Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.12.2012 17.12.2012

Escritores anônimos

Por Eduardo Lemos e Yuri de Castro
 
“Já sei! Já sei!”. Foram essas quatro palavras que a escritora Vanessa Barbara leu quando abriu sua caixa de e-mails. Ela não poderia ficar mais feliz ao ler a mensagem. O doutor André Maame Cafagne acabara de ajudá-la na elucidação de um grande mistério: a causa mortis de um personagem de Noites de Alface, próximo romance de Vanessa (ainda sem data de lançamento). Entre conversas virtuais sobre resultados de exames, agendamento de consultas e orientações médicas, o doutor André se viu em uma situação curiosa, mas recorrente àqueles que orbitam o mundo dos escritores: a de consultor informal.
 
Vanessa explica a história. “Eu precisava de um tipo específico de morte para um personagem e fui perguntando para o meu médico o que ele sugeria em tais e tais circunstâncias”, conta. “Trocamos algumas vezes o tipo de afecção, de órgão vital afetado e outros detalhes, até que num dia aleatório ele me mandou um e-mail e descreveu um jeito muito adequado de morrer”, diz. “Se a Polícia Federal visse esses e-mails, eu estaria encrencada”.
 
O doutor André é médico psiquiatra e trabalha no Hospital São Camilo, em São Paulo, e nas horas vagas gosta de ler obras de Charles Darwin, Sigmund Freud e José Saramago. Ele não parece preocupado com a possibilidade de ver seu nome estampando nas páginas policiais dos jornais, suspeito que seria de colaborar com as premeditações criminosas de Vanessa – pelo contrário. “Gosto de ajudá-la nessas situações”, admite. “Dar essa ajuda é uma forma de levar ao leitor informações a respeito das doenças com as quais lidamos. O medo, o preconceito e o estigma diminuem, afinal, lidar com o que conhecemos é geralmente mais fácil”.
 
O recurso de pedir socorro a especialistas é mais comum do que se possa imaginar. Séries de televisão como House e Law & Order têm um time de consultores cuja função é garantir a verossimilhança de personagens e situações criadas pelos roteiristas. Na literatura, a história se repete – e como escrever é, a rigor, uma atividade solitária, é de se supor que não há um grupo de especialistas por trás de cada literato. Então…
 
“Você sai perguntando pra quem sabe mais sobre determinado assunto. Às vezes não é nada para especialistas, é só uma enquete do tipo: se uma prancheta de acrílico cai no chão, ela quebra? E se alguém cai em cima dela?”, conta Vanessa, que integra a lista de novos escritores da recém-lançada Revista Granta brasileira, junto com mais 19 “promessas”.
 
A escritora Vanessa Barbara
Uma delas é Carol Bensimon. A escritora gaúcha também teve de recorrer a profissionais externos para construir Sinuca Embaixo D’água, seu segundo romance. “Às vezes são amigos [que ajudam], mas o mais frequente é que sejam amigos de amigos, ou conhecidos de amigos”, conta. “Quando preciso de uma informação muito específica para o texto que estou escrevendo, algum conhecimento de ordem técnica, primeiro tento fazer uma busca mental por minha teia de relações pra ver se alguém pode me ajudar; em caso negativo, o próximo passo é buscar alguém que tenha acesso ao ‘especialista’”.
 
Tal auxílio foi tão importante que mereceu reconhecimento público. Na última página de Sinuca, Carol dá um ‘obrigado’ “a todos aqueles que forneceram informações sobre carros, barcos, serrarias, plantões jornalísticos, nomes de árvores e ainda outros detalhes cruciais (…), e os funcionários da madeireira Dallpas”. O agradecimento tem justificativa: sem esse precioso auxílio externo, a escritora não poderia descrever com tanta riqueza de detalhes a serraria que está no romance. Mais uma vez, a rede de amigos e conhecidos foi convocada.
 
“Chegou um momento em que eu precisava de mais detalhes, sobre as máquinas, a organização, enfim, a série de percepções visuais, olfativas e auditivas que só a visita a um lugar desses poderia proporcionar”, explica. “O contato se deu através de uma cadeia de pessoas: uma amiga, que tem um amigo arquiteto, que por sua vez usava os serviços dessa madeireira de Porto Alegre com alguma frequência”.
 
O doutor André já tinha dito lá em cima – e Carol concorda com ele – que é importante um romancista abordar assuntos que, normalmente, ficam fora do alcance do público. "Uma das graças de ler um romance é você aprender sobre coisas que desconhece, e inclusive sobre algumas que, em outra circunstância, não o interessariam muito", diz ela.
 
O conhecimento técnico de alguém de fora não só resolve impasses, como pode ser fonte de inspiração. “No contato com o meu médico, ele sugeriu vários episódios que acabaram entrando no livro porque achei muito bons”, diz Vanessa. “O bom dessas ajudas é que sempre acabam dando mais ideias ou saídas melhores”.
 
O escritor Michel Laub
 
Porém, no caso do escritor Michel Laub – autor de Diário da Queda, dentre outros –, a história é diferente. Adepto da prosa memorialista, ele quase nunca recorre a especialistas. Suas maiores fontes de informação são os livros e o onipresente Google. "Trabalho bastante com o tema da memória, incluindo suas falhas e manipulações. Então, me basear em minha própria memória já dá conta do recado", conta.
 
Michel acredita que, de alguma forma, isso pode trazer mais liberdade na hora de criar. "Em teoria, sim. Mas meus personagens são bastante fiéis à ‘realidade’, botando esse conceito entre aspas mesmo. Me preocupa mais o jeito como os tipos sociais falam/pensam, e como meus narradores, em geral, têm minha idade, minha formação cultural e vieram da mesma cidade que eu, a verossimilhança nesse ponto fica mais fácil", explica.
 
O professor de literatura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Paulo Sodré, lembra que o artifício de pesquisa para a produção literária – seja através de especialistas, como nos casos de Vanessa e Carol, seja buscando viver experiências in loco para depois narrá-las, como Laub – é antiga. "Gil Vicente se apoiou em diversas informações sociais e culturais de sua época para a produção de seu teatro medieval; Camões afirma que Os Lusíadas é resultado de saber literário e de experiência própria (viagens, vivência no Oriente, participação em batalhas, etc.); Eça de Queiroz garante que seus romances derivam de uma observação cuidadosa de sua época. Não se pode garantir que eles tenham consultado ‘conselheiros’, mas a probabilidade não parece ser pequena", arrisca.
 
E se você é amigo de um amigo de algum escritor, prepare-se para a possibilidade de ser alçado ao posto de consultor. Até o notável leitor que nos acompanha nesta história pode fazer esse papel. Duvida? Pois Vanessa Barbara quer saber: "Tenho um amigo que me perguntou onde os policiais guardam as chaves das algemas, se é no mesmo bolso das próprias algemas, se é em outro bolso ou se elas ficam com o parceiro", relata. "Uma dúvida muito interessante que fiquei de perguntar para um policial conhecido. Você conhece algum?".
 
 
 
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