Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros 15.09.2020 15.09.2020

Especial Agatha Christie

Agatha Mary Clarissa Miller é o nome de batismo da Grande Dama do Mistério, Rainha do Crime ou simplesmente de Agatha Christie, a maior escritora de romances policiais de todos os tempos.

Em quase uma centena de livros e contos ela definiu o gênero literatura de mistério, criando personagens que cativam milhões de fãs leitores e influenciando outros autores em todo o mundo, desde 1920.

CONHEÇA OS LIVROS DE AGATHA CHRISTIE AQUI.

Nascida na cidade de Torquay, no Sul da Inglaterra, em 15 de setembro de 1890, Agatha Christie era a terceira filha do casal Frederick, americano e Clara, britânica. Seus irmãos mais velhos, Madge e Monty, receberam uma educação formal, enquanto Agatha foi educada em casa pela própria mãe e alguns tutores até os 14 anos de idade, mesmo depois da morte de seu pai, que aconteceu quando ela tinha apenas 11 anos.

Com a morte do pai a família começou a viajar por vários lugares do mundo e foi em Paris que Agatha entrou, aos 16 anos, em uma escola de aperfeiçoamento, onde se destacou no canto e no piano. O sobrenome Christie veio de seu primeiro marido, o coronel aviador Archibald Christie, que conheceu em 1912 e viveu um romance conturbado, se casando com ele na véspera de natal de 1914, com o mundo já em guerra.

Enquanto o Coronel Archibald atuou como combatente na I Guerra Mundial, Agatha Christie trabalhou em um hospital e uma farmácia, onde aprendeu muitos sobre venenos, meio de muitos dos assassinatos de seus livros. Aliás, esse é um traço comum de toda a extensa obra de Agatha, de inserir nas narrativas elementos da vida real, inclusive pessoas reais em quem ela se inspirou para criar grandes personagens.

ESPECIAL MISTÉRIO, SUSPENSE E TERROR.

O primeiro livro de Agatha Christie

The Mysterious Affair at Styles, ou O Misterioso Caso de Styles, primeiro livro de Agatha, onde estreou também um de seus mais famosos personagens Hercule Poirot, começou a ser escrito em 1916, e foi lançado em 1920. Isso mesmo 2020 é um ano para os muitos fãs de Agatha comemorarem 100 anos do lançamento de seu primeiro livro, que na época vendeu apenas 2.000 cópias, o que era bom, mas não espetacular.

Depois da estreia vieram O Adversário SecretoThe Secret Adversary), Assassinato no Campo de Golfe ( The Murder on the Links), O Homem do Terno Marrom (The Man in the Brown Suit), Poirot Investiga (Poirot Investigates) e O Segredo de Chimneys (The Secret of Chimneys). Mas o sucesso veio em 1926 com a publicação de O Assassinato de Roger Ackroyd (The Murder of Roger Ackroyd), em que Agatha teria quebrado as regras do romance policial, o que causou polêmica na época.

A polêmica é que o romance policial tinha regras narrativas, que eram basicamente que o crime da história deveria ser bem definido e sua resolução, lógica e confiável. E a resolução do mistério de O Assassinato de Roger Ackroyd eram tão surpreendentes que teriam quebrado essa regra. Independentemente disso, o livro foi escolhido em 2013 o melhor romance policial de todos os tempos pela Associação Britânica de Escritores de Ficção Criminal.

LEIA MULHERES: CLÁSSICOS ESCRITOS POR GRANDES AUTORAS.

O desaparecimento de Agatha Christie

Mas a questão da regra narrativa nem de longe foi a maior polêmica pessoal da vida de Agatha Christie. Em 3 de dezembro de 1926, com ela já famosa como escritora, seu marido Archie pediu o divórcio, por estar apaixonado por outra mulher. Agatha teria saído de sua casa em Styles às 21:45h, com uma pequena mala. E seu carro foi encontrado vazio, com os faróis acesos, em um barranco do lago Silent Pool.

O desaparecimento de Agatha causou comoção nacional, com uma recompensa de 100 Libras Esterlinas por quem desse notícias de seu desaparecimento e um grande aparato de buscas montado, que incluiu 15.000 pessoas entre mergulhadores, escoteiros, pilotos e voluntários. Foi inclusive a primeira vez em que se utilizou aviões para procurar uma pessoa desaparecida na Inglaterra.

O caso era ainda mais notável pelas circunstâncias, já que além do processo de divórcio e da maneira como o carro foi encontrado, Agatha havia escrito uma carta ao marido Archibald, com críticas pesadas, uma para sua secretária, Carlo Fisher, pedindo para cancelar sua hospedagem em Yorkshire e uma para o vice chefe de polícia do Condado de Surrey, dizendo que Archie temia por sua segurança.

