Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.11.2011 30.11.2011

Escritores entre cães e gatos

Por Carolina Cunha
Na foto, Neil Gaiman com Cabal e Lola
Escrever pode ser um ato solitário. Um escritor pode passar longas horas imaginando histórias. Até sua atenção ser quebrada por um ronronar de um felino ou por um cachorro que vira a barriga e estica suas patinhas para se espreguiçar no chão. Nem o mais sisudo escritor resistiria a tanto charme. Além de inspiração, esses amigos de quatro patas também são homenageados em suas obras.
Clarice Lispector, por exemplo, teve três cachorros. O primeiro, Dilermando, era um vira-lata que cruzou o caminho da escritora quando ela morava na Itália, em 1946. Adotado, o cãozinho virou o xodó da autora. “Nenhum ser humano me deu jamais a sensação de ser tão totalmente amada como fui amada sem restrições por esse cão”, diz Clarice Lispector sobre Dilermando, no livro Aprendendo a Viver (Editora Rocco).
Enquanto ela escrevia à máquina, Dilermando gostava de tirar uma soneca ao seu lado, e quando a escritora ficava sem ânimo, olhava para a mascote, que retribuía levantando as orelhas. Depois dele, veio Jack, um totó americano que, segundo a autora, era “um daqueles cachorrões que latem o tempo todo e vigiam a casa para não deixar entrar ladrão”.
Já nos anos 70, Clarice dividiu o seu apartamento no Rio de Janeiro com um cachorro chamado Ulisses. No livro infantil Quase de Verdade, a autora o coloca como narrador e a escritora como ouvinte. E Ulisses logo apresenta suas credenciais “Sou um pouco malcriado, não obedeço sempre, gosto de fazer o que eu quero, faço xixi na sala de Clarice”. O cachorro realmente fazia o que queria. Dizem que o mascote fumava cigarros e tomava uísque e Coca-cola, fato confirmado por amigos da escritora na biografia Clarice (Cosacnaify), de Benjamin Moser. 
 
A escritora Clarice Lispector com Ulisses
O autor britânico Neil Gaiman (da série Sandman e Deuses Americanos) também é da turma que adora um latido. Em seu blog, ele costuma mostrar aos fãs vídeos e fotos das peripécias da dupla Cabal e Lola, dois adoráveis pastores brancos. Outro que gostava de passear com seu pet era o húngaro Tibor Déry, dono de uma cadelinha chamada Niki. O escritor dizia que um simples passeio com ela entre as árvores de uma avenida abria as páginas de uma “enciclopédia de bolso”.
 
Os escudeiros dos mais reclusos
Cachorros também são os melhores companheiros de escritores mais reclusos. Virginia Woolf, por exemplo, tinha Pinka, um cocker spaniel que não abandonava a autora nem em suas crises de depressão. Mas foi outro cocker, o dos poetas Elizabeth Barret e  Robert Browning, que inspirou Flush – Memórias de um Cão (L&PM), que mostra a biografia do mascote do casal. Lá, o leitor descobre que o mundo dos cães é o olfato, e que, nesse banquete de odores, Flush até sabia qual era o cheiro do amor.
 
Capa de Flush – Memórias de um Cão de Virginia Woolf
Hilda Hilst, que viveu reclusa durante 40 anos na Chácara do Sol, em Campinas, criava dezenas de cães, que a acompanharam até o final da vida. Chegou a ter 60 deles, a maioria encontrada nas ruas. 
E é um cão de rua que ganha voz na obra de Paul Auster. Em Timbuktu (Companhia das Letras), ele apresenta Mr. Bones, o cãozinho de um andarilho e poeta que está morrendo e precisa encontrar um lar para o amigo. A história inspirou Auster, que tem um pet chamado Jack, um cachorro achado na rua e que foi adotado pelo escritor pouco tempo depois.
Ah, esses loucos por gatos!
Quietos, silenciosos e independentes, os gatos ganharam a afeição de gente como Franz Kafka, Charles Bukowski, Patricia Highsmith, Lygia Fagundes Telles, João Guimarães Rosa e os poetas Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar.
“Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro”, escreveu T.S. Eliot, criador de poemas infantis que narravam a vida de um grupo de felinos, reunidos no livro Os Gatos (Companhia das Letrinhas), que serviu de inspiração para o musical Cats. Para ele, o animal deveria ter três nomes: o comum, o apelido e aquele que só o gato sabe.
Mark Twain, outro grande baluarte da literatura, deu nomes tão curiosos quanto misteriosos aos seus gatos, como Appolinaris, Beelzebub, Satan, Sin, Sour Mash e Zoraster. Já Alexandre Dumas (O Conde de Monte Cristo) tinha um gato chamado Mysouff, conhecido por sua apurada percepção de tempo. Todo dia, ele encontrava seu dono em um determinado lugar para acompanhá-lo da sua casa para o trabalho. Edgar Allan Poe era dono da elegante Catarina, que inspirou o conto O Gato Preto.
Já o argentino Julio Cortázar era fã de Teodoro W. Adorno, seu felino de estimação que exibia um ilustre sobrenome, uma homenagem ao filósofo e sociólogo alemão. Mas o animal não era chegado a intelectualidades. No livro A volta ao Dia em 80 Mundos (Civilização Brasileira), Cortázar conta que, enquanto brincava com Teodoro, se esquecia das memórias. Difícil imaginar o escritor rolando com o bichano na grama ou criando novelos de bolas de papel com os manuscritos de obras que recebia em Paris.
 
O escritor Julio Cortázar com seu gato Teodoro
 
Nem mesmo o mais rabugento escritor, o americano William Burroughs, escapa da admiração pelos felinos. No livro O Gato por Dentro (L&PM Editores), o pai dos beatniks, conhecido pela verve sarcástica, mostra o seu lado doce e sentimental, revelando que os gatos podem ser excelentes espelhos da condição humana. Para ele, até mesmo a fúria de um gato pode ser bela.
Outro famoso argentino, Jorge Luis Borges, dedicou dois poemas a esses bichinhos fofos e peludos: A um gato e Beppo, este um gato branco da família. Pablo Neruda também fez jus à tradição e assinou sua admiração aos felinos na poesia Ode ao Gato, onde admite que, apesar de entender do amor e da natureza da vida, não consegue decifrar o gato, o único animal que “nasceu completamente terminado, anda sozinho e sabe o que quer”.
Gatos são tão independentes que dizem que todo gato escolhe o seu dono. Neste caso, Ernest Hemingway devia ter algum tipo de ímã ou possuir o charme de uma tigela de leite. A casa do escritor americano na Flórida, nos EUA, era um verdadeiro balaio de gatos: chegou a abrigar mais de 50 felinos.
Tudo começou com o gato Snowball, presente de um capitão de navio. O gato tinha polidactilia, ou seja, exibia dedinhos a mais, o que, para os marinheiros, era sinal de sorte. O escritor chegou a construir uma fonte no quintal para o conforto dos bichanos e deixou orientações em seu testamento para que cuidassem deles. Gerações de patinhas com dedinhos a mais ainda habitam o telhado da casa do escritor, onde hoje funciona um museu. Mas nenhuma tigela de leite ainda foi encontrada.
 
 
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