Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.07.2012 18.07.2012

Escrever é preciso. Autores nacionais contam como é a sua rotina e a experiência do primeiro livro

Por Marcelo Rafael
Não é todo autor que tem a honra de ter uma música para suas obras, mas é com a “trilha sonora para livros”, da dupla Cantando Livros, que começam os eventos do grupo de autores da Turnê Literária, que se uniu para realizar palestras, divulgar a literatura nacional e contar um pouco do seu dia a dia e de suas narrativas para o público.
Público que, muitas vezes, torce o nariz para o que é escrito aqui, como conta a blogueira Ceile Moraes, do blog Este Já Li. Ela também tinha certa resistência até ter contato, no ano passado, com um romance ambientado em uma universidade em Viçosa, MG.
Desde então, Ceile resolveu ler um livro nacional por semana. “É legal você abrir e ler a protagonista comendo um pão com manteiga. Isso não acontece muito. Você vê protagonistas comendo ovo com bacon. O quê mais encanta na literatura nacional é isso: ‘estar em casa’”, conta.
E quebrar esse preconceito, como fez Ceile, é um dos objetivos da Turnê. Adriana Brazil é a criadora do grupo e autora de Outono de Sonhos, que narra a história de uma estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.
A carioca conta que teve a ideia do livro em uma madrugada de dezembro de 2009, já deitada para dormir. A trama lhe veio à cabeça e, ao acordar, ligou o computador e redigiu a sinopse.
Decidida a ambientar a narrativa em Florianópolis, começou a pesquisar sobre a cidade. "Escrevia que nem uma louca. De sábado e domingo, das nove da manhã até as onze da noite. Parava só para almoçar. E de madrugada, às vezes eu ia até 03h, 04h”, conta.
Lançou seu livro em 2011 e, hoje, ela já escreve a continuação, Inverno de Cinzas. Capista, professora de música e estudante de Letras, Adriana conta que escreve geralmente depois das 22h, quando já colocou o filho para dormir e o marido está vendo TV. Mas prefere escrever quando a inspiração vem, a qualquer momento.
O mesmo acontece com a autora de Amores Cruzados, Vanessa de Cássia. Com 25 anos, a paulista de Guarulhos lançou seu primeiro livro este ano e já está produzindo a continuação. Sem muita rotina, escreve em qualquer lugar que esteja, anotando as ideias em um caderninho e depois passando para o computador.
 
Em 2009, estava desempregada e, em vez de cair no desespero ou se paralisar, resolveu aproveitar seu tempo. Pensou em bolar algo diferente dos romances que lia, apenas para ter algo para fazer.
 
“Tem um prédio na Paulista que descrevo no livro. Fiquei umas duas horas parada em frente, vendo detalhes dele”. Sem contatos com editoras, não pretendia publicar. Quando se decidiu, foi aceita na primeira editora para a qual encaminhou o original, a Novo Século.
Maurício Gomyde, já em sua segunda obra, Ainda Não Te Disse Nada, foi por um caminho bem diferente. Optou por não se ater a nenhuma editora. 
 
E sua rotina não é fácil. Auditor do Tribunal de Contas da União, em Brasília, Maurício ainda faz apresentações com sua banda todas as semanas. Ao chegar em casa do trabalho, dedica-se à esposa e às duas filhas. Para arranjar tempo, acorda todos os dias às 04h:40 e, das às 05h às 08h, concentra-se em escrever e divulgar-se nas redes sociais e em blogs.
 
O grupo de autores da Turnê Literária em evento na Livraria Saraiva. Crédito foto: Marcelo Rafael
 
O mineiro Gilson Pinheiro também é funcionário público, mas na prefeitura de Belo Horizonte.
Assim como Vanessa e Adriana, também publica pelo selo Novos Talentos, da Novo Século. 
 
Historiador por formação e músico por paixão, conta que sempre gostou de escrever. Está em seu segundo trabalho, A Batalha dos Anjos, e estabeleceu a meta de escrever um livro por ano.

A Literatura chama

A novata do grupo é Lu Piras, que lançou sua primeira obra, Equinócio, em junho. Formada em Direito, atualmente cursa Produção Editorial na UFRJ e ainda faz cursinho voltado para concursos públicos.
Com pouco tempo disponível, prefere a noite para criar, mas também não tem muita rotina, procurando apenas ouvir música antes de sentar e escrever. E escreve no papelzinho, no celular, no verso de uma nota fiscal.
Foi dessa forma que pôs em prática a ideia que teve ao passear por uma Saraiva e se deparar com uma escultura de Eros e Psiquê na capa de um livro. Quis compor um romance sobrenatural. Escreveu pra si e guardou os manuscritos até uma amiga incentivá-la a publicar.
Ao contrário de Vanessa, Lu enviou para várias editoras sem obter resposta. Desanimou-se e começou a dedicar-se a outras coisas, até que a editora Dracaena entrou em contato e se interessou em publicar.
Ela conta que logo que seus personagens surgem, ela se apega a eles. O mesmo afirma Ricardo Valverde, o veterano da Turnê, com seis livros publicados. “Eu sou ‘incomodado’ pelos personagens. Eles me ‘cutucam’ o tempo inteiro”, explica Ricardo.
Suas últimas obras, da série 2012, falam sobre algo que ele já estuda há muito tempo, o Apocalipse. Ricardo conta que sua rotina, trabalhando com pessoas com deficiência intelectual, é cansativa, mas não pensa em parar de escrever. “Eu sou um viciado em livros. Gostaria de morar em um livro. Escrever é como me alimentar”. Lu complementa: “Por mais afazeres e obrigações que a gente tenha, é importante escrever. Isso preenche a gente”.
Para Ricardo, é essencial não arrefecer, não ter medo de se arriscar ou achar que ter um livro publicado é algo muito distante, para poucos. “A vida nos aponta todo dia para aquilo que a gente mais gosta. E é importante ouvir isso”, diz.
É fundamental também ser lido. E as críticas vêm. “A primeira vez que recebi uma crítica, eu chorei tanto… ‘Ah, meu Deus, ela não gostou do meu livro!’”, conta Adriana Brazil.
 
Maurício Gomyde também teve um choque ao cadastrar sua obra na rede social Skoob e ver que o primeiro status foi “Abandonado”. “Poxa, logo o primeiro é um abandono? Meu livro tá lá, abandonado, coitado!”, diz.
Mas todos concordam que, após o choque inicial, as críticas vêm para acrescentar, corrigir erros para o próximo livro e crescer na carreira.
E o resultado de todo esse trabalho e do incentivo à literatura brasileira, aos poucos, vem sendo mostrado pelo público. Ceile comprova isso: "Te abre os olhos ler o primeiro livro (contemporâneo) nacional".
 
 
 
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