Agatha Christie foi localizada 11 dias depois de seu desaparecimento, hospedada como Teresa Neele no Hydropathic Hotel, hoje Old Swan Hotel, em Harrogate, onde havia sido vista dançando, jogando bridge, fazendo palavras cruzadas e lendo jornais. O músico que a reconheceu, Bob Sanders Tappin, disse que a chamou de Mrs. Christie e ela atendeu, mas disse estar sofrendo de amnésia.

Até hoje persiste a polêmica sobre a real natureza de seu desaparecimento: Fãs e estudiosos discutem se Agatha realmente teria perdido a memória depois do acidente de carro, se queria se vingar de seu marido, fazendo com que ele fosse acusado de assassiná-la, ou se tudo não haveria sido um golpe publicitário para promover O Assassinato de Roger Ackroyd, que lançado semanas antes, continuava na lista dos mais vendidos.

Para apimentar ainda mais a discussão, há quem diga que o livro O Retrato, que Agatha publicou com o pseudônimo Mary Westmacott tem muito das experiências pessoais da grande escritora a inspirar a personagem Celia, que pensa em suicídio após ser abandonada pelo marido.

O segundo casamento de Agatha Christie

Apesar de todo o escândalo causado por seu desaparecimento, Agatha Christie só se divorciou oficialmente de Archibald em 1928. No mesmo ano, foi ao Oriente Médio a convite do arqueólogo Leonard Wooley, onde conheceu Max Malowan, também arqueólogo e 14 anos mais jovem que ela, com quem se casou. A união duraria até a morte de Agatha Christie, em 12 de janeiro de 1976, aos 85 anos.

Agatha manteve o sobrenome Christie porque era assim que ela era conhecida por seus leitores, mas na vida pessoal, fazia questão de ser chamada de Senhora Malowan. Ela acompanhou seu marido em todas as viagens pelo mundo, absorvendo informações que iriam fazer parte de muitos de seus melhores livros.

Rosalind, a única filha que teve com Archibald Christie, se casou no começo da Segunda Guerra Mundial e, em 1943, teve um filho chamado Mathew Prichard, único neto de Agatha Christie e administrador da fundação que cuida do legado cultural e financeiro da escritora desde a morte de Rosalind, em 2004.

Os personagens mais famosos

Uma das características dos personagens de Agatha Christie é que, apesar de eles conseguirem resolver mistérios aparentemente insolúveis, e terem como característica a inteligência,  eles são “gente como a gente”, não sendo incrivelmente bonitos, fortes ou atléticos. Muito tempo antes de alguém falar sobre o assunto, a ficção de Agatha Christie poderia ser chamada de inclusiva.

Hercule Poirot

Inspirada e um belga que conheceu na sua cidade natal Torquay, Agatha Christie imaginou Hercule Poirot como um homem extremamente organizado, sempre bem vestido e nem um pouco modesto, pois sempre se gaba de como sabe usar suas células cinzentas, ou seja, seu cérebro. Seu próprio nome, Hércules, é uma ironia, já que poucos identificariam com o semideus da mitologia grega um homenzinho de 1,60 metro de altura.

Hercule Poirot x Sherlock Holmes

Isso mesmo, muito antes dos fãs da Marvel e DC começarem a discutir quem venceria uma luta entre seus heróis favoritos, os fãs de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle discutem quem é o melhor detetive da literatura, Sherlock Holmes ou Hercule Poirot.

A diferença de estilo entre os dois é que Sherlock Holmes descobre o criminoso através das pistas que ele deixa no local do crime. Poirot despreza esse método e chama seus colegas de cães de caça humanos, que buscam pistas pelo chão. Ele por sua vez, utiliza como meio de dedução de quem é o culpado, o interrogatório de todos os envolvidos e  seu conhecimento da psicologia humana.

Miss Marple

Jane Marple é uma senhora solteirona que vive na cidadezinha britânica de St. Mary Mead. Como muitas senhoras idosas, ela passa seu tempo tricotando, e cuidando do jardim. Muita gente subestima sua inteligência, inclusive seu sobrinho Raymond West, um escritor famoso que é seu único parente vivo. Mas quando aparece um crime a ser resolvido, não só a inteligência, mas o conhecimento de Miss Marple sobre a natureza humana fazem a diferença.

