Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 26.08.2011 26.08.2011

Eric Clapton: ele é realmente o “deus da guitarra”?

Por André Bernardo
 
O guitarrista volta ao Brasil para uma série de quatro shows e reabre a discussão entre artistas nacionais
Por influência do irmão mais velho, Edgard Scandurra já escutava os discos do Cream, uma das muitas bandas de Eric Clapton, quando tinha sete anos de idade. Líder do Barão Vermelho, Frejat cansou de ouvir o álbum que o guitarrista britânico gravou com a banda John Mayall & the Bluesbreakers, em 1966. Já Pepeu Gomes não sossegou enquanto não reproduziu, na íntegra, o solo de Eric Clapton na faixa “Sunshine of Your Love”, do álbum Disraeli Gears. Três dos maiores guitarristas brasileiros, Edgard Scandurra, Roberto Frejat e Pepeu Gomes assumem publicamente a influência de Eric Clapton em suas carreiras e aproveitam a vinda dele ao Brasil – a terceira em mais de 20 anos – para debater: será que Eric Clapton é realmente o deus da guitarra?
 
Para Scandurra, o título é mais do que merecido. Afinal, Eric Patrick Clapton já passou por poucas e boas em seus 66 anos de vida. “Sempre admirei o Eric Clapton, não só como cantor e guitarrista, mas como ser humano também. Ao longo da vida, ele enfrentou momentos difíceis, como a luta para livrar-se das drogas e a superação da perda do filho”, relembra Scandurra, em alusão à morte do pequeno Conor, de apenas quatro anos. Filho de Eric Clapton com a modelo italiana Lori Del Santo, o menino morreu em 20 de março de 1991, após cair da janela do 53º andar de um prédio em Nova Iorque. Foi para Conor que Clapton compôs, um ano depois, a balada “Tears in Heaven”, que faz parte do álbum MTV Unplugged.
 
A exemplo de Scandurra, Pepeu Gomes também se declara um admirador confesso de Eric Clapton. Tanto que planeja assistir, pela primeira vez, a um show dele. Em outubro, o cantor e guitarrista britânico desembarca no Brasil para divulgar o álbum Clapton, o 42º de sua carreira. Por aqui, se apresenta no dia 6, em São Paulo; nos dias 9 e 10, no Rio de Janeiro; e no dia 12, em Porto Alegre. A última vez em que ele esteve no Brasil foi em 2001, quando se apresentou com a turnê do então recém-lançado álbum Reptile. “Tenho a maior vontade de ir a um show dele e, quem sabe, até mesmo conhecê-lo pessoalmente. Já ouvi o João Gilberto falar que ele é uma excelente pessoa. Quem sabe, um dia, a gente não divide o palco, não é mesmo? Seria maravilhoso”, entrega Pepeu, que elogia o “estilo elegante” de tocar de Clapton.
 
Duelo de titãs
Na contramão dos artistas que enaltecem Eric Clapton, Robertinho do Recife até admite que, no início da carreira, admirou o trabalho do guitarrista britânico, mas ressalva que nunca foi um de seus maiores fãs. “A pessoa que mais me influenciou musicalmente foi o Jimi Hendrix. Até hoje, ninguém chegou perto dele em termos de criatividade”, polemiza. Robertinho do Recife confessa que está na bronca com Clapton. E não é à toa. Ele gravou uma versão para “Presence of the Lord”, do álbum Blind Faith, mas Clapton não autorizou. Pior: nem explicou o motivo da recusa. “Já fiz versão para Def Leppard, Alice Cooper e Aerosmith. Todos elogiaram. Acho que, no fundo, o Eric Clapton se acha mesmo um deus da guitarra”, queixa-se Robertinho do Recife.
 

Frejat
 
O pomposo título de “O deus da guitarra” nasceu nos anos 60, quando Clapton integrava o grupo Cream, ao lado de Jack Bruce e Ginger Baker. Foi nesta época que começaram a surgir as primeiras pichações de “Clapton is God!” (“Clapton é Deus!”) nos muros de Londres. Até onde se sabe, Clapton, que é fã incondicional de Robert Johnson, Muddy Waters e John Lee Hooker, foi o primeiro a rejeitá-lo. Em março deste ano, a revista Rolling Stone publicou uma lista dos 100 melhores guitarristas de todos os tempos. Segundo os seus editores, Eric Clapton ocupa o 4º lugar no ranking, atrás de Jimi Hendrix, Duane Allman e B.B. King. “O meu guitarrista favorito é o Jimi Hendrix, mas tem tantos outros excelentes, inclusive no Brasil, que, mesmo quando a revista Guitar Player faz a lista dos 50 melhores, ainda acho que ficaram faltando vários”, opina Frejat.
 
Guitarrista dos Titãs, Tony Bellotto é outro que cresceu ouvindo os discos de Clapton na vitrola. “Na adolescência, eu mergulhava por horas infindáveis em seus solos magistrais. Depois, tentava reproduzi-los ao violão, em sessões de improviso provavelmente insuportáveis”, diverte-se. Se tivesse que eleger um “deus da guitarra”, Bellotto confessa que também escolheria Jimi Hendrix, mas pondera que “o rock não é uma religião monoteísta”. Por isso mesmo, ele acredita que Clapton, assim como outros grandes nomes da guitarra, como Jimmy Page, do Led Zeppelin, e Keith Richards, dos Rolling Stones, também fizeram por merecer o título. “A maior lição que aprendi com Clapton é que um solo de guitarra nunca é feito com os dedos e, sim, com o coração”, ensina Bellotto.
 
 

Tony Bellotto
 
Recomendamos para você