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Erotizar ou não erotizar, eis a questão

Por Daniela Guedes
 
Uma editora inglesa, a Total E-Bound, resolveu inovar e lançar no mercado versões erotizadas, rotuladas de Clandestine Classics, de alguns clássicos da literatura, como Orgulho e Preconceito (Jane Austen, 1813) e histórias da série de Sherlock Holmes (Arthur Conan Doyle, 1887). Funciona basicamente assim: no meio da trama, a personagem começa a ter pensamentos e atitudes eróticas e, em determinado momento, essas personagens têm relações sexuais com outras, ou seja, no meio de textos clássicos são colocadas passagens eróticas.
Daí, alguém pergunta: isso pode ser feito com os textos clássicos? A resposta é: sim, pois essas histórias já são de domínio público, o que significa dizer que coautores contratados por essas editoras não chegam a cortar ou mudar drasticamente os textos, mas acrescentam neles, justamente, a parte erotizada. Os editores se defendem, dizendo que não estão mudando nada, e a essência dos livros permanece.
Foi-se o tempo em que clássicos da literatura tinham suas partes, digamos, mais “libidinosas” extintas ou amenizadas para se adequarem ao público jovem. Agora a ordem inverteu-se, e as editoras erotizam o que originalmente primava pelo recato, afirmando que a ideia é atrair “uma nova geração de leitores”, que ainda não conhece esses trabalhos. Há quem não acredite nessa nova forma de incentivo à leitura para os mais jovens.
“Popularizar clássicos não é medida que tenha sido criada hoje. Li muito clássico em quadrinhos, quando criança. A erotização, sim, como caminho para as vendas, é novidade. Os livros citados trazem um erotismo subjacente, sem dúvida”, analisa Regina Carvalho, escritora e mestra em Teoria Literária. “Erotizar Jane Austen permitirá ao editor vender livros, levará o leitor de best-seller a acreditar que conhece Jane Austen, mas não creio que faça um número significativo de leitores ir procurar o romance original”, completa.
Na outra ponta, a gerente da Total E-Bound, Claire Siemaszkiewicz, diz que sempre foi atraída pela “tensão sexual nas entrelinhas” dos antigos romances e que está convencida de que existe um mercado para versões picantes de obras do século 19 de autoras como Charlotte Brontë e a própria Jane Austen. Sendo assim, essas versões poderiam “chegar mais facilmente ao cotidiano desses jovens”.
“Algum problema em ler sexo na literatura ou erotismo? Não! Não é esse o ponto. A questão é: se Sherlock tivesse que ser um garanhão, seu autor original o teria feito. Sei lá, acho muito confusa essa ideia de mudar características de personagens consagrados e revendê-los. Alguém pode citar as fan-fictions, mas, geralmente, elas não possuem teor comercial”, opina o especialista em literatura e redator do blog Literatortura, Gustavo Magnani.
Mas será que realmente é preciso partir para essa estratégia? A história recente nos mostra que esta não é a primeira vez que clássicos da literatura são alterados para atrair o público jovem. Em anos recentes, zumbis, monstros e vampiros foram incluídos em tramas antigas, como é o caso de Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos e Orgulho e Preconceito e Zumbis.
“Pensando nesse recurso, a erotização é um recurso apelativo a representar o mercado dos dias de hoje. O livro mais vendido do momento é Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James. Acabo de largar pela metade esse primeiro volume, que achei muito ruim até nas cenas de sexo. Pensei: ‘Se alguém se excita lendo isso, ou não está fazendo, ou nunca teve sexo com um mínimo de qualidade. Nem leu literatura digna do nome de literatura, mesmo os clássicos do erotismo’”, rebate Regina Carvalho.
Os leitores se dividem: muitos acham que tudo isso é um desrespeito com as obras dos autores. “É inconcebível a idéia de Orgulho e Preconceito em versão erótica. A história é encantadora pela pureza que circunda a obra. Lembro do filme (2005) estrelado pelos atores Keira Knightley e Matthew MacFadyen, quão encantador é, e nem um beijo sequer no final”, relembra o estudante Diogo Chagas.
Já outros não veem nada contra a erotização, e até torcem para que surjam outras adaptações. Sendo bem escritos, que mal tem? “Eu também não tenho preconceito em questões de leitura. Se for feito com bom gosto, não deixa de ser interessante”, diz a estudante de jornalismo Ana Amélia.
Entre os outros títulos colocados à venda na Clandestine Classics estão Northanger Abbey, também de Jane Austen, Jane Eyre (Charlotte Brontë, 1847) e Vinte Mil Léguas Submarinas (Júlio Verne, 1870).
 
 
 
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