessa seleção. E John Grogan e seu cachorro Marley representam muito bem essa forte relação.
 
O aclamado livro Marley & Eu – Vida e Amor ao Lado do Pior Cão do Mundo (Editora Agir), que também foi adaptado para o cinema e obteve o mesmo sucesso, narra as aventuras de um casal recém-casado que resolve comprar um cão para testar suas habilidades como futuros pais.
 
Capa do livro Marley & Eu
 
A vida da família, porém, nunca mais seria a mesma. Marley, um atrapalhado labrador de 44 kg, destruía tudo, rompia paredes de compensado, babava nas visitas, apanhava roupas de varais vizinhos e comia praticamente tudo o que via pela frente.
 
Nem as escolas de adestramento funcionaram. Com a chegada dos filhos do casal, as responsabilidades aumentaram e as proezas do cachorro também. A família ainda se muda de estado, se adapta a uma nova vida e passa a entender o amor incondicional que sentem pelo animal até o final da sua vida.
 
 
 
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