Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.04.2014 25.04.2014

Entrevista com Ana Maria Machado

por Maria Fernanda Moraes

Você publicou seu primeiro livro infantil em 1977, o Bento-que-bento-é-o-frade. De lá para cá, entre tantas outras publicações e experiências com seus leitores, o que mudou em você? Você é uma escritora diferente daquela que lançou o primeiro livro?
Ana Maria Machado. Ah, mudou muita coisa. Eu tinha pouco mais de 30 anos, hoje tenho mais de 70. Se não fosse agora uma pessoa diferente, marcada pela experiência, não merecia ter vivido. Mas não sei em que sou diferente como escritora. Isso é pergunta a se fazer aos críticos, não à autora.

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E o que você considera que tenha mudado no cenário da literatura infantil brasileira?
Ana Maria Machado. A literatura infantil brasileira também mudou muito. Naquela ocasião, tínhamos muito poucos autores, sob a grande sombra de Monteiro Lobato. De lá para cá, os números de autores e livros se multiplicaram enormemente, a ilustração cresceu muito, a qualidade gráfica editorial deu um salto. Ganhamos inúmeros prêmios internacionais, temos teses em universidades estrangeiras estudando nossas obras, passamos a ser respeitados em toda parte.

Você começou a carreira como pintora e, por mais que haja algumas diferenças, há também uma certa intimidade com a área de ilustração. Isso facilita na hora do trabalho com os ilustradores?
Ana Maria Machado. Em geral, a escolha de ilustrador é uma decisão de quem paga pelo trabalho deles, ou seja, o editor. No máximo, por uma questão de respeito, o autor é consultado. Mas quem resolve é quem contrata e corre todos os riscos se escolher mal.

Já pensou em ilustrar algum livro?
Ana Maria Machado. Não tenho nenhuma vontade de ilustrar livro. Pintura e ilustração encaram problemas artísticos diferentes, e os da ilustração não me interessam nada, em termos de execução pessoal. Admiro quem tem condições de fazer bem as duas coisas – como Ziraldo, Eva Furnari ou Marina Colassanti. Mas tenho limitações e só sei contar histórias com palavras. Quando pinto, debruço-me sobre questões de cor, luz, espaço, transparências, texturas – não sobre uma narrativa.

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Você trabalhou muito tempo como professora e também fez uma tese de doutorado em Linguística e Semiologia – sob a orientação de Roland Barthes – sobre a obra de Guimarães Rosa. Essas experiências influenciaram sua escolha pela Literatura Infantil e sua voz autoral?
Ana Maria Machado. Minha experiência de vida profissional evidentemente influencia minha experiência de escritora, mas nada além disso. Conscientemente, o fato de estudar não teve nada a ver com minha voz autoral ou minha escolha da literatura infantil ou da voz de minha literatura adulta. Fui escrever para crianças porque recebi uma encomenda – e o resultado foi muito bem acolhido pelos leitores, permitindo minha profissionalização. Continuei porque descobri que me sentia estimulada pelo desafio de fazer uma obra de qualidade literária, com profundidade e vários níveis de significação, explorando uma linguagem brasileira, muito próxima do registro coloquial e familiar, podendo dispor de um acervo de alusões riquíssimo, por englobar também a cultura popular e oral.

O psicanalista e escritor J. B. Pontalis dizia que quando a linguagem se faz absolutamente soberana, ela acaba se empobrecendo. Você acredita que isso se aplica à Literatura Infantil?
Ana Maria Machado. Não consigo imaginar em que contexto essa afirmação de Pontalis poderia estar. Daí não posso comentar, embora imagine que tudo que fica muito “absolutamente soberano” seja restritivo e repressor, por seu absolutismo e sua soberania inconteste. Mas não acho que conhecer linguística empobreça um escritor, ainda que não seja fundamental para seu ofício. Isso no meu caso. Não posso falar pelos outros, não faço ideia se isso se aplica ou não a outros autores. Aliás, cada vez mais procuro evitar generalizações, por achar que tendem a ser enganosas, redutoras e superficiais, construtoras de estereótipos. E o que me interessa são os protótipos.

LEIA MAIS: Ana Maria Machado: as histórias de vida por trás de uma grande contadora de histórias

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