Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 13.03.2013 13.03.2013

Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco chamam atenção para a ficção científica nacional

Por Rafael Roncato
 
Observe à sua volta e note quantas pessoas estão olhando para seus celulares, tablets e notebooks, uma dependência da tecnologia. O poder das máquinas pode não parecer tão ameaçador agora, mas quando se trata do universo da ficção científica, num futuro distante, a história toma rumos mais catastróficos.
Transitando entre influências e clichês de grandes autores da FC, como Philip K. Dick, William Gibson e Isaac Asimov, V.I.S.H.N.U. apresenta uma história própria, criada a partir de três mentes de áreas distintas, sobre uma humanidade tecnologicamente dependente e temerosa. O roteiro da HQ é do jornalista e escritor Ronaldo Bressane, com arte do ilustrador Fabio Cobiaco sobre argumento de Eric Acher, um consultor do mundo das startups.
 
"Tecnologias são como drogas: você tem que saber a hora de usar e a hora de parar de usar", diz Bressane. Após cinco anos de produção, dez tratamentos de roteiro, contas perdidas de quantos e-mails trocados e cerca de mil quadros, o produto final é uma longa trama sobre o quanto a tecnologia pode ser nociva, mas também prazerosa. "Me lembrei que havia esperado minha vida inteira para botar as mãos num trabalho desse", completa Cobiaco.
Confira a entrevista com Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco sobre quadrinhos e ficção científica.
 
Capa de ‘V.I.S.H.N.U.’
 
Resta a dúvida de como foi o processo de criação. Foi dado o argumento do Acher e vocês tiveram que trabalhar em cima? Ou rolou uma certa liberdade tanto no roteiro quanto no visual da HQ?
 
Bressane. Desde o começo eu achei o argumento muito “foda”, por conta da variedade de temas que me interessam (upload de consciência, limites éticos para o uso da alta tecnologia, o flerte com a imortalidade, a ligação entre espiritualidade e ciência). E os temas sempre pareceram unidos de modo orgânico, porém com fios soltos, lacunas que me possibilitavam preencher com meu humor negro. A liberdade pra trabalhar sobre o argumento foi plena – o limite era a própria lógica interna da história.
 
Cobiaco. A única ressalva veio da Cia., que me pediu para não fazer nada parecido com o trabalho do Moebius. Mas a essa altura eu já havia dado meu passo em direção ao meu próprio estilo, minhas buscas e tal.
 
Vocês conversaram muito nesse meio-tempo ou seu trabalho foi mais solitário? Aconteceu a mesma coisa com o Cobiaco ou ele teve participação no roteiro também?
 
Bressane. No começo, eu e Eric falávamos direto. Foram centenas de cafés e e-mails até afinar a história nos mínimos detalhes (há um haikai no livro que nos levou uns 2 meses para encontrar as palavras exatas). Cobi entrou num segundo momento, mais preocupado em deixar a história graficamente inteligível. Ele deu pitacos importantes no roteiro, como a necessidade de criar mais sequências de ação para se contraporem aos muitos diálogos e, assim, criar uma dinâmica mais sinuosa. Mas depois que o roteiro foi finalizado, o trabalho duro ficou nas mãos do Cobi mesmo.
 
Cobiaco. Na maioria do tempo foi tranquilo, mas você sabe, homens são meio encrenqueiros por natureza, e a gente brigou aqui e ali, mas sempre tivemos a preocupação de transformar esse atrito em dinâmica criativa. Sempre foi uma briga para deixar o livro melhor.
 
Bressane, você já escreveu diversos livros, editou gente bem parruda e também trabalhou em grandes jornais e revistas aqui do país, mas havia produzido algo com ficção científica alguma vez?
 
Bressane. Em 2007 eu já estava escrevendo um romance de ficção científica, Mnemomáquina, e foi por causa disso mesmo que fui chamado pra esse projeto pelo Joca Terron — que foi quem bolou essa série de casamentos entre escritores e cartunistas na produtora RT/Features. Aliás, terminei meu livro ano passado.
 
Ronaldo Bressane

Vocês tiveram alguma dificuldade na criação de V.I.S.H.N.U.? Como se dava o contato de vocês com o gênero?

Bressane. A única dificuldade foi tornar a história clara em termos visuais – o argumento pressupunha muita reflexão e muito diálogo, então a ideia era deixar tudo sintético e graficamente viável. Quanto à FC, sempre gostei de ler, desde o Astronauta do Mauricio de Sousa, e depois Asimov, C. Clarke, Bradbury, Lem, Le Guin, ou autores que não são estritamente de FC mas praticaram o gênero, como Orwell, Burgess, Burroughs, Vonnegut, ou, por aqui, o Loyola Brandão — Não Verás País Nenhum é um dos meus romances favoritos de literatura brasileira. O escritor de FC de que mais gosto, justamente por ter ultrapassado os limites do gênero, é Philip K. Dick.
Cobiaco. Estudo regularmente, com muita seriedade, o trabalho de alguns artistas. Entre esses artistas estão os dois maiores autores de FC, Moebius e Katsuhiro Otomo. O Otomo aparece no livro como figurante, junto com o Hugo Pratt. Meu contato com a FC se deu na maior parte através do visual. Quando comecei, nos anos 80, publicava-se muita FC em quadrinhos. Bilal, Druillet, Caza – que já me escreveu elogiando minhas coisas. Teve também o Blade Runner e as animações japonesas.
 
 
Bressane e Cobiaco indicam leituras
 
Literatura:
Piritas Siderais, de Guilherme Kujawski
 
Favelost, de Fausto Fawcett
As Agruras do Verdadeiro Tira, de Roberto Bolaño (O autor adorava Philip K. Dick; este livro é dedicado a ele)
Quadrinhos:
Ex Machina
O Beijo Adolescente, de Rafael Coutinho
02+01=00 e Another Planet, de Amilcar Pinna
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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