Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.06.2013 26.06.2013

Escritos de Hélio Oiticica em Nova York revelam um artista em ebulição

Por Carolina Cunha
 
Depois do sucesso de suas capas de Parangolé, obra que só se concretiza quando alguém a veste, foi a instalação “Tropicália“, de 1967, que colocou o artista plástico Hélio Oititica (1937-1980) no mapa da arte brasileira de vanguarda. Essa mesma obra, que representa um labirinto de uma favela, inspirou o nome de uma música de Caetano Veloso que marcou o movimento tropicalista.
Foi em 1971, em plena ditadura militar no Brasil, que Hélio partiu para um exílio voluntário em Nova York, após ganhar uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim. Só retornaria seis anos depois. Durante essa temporada, viveu num pequeno apartamento na Ilha de Manhattan. Na cidade que ele chamava de “Babilônia”, experimentou fazer curtas-metragens e projetos sonoros, mas foi à escrita que dedicou grande parte do seu tempo. Queria publicar um livro com uma série de textos que seria batizado como “Newyorkaises e Conglomerado”.
O artista buscava documentar seu processo de trabalho e tudo que tinha feito durante sua permanência na cidade. O tal livro nunca chegou a ser finalizado, mas parte desse material está no recém-lançado Hélio Oiticica: Conglomerado Newyorkaises, organizado por César Oiticica Filho e Frederico Coelho.
“Ele desejava um livro que hoje poderíamos chamar de multiplataforma. São textos sobre obras que misturam poesia, teatro, projeto, pesquisa, desenho, etc. Era um escritor frenético. Escrevia cartas, poemas pessoais e muita crítica de arte. Nesse período a escrita era o que impulsionava tudo”, diz César Oiticica Filho, sobrinho do artista e curador de sua obra.
O livro é quase um sketchbook, como são chamados a reunião de rascunhos de artistas. Hélio anotou orientações para montagem de suas instalações e o processo de invenção de obras. Também lia muitos filósofos e os usava em reflexões para seu trabalho. Em sua biblioteca, era possível encontrar livros de Sartre, Nietzsche, Heidegger e até “novos pensadores”, como Susan Sontag e Marshall McLuhan, teórico da comunicação. 
 
Capa de Hélio Oiticica: Conglomerado Newyorkaises

Hélio escreveu que a instalação Tropicália era uma “salada multimídia” e rompeu com a ideia de que arte era uma contemplação estática de tela. Queria mesmo é que o público interagisse e estava cada vez mais interessado em novas mídias.

Enquanto escrevia, gostava de escutar música em grandes fones de ouvido. Se o samba da Mangueira deu o tom para os primeiros parangolés no Brasil, era o rock que o atraia nos EUA. Escreveu que o guitarrista Jimi Hendrix tinha uma energia que lembrava Gilberto Gil e elegeu a banda Rolling Stones como uma das preferidas. Era fascinado pela atuação explosiva de Mick Jagger.
Entre os novos rumos que deu para a sua produção em Nova York, começou a pesquisa para o projeto COSMOCOCA, que realizaria junto com Neville d´Almeida e consiste numa projeção de slides com trilha sonora, no que ele chamaria de quase-cinema.
Também definiu novos significados para o uso do Parangolé, assinalando que o mais importante não era a dança, mas a “liberação inventiva” das capacidades de brincar. Chegou a fazer uma performance com ele no metrô da cidade e aprimorou a ideia das séries de labirintos chamadas de “penetráveis” – que consistiam em instalações de arte – antes mesmo de o termo existir.
“Os escritos são reflexões e projetos bastante radicais, escritos há 40 anos. Hoje, quando o mercado da arte está ávido por obras, soa de fato muito irônico refazer alguns de seus trabalhos a partir de seus textos. Os artistas da geração do Hélio são todos pensadores, já que a arte contemporânea abandonou o objeto e se concentrou em novas propostas. Por isso, o texto foi tão importante para ele”, diz o jornalista e crítico de arte Fabio Cypriano.
A relação de Hélio com Nova York sempre foi de amor e ódio. O artista chegou a conhecer o circuito de arte local, mas ficou desapontado com a cena da época, que tinha ícones como Andy Warhol e Basquiat. Chegou a escrever que em Nova York não havia tendências.
Apesar disso, sonhava em fazer a instalação “Tropicamp”, na qual o ator Mario Montez, famoso pelos filmes de Warhol, se vestiria de Carmen Miranda no Central Park. A ideia acabou se tornando um filme, Agripina é Roma-Manhattan. Era a versão “Hélio diretor de cinema”, tropicalizando o undergound da cidade.
“Ao mesmo tempo em que se relacionava com artistas mais alternativos como G. Mata Clark e Jack Smith, ele era bastante crítico ao mercado e ao establishment, que eram bem caretas para absorver o que ele estava fazendo”, completa seu sobrinho. Curiosamente, muitos críticos norte-americanos hoje se referem a Hélio como o “Andy Warhol brasileiro”.
Os textos do livro recém-lançado ampliam o olhar de Hélio como artista e sua importância na arte contemporânea do Brasil. Era um artista que buscava uma estética brasileira nova, com um olhar para o futuro. Para muitos, um homem inovador e à frente do seu tempo.
“Oiticica foi um dos artistas que, no contexto dos anos 1960, chegou a uma proposta autêntica de arte, ao contrário de todo o modernismo brasileiro, que praticamente correu atrás de modelos europeus”, diz Cypriano.
 
O parangolé de Hélio no metrô de Nova York
 
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