Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 04.06.2009 04.06.2009

Entre porcos, moscas e piolhos

Por Cavi Borges 

Garapa, caldo de cana, sacarose, refresco, chupe-chupe, água-com-açúcar, glicose. Engana-se quem pensa que iremos falar de quitutes. A parada está longe de ser digerível. Garapa é o título do mais recente filme documentário do diretor José Padilha, cujo tema é a fome e a miséria extrema. A fome mostrada do ponto de vista de quem é assolado por ela, diariamente. A fome servida em prato raso, representada em míseros grãos de arroz e feijão e muita, muita água adocicada.

É antes de tudo uma história de superação, de mulheres heroínas: Rosa, Lúcia e Robertina, três mães de família que têm como único objetivo de vida prover a refeição seguinte dos filhos desnutridos. Um fio de vida sustentado por mamadeiras com açúcar dissolvido em água barrenta e quente, em substituição ao leite inexistente. Uma realidade crua, árida, cáustica, sem meias imagens, diferente de qualquer fome urbana, posto que sem esperança. Ao redor de cada ser humano ali retratado, há apenas o abandono.
Os personagens ganham vida e se movimentam em busca de um único objetivo: a sobrevivência. São pessoas sem sonhos ou qualquer ambição. Vivem entre porcos, moscas e piolhos, em casas sem pavimentação, sem água encanada, sem esgoto ou mesmo banheiros sanitários. Uma das personagens chega a admitir que defeca em sacos plásticos para em seguida os atirar no lixo da rua. O colchão desta mesma personagem não tem estrado, mas repousa sobre um formigueiro úmido e infestado de insetos. A certa altura, a coisa beira à bizarrice.

Quase chega a dialogar, numa associação mais radical, com documentários tipo Mondo Cane (Mundo Cão), produção italiana do início da década de 60. Uma coisa é certa: o diretor Padilha hora nenhuma buscou aliviar a realidade. Tudo no filme é brutal, de uma intimidade incômoda, frontal, desnuda, literalmente desnuda. São órgãos, perebas, feridas expostas e cáries horrendas em personagens infantis, fazendo assim o olho da câmera assumir uma estética quase sadiana. Segundo Padilha, durante o debate que seguiu à exibição do documentário, ele quis fazer um filme o mais simples possível, com o mínimo de alegorias e de informações que fossem além da história daquelas famílias, abordando a questão da fome no mundo a partir de uma perspectiva microscópica. Padilha disse ainda que o filme foi feito para que o público em geral possa ter uma idéia do impacto que a insegurança alimentar grave tem na vida das pessoas que estão nesta situação. A cana-de-açúcar, por sua vez, assume um papel ambíguo no documentário: é salvadora quando o caldo quente, bem ou mal, mata temporariamente a fome das crianças; e devastadora quando, destilada, serve de refúgio à embriaguez dos pais de família. Homens-zumbis abandonados ao fracasso e à impotência, e apenas tolerados pelas respectivas mulheres porque representam a única forma de prazer possível e gratuito: o sexo. Afora isso, não cumprem qualquer papel social. Muito pelo contrário, reagem violentos quando entendem que perderam a função de provedor no seio de seus núcleos familiares. Sem a devida assistência, sem qualquer política de controle de natalidade, estas famílias acabam se proliferando aos borbotões. Por mais de uma vez se ouve a frase: “Deus dá! Deus dá!” No caso, o sustento para alimentar mais uma boca em meio a tanto flagelo. No final, uma constatação: a sobrevivência é matriarcal. É da natureza da mulher, na hora do perrengue, arranjar forças, não se sabe de onde, para transformar desespero em alimento, fome em luta, anemia em vigor. O homem, por sua vez, é reduzido ao nada: impotente, catatônico e fraco, não se sabe se por desleixo ou circunstância, a verdade é que saímos do cinema, nós homens, nos sentindo lesmas.

“”Ô, Josué, nunca vi tamanha desgraça””  
Garapa, com duração de 110 minutos, se inicia com um fragmento da obra de Josué de Castro: Geografia da fome (Civilização Brasileira, 2001. Primeira edição de 1946). Embora centrado em três famílias nordestinas, sem quase nenhuma interferência do diretor, a história tem uma abrangência muito mais ampla e global. Pelas cartelas que surgem ao final do último frame, com números e estatísticas, é como se realmente estivesse todo tempo ali falando da fome do mundo, do desinteresse dos líderes mundiais em combater esse flagelo que afeta um em cada sete seres humanos no planeta, ou seja, em torno de 963 milhões de pessoas. 
Concebido em preto e branco, bastante granulado, Garapa, que estreou em 29 de maio, é montado num só fôlego pelo conceituado Felipe Lacerda (Terra estrangeira e Ônibus 174), em cortes secos, sem filtros, com pouquíssimos fades, sem qualquer efeito sonoro, sem música, em sistema mono, com poucos movimentos de câmera e nenhum zoom. É a escassez de tudo, inclusive de alimento, servindo como idéia estética do filme. Pela temