Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.11.2014 29.11.2014

Escritores, críticos e roteiristas dizem que séries de TV querem de volta

Por André Bernardo
No dia 3 de outubro, o cineasta David Lynch e o roteirista Mark Frost postaram um tuíte para lá de enigmático em suas respectivas contas na rede social: “That gum you like is going to come back in style!”. Ou, em bom português, “Aquele chiclete de que você gosta vai voltar em grande estilo!”. Bizarro, não? Nem tanto.
Afinal, estamos falando de David Lynch. Para quem assistiu à série Twin Peaks, exibida pela rede ABC entre 1990 e 1991, a frase nem é tão enigmática assim. É mais uma pista de que a terceira temporada de um dos seriados mais cultuados, influentes e revolucionários da história, para dizer o mínimo, está a caminho.
“A liberdade criativa que Twin Peaks trouxe para os seriados é explorada até hoje. Nada do que vemos atualmente seria possível sem ela. Qualquer produção hoje considerada revolucionária é, na verdade, uma evolução da verdadeira reviravolta narrativa que foi Twin Peaks”, afirma a jornalista Fernanda Furquim, editora da coluna “Nova Temporada”, da revista “Veja”.
Mas, se você é daqueles que não fazem a menor ideia do que se trata Twin Peaks, não se aflija. Em poucas palavras, a série acompanha a investigação de um agente especial do FBI, Dale Cooper (Kyle MacLachlan), que chega a uma pacata cidadezinha no Estado de Washington, a tal Twin Peaks do título, para descobrir quem matou a bela Laura Palmer (Sheryl Lee), a rainha do baile.
Logo, Cooper descobre que, de pacata, Twin Peaks não tem absolutamente nada. Pelo contrário. Todo mundo ali, sem exceção, é suspeito de alguma coisa. Twin Peaks teve duas temporadas: a primeira, com oito episódios, e a segunda, com 22.
“O interessante é que Lynch queria apenas uma temporada, mas a ABC pediu uma continuação, que deixou o público confuso, principalmente com o final em aberto. Para fechar o ciclo, Lynch dirigiu o filme Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer, em que contou os fatos que levaram à morte da jovem”, explica o jornalista Paulo Gustavo Pereira, autor do livro Almanaque dos Seriados.
A ideia de produzir a terceira temporada partiu de David Nevins, presidente do canal Showtime e fã declarado da atração, que encomendou nove episódios a Lynch e Frost. Até o momento, o pouco que se sabe é que a nova leva de episódios vai se passar nos dias de hoje, 25 anos depois da morte de Laura Palmer. Quanto ao elenco, nenhum nome ainda foi confirmado.
 
Twin Peaks teve duas temporadas: a primeira, com oito episódios, e a segunda, com 22
Mas o ator Kyle MacLachlan já deu a entender, em sua conta no Twitter, que foi sondado para voltar ao batente: “Melhor ligar a cafeteira e encontrar o meu terno preto”. Os episódios inéditos de Twin Peaks começam a ser produzidos em 2015 e estão previstos para ir ao ar em 2016. Enquanto a terceira temporada não estreia, os fãs de Twin Peaks podem matar saudades das duas primeiras. A Paramount acaba de lançar Twin Peaks – O Mistério, um box de luxo disponível em Blu-ray, que traz 10 discos com as duas temporadas completas, o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer e quase 90 minutos de cenas inéditas e finais alternativos.
SEGUNDA CHANCE
O anúncio da volta de Twin Peaks é mais um capítulo da série de produções que, mesmo depois de serem dadas por encerradas, voltaram à ativa. Os casos mais recentes são:Dallas, 24 Horas e Arrested Development. Para Sônia Rodrigues, autora de Como Escrever Séries – Roteiro a Partir dos Maiores Sucessos da TV, as séries de TV são tão importantes hoje em dia como narrativa que a tendência de se reinventar algumas delas é praticamente inevitável.
“Em alguns casos, é possível inserir personagens novos. Em outros, explorar tramas secundárias. As possibilidades narrativas são infinitas”, acredita Sônia. Entre as suas atrações prediletas, ela torce por uma possível retomada de Família Soprano, seriado dramático criado em 1999 por David Chase e exibido pela HBO até 2007. “Essa série tem uma complexidade de histórias e de personagens muito parecida com a da vida real. São histórias que podem nos levar a entender melhor quem somos e quem são as pessoas que nos rodeiam”, justifica.
A estratégia de trazer à vida produções já mortas e sepultadas, porém, divide opiniões. Fã incondicional de Dallas, o escritor e roteirista Vincent Villari diz ter aprovado a iniciativa do canal TNT, que resolveu produzir a nova versão da série criada em 1978 por David Jacobs.
“Vi a primeira temporada e achei interessante”, analisa o autor da novela Sangue Bom e dos livros A Lua e o Aço, A Que Ponto Chegamos e Teletema. Para ele, os maiores acertos da nova versão são mostrar os personagens da série original, J.R. (Larry Hagman) e Bobby (Patrick Duffy), 30 anos depois, e explorar os conflitos entre os seus filhos, John Ross (Josh Henderson) e Christopher (Jesse Metcalfe). Das séries que saíram do ar, ele gostaria de ver a “sequência” de Dawson’s Creek, criada por Kevin Williamson e exibida entre 1998 e 2003.“Como anda a carreira de Dawson? E o casamento de Pacey e Joey?”, indaga, curioso. “É a afeição aos personagens e a nossa torcida por eles que nos levam a acompanhar uma história por tanto tempo”, explica Villari.
 
