Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.07.2011 15.07.2011

Escritores reclusos

Por André Bernardo
Foto: Kenneth Slawenski

O escritor norte-americano Jerome David Salinger, mais conhecido como J.D. Salinger, é um daqueles enigmas indecifráveis. Há exatos 60 anos, ele lançou aquele que viria a ser um dos mais influentes clássicos da literatura universal: O apanhador no campo de centeio. O sucesso foi tão imediato quanto arrebatador. Só no ano de lançamento, o livro que narra as desventuras do anti-herói adolescente Holden Caufield vendeu 15 milhões de exemplares. O que se podia esperar, então, de J.D. Salinger? Que continuasse a escrever mais e melhores romances, certo? Errado! Em vez disso, aos 32 anos, Salinger resolveu abandonar a civilização. Foi morar, recluso, nas montanhas, em Cornish, New Hampshire, numa cabana sem água encanada e luz elétrica, longe de tudo e de todos.

O que levou J.D. Salinger a abandonar a carreira no auge do sucesso literário é um mistério que intriga a todos. Na tentativa de jogar um pouco de luz sobre essa penumbra, Kenneth Slawenski vasculhou a vida e a obra do autor de O apanhador no campo de centeio e, oito anos de pesquisas depois, lança a biografia SalingerUma Vida pela Editora LeYa. Nela, dá pistas do que poderia ter levado Salinger a tornar-se o mais recluso de todos os gênios literários. “A Segunda Guerra contribuiu muito para Salinger sair de cena. O tempo em que passou no exército, entre 1942 e 1946, suscitou questionamentos até então nunca feitos. Tais indagações enriqueceram a sua literatura e lhe deram indiscutível qualidade. Mas, por outro lado, assombraram a vida de Salinger”, afirma Slawenski.

Nos últimos anos, Kenneth Slawenski tentou entrar em contato com Salinger muitas vezes. As cartas que enviava, a ele e a seus editores, voltavam sempre, sem sequer ser abertas. “Ele evitava dar entrevistas porque tinha medo de expor o seu ego em público”, acredita. A busca incessante por um depoimento terminou na manhã do dia 28 de janeiro de 2010, quando foi anunciada a morte de Salinger, de “causas naturais”, aos 91 anos. “Amo escrever”, disse o escritor, em 1974, em uma de suas raras entrevistas, ao jornal “The New York Times”. “Mas só escrevo para mim mesmo e para o meu prazer”. Por isso mesmo, Slawenski não sabe se, algum dia, a viúva de Salinger, Collen, e seu filho, Matthew, que cuidam do espólio do escritor, vão autorizar a publicação de textos inéditos.

 
Discípulos reclusos

J.D. Salinger se foi. Mas deixou discípulos. Como o também americano Thomas Pynchon, 74 anos. Autor de O arco-íris da gravidade, sua obra-prima, Pynchon se recusa a ser fotografado, não dá entrevistas e jamais é visto em público. Muitas das fotos existentes dele datam da época em que serviu na Marinha. Em 1997, por ocasião do lançamento de Mason & Dixon, Pynchon foi filmado por uma equipe da CNN. Irritado, concordou em dar entrevista à emissora de TV desde que as suas imagens não fossem divulgadas. “É difícil para os repórteres acreditarem que existe alguém que não queira falar com eles”, disse Pynchon, na época. Quando aceitou participar de dois episódios da série “Os Simpsons”, em 2004, o escritor apareceu com um saco de supermercado na cabeça.

No Brasil, a cada novo lançamento de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, os jornalistas se fazem sempre a mesma pergunta: será que, desta vez, eles vão dar entrevistas? Para infelicidade geral, a resposta é sempre igual. “Tudo o que um escritor tem a dizer sobre si mesmo está em sua obra”, costuma dizer Fonseca, 86, que acaba de lançar José, livro de memórias ficcionais, e Axilas e outras histórias indecorosas, de contos. De certa forma, ele tem razão. Através de alguns de seus textos, como O seminarista, O cobrador e A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro, descobrimos que torce pelo Vasco da Gama, gosta de vinho e é apaixonado por árvores. Até “adotou” um dos ipês da Praça Antero de Quental, no Leblon, onde mora, e paga um jardineiro para cuidar dele.

Autor da biografia Proibido e consagrado, da coleção “Perfis do Rio”, Deonísio da Silva garante que Rubem Fonseca já foi muito receptivo à mídia. E lembra que, salvo engano, a última entrevista que ele deu no Brasil foi ao jornalista Zuenir Ventura para a antiga revista “Visão”, por volta de 1975. “O fato é que, depois que foi duramente caluniado pelo cientista político uruguaio René Dreifuss, no livro ‘1964 – A conquista do Estado’, ele se calou para sempre”, lamenta Deonísio, que refuta a tese de que o estilo de vida recluso de alguns autores ajuda a atiçar a curiosidade do público e, em consequência disso, a vender mais livros. “Alguns tentaram imitá-los e não vendem nada. Eles vendem porque têm algo a dizer e sabem fazer isso com extraordinária criatividade”, garante.

Avesso a fotos

Conhecido pela merecida alcunha de O vampiro de Curitiba, título de um de seus livros, Dalton Trevisan mantém o mesmo jeito arredio, quase misantropo, de Rubem Fonseca. Quando ganhou o Jabuti em 1959, pelo livro Novelas nada exemplares, não compareceu à cerimônia. Mandou um amigo representá-lo. Nem a sua editora, a Record, dispõe de foto para divulgação. Uma das únicas entrevistas que se tem registro na imprensa brasileira foi publicada em 27 de agosto de 1972, no “Suplemento literário”, do “Estado de S. Paulo”. O responsável pela façanha foi o jornalista Mussa José Assis, então chefe da sucursal do “Estadão” em Curitiba. Em nome da amizade de longa data, Dalton topou conversar, mas pediu que Mussa não anotasse nada porque não queria dar entrevista.

Em vão. Quando terminou de escrever a reportagem, Mussa telefonou para Dalton e avisou que o jornal publicaria a matéria. Mesmo indignado, o escritor autorizou a publicação, mas pediu para ler o texto antes. Na matéria, Dalton explica (ou pelo menos tenta) o porquê de seu isolamento: “Eu não sou assunto. O autor nunca é assunto. Assunto é a sua obra, que pode ser discutida, interpretada ou contestada. Não tenho nada a dizer fora dos meus livros. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista”. Daquele dia em diante, sempre que um repórter mais incauto tenta entrevistá-lo, Dalton Trevisan limita-se a distribuir um “press-release”, seco e conciso como as suas histórias, onde justifica a recusa: “O conto é sempre melhor que o contista”.

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