Tommy e Tuppence

Tommy e Tuppece Beresford são um casal de aventureiros que se conhece desde criança, crescem, se apaixonam, se casam, têm filhos e envelhecem juntos ao longo de 5 livros. Agatha Christie descreve Tommy como não sendo um homem atraente, mas com o charme de um cavalheiro. Sua lentidão é o contraponto perfeito ao temperamento impetuoso e arrojado de Tuppence.

Parker Pyne

Outra figura diferente do estereótipo de um herói tradicional, Parker Pyne é gordo, careca e se apresenta como um detetive do coração, especializado em tornar as pessoas felizes. Mas além de resolver os problemas de esposas ciumentas e maridos fracassados, ele enfrenta também ladrões, sequestradores e assassinos, usando como arma sua inteligência e conhecimento da alma humana.

Ariadne Oliver

Ariadne Oliver é Agatha Christie rindo de si mesma. Essa personagem, alívio cômico de Parker Pyne, e depois de Hercule Poirot aparece em 6 livros da autora. Ela é uma escritora  de livros de mistério meio rabugenta que, ao invés de inteligência e dedução, tenta usar sua “intuição feminina” para descobrir os culpados dos crimes, mas frequentemente está errada.

Em um caso de metalinguagem que é bem típica do humor britânico, Ariadne criou um detetive finlandês chamado Sven Hjerson, de quem frequentemente se queixa da personalidade, como se ele fosse uma pessoa real. Segundo os fãs de Agatha, os comentários de Ariadne sobre Sven refletem a opinião dela sobre Poirot e sobre a sua própria obra.

Os livros mais famosos

Assassinato no Expresso do Oriente

Murder in The Orient Express é o Caso mais famoso de Hercule Poirot, ele ocorre durante o percurso de trem que liga Paris  a Istambul. Vendeu 3 milhões de cópias no ano de seu lançamento, 1934 e foi adaptado várias vezes para o cinema e TV. A mais famosa delas é a de 1974, dirigida por Sidney Lumet, que valeu um Oscar de melhor atriz coadjuvante para Ingrid Bergman. A versão mais recente é de 2017, dirigida por Keneth Branagh.

E não sobrou nenhum

O título original era Ten Lillte Niggers, baseado em uma antiga cantiga folclórica . Mas se considerou que o título poderia ter uma conotação racista nos Estados Unidos , e o título foi alterado para And Then There Were None , E não sobrou nenhum, em português. No livro, 8 pessoas, aparentemente sem conexão entre si, dirigem-se à intrigante “Ilha do Soldado”, após serem convidadas por correspondência por U. N. Owen e sua esposa, sob diferentes pretextos.

Curtain

Publicado no Brasil como Cai o Pano, narra a última aventura e a morte do detetive Hercule Poirot, que velho e doente, volta ao local de seu primeiro caso para resolver outro, sem saber que seria o último. Poirot era tão popular que seu obituário rendeu uma página no New York Tiimes.

Cai o pano foi publicado em 1975, pouco antes da morte de Agatha Christie, que escreveu esse livro na década de 1940, durante a 2a Guerra Mundial. Temendo não sobreviver à guerra, ela deixou um fim digno para seu personagem, de modo que ele não fosse adulterado por outros autores, e também que sua filha Rosalind e o neto Mathew recebessem os direitos de publicação da obra.

Fatos sobre Agatha Christie

Agatha Christie escreveu 91 livros. 82 com o seu próprio nome e o restante com o pseudônimo de Mary Westmacott.

Agatha recebeu a comenda de Dama do Império Britânico, o equivalente feminino ao de Cavaleiro do Império Britânico.

Agatha é a romancista mais bem sucedida de todos os tempos. Ela já vendeu mais de 4 bilhões de livros, ficando atrás somente de Willian Shakespeare e da Bíblia.

Agatha Christie escreveu a peça há mais tempo em cartaz no mundo, A Ratoeira, Mousetrap, em inglês, em cartaz em Londres desde 1952.

Muitos críticos literários nunca aceitaram muito bem o sucesso de Agatha Christie. Diziam que sua escrita era simples demais e sua estrutura narrativa se repetia em todos os romances.

Os fãs leitores de Agatha Christie não ligam para o que os críticos pensam. Entre os bilhões de admiradores assumidos da grande Dama do Mistério estão a Rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra e o colega escritor Stephen King. Em um artigo escrito para o Jornal New York Times, King, que também escreveu e vendeu muitos livros, diz que Hercule Poirot e Miss Maple, personagens criados por Agatha Christie, atingiram um tipo de imortalidade.

Se você nunca leu Agatha Christie, o que está esperando?

Recomendamos para você