O elenco de Dallas e Família Soprano
Segundo Bruno Carvalho, editor-chefe do site Ligado em Série, a motivação dos produtores é, na maioria das vezes, mais financeira do que criativa. Até hoje, ele se pergunta o porquê de Joel Surnow e Robert Cochran, os criadores de 24 Horas, terem produzido Viva Um Novo Dia. “A nona temporada foi boa, mas desnecessária. A temporada anterior já dava um desfecho satisfatório à trama”, observa Carvalho.
Na opinião dele, a eventual retomada de uma série só se justifica se a versão original saiu do ar sem uma conclusão apropriada. Caso de Arrested Development, sitcom exibida pela FOX entre 2003 e 2006 e retomada pela Netflix em 2013. Ou, então, quando modernos recursos tecnológicos permitem recontar aquela história com um maior apuro visual. “Séries boas interrompidas por baixa audiência, como Veronica Mars, merecem uma segunda chance”, reivindica Bruno, referindo-se à produção criada por Rob Thomas e estrelada por Kristen Bell entre 2004 e 2007.
DESCANSEM EM PAZ
Editora da coluna “Seriais”, do jornal “O Globo”, a jornalista Thaís Britto não pensa duas vezes na hora de listar suas séries favoritas: Lost, Seinfeld, Fawlty Towers, Friends e 30 Rock. Embora goste muito de cada uma delas, sabe que não seria uma boa ideia tê-las de volta. “Todas terminaram muito bem como terminaram. A única que talvez tivesse espaço é Fawlty Towers. Apesar de ser maravilhosa, só teve 12 episódios”, pondera Thaís, em alusão à produção da BBC criada por John Cleese e Connie Booth e exibida entre 1975 e 1979.
Para ela, um seriado só deve ser revisitado se, além de não ter tido um desfecho apropriado, suas tramas não tiverem se esgotado ou se ainda for possível dar uma roupagem diferente à história. Das séries que já tiveram suas voltas anunciadas, ela destaca The Comeback, estrelada por Lisa Kudrow, e critica Heroes: Reborn, criada por Tim Kring. “A versão original de Heroes terminou bem ruim. Parece uma furada trazê-la de volta”, garante.
 
Dawson’s Creek e Veronica Mars são uma das séries mais pedidas para voltar ao ar
Autora de O Livro Amarelo do Terminal, O Louco de Palestra e Noites de Alface, a escritora Vanessa Bárbara pode ser considerada a fã nº 1 da série The Wire. A ponto de ter dedicado à atração – criada por David Simon em 2002 e exibida pela HBO até 2008 – uma crônica, “A Melhor Série de TV”, na edição do dia 11/03/2013 do jornal “Folha de S. Paulo”. Mesmo assim, quando indagada se gostaria de ver uma “continuação” dela, Vanessa demonstra dúvida e preocupação. “Não sei. Deve ser chato passar a vida inteira fazendo as mesmas coisas”, especula.
A crítica de séries do jornal “Folha de S. Paulo”, Luciana Coelho, compartilha da mesma opinião. E cita o exemplo de Friends, série produzida pela Warner de 1994 a 2004. “Tenho lá as minhas dúvidas se a versão quarentona de Ross, Rachel & Cia, morando no subúrbio com seus filhos, seria tão interessante. Pode até ter apelo comercial e fazer sucesso junto aos fãs, mas dificilmente manteria o nível do original”, alerta a jornalista.
 
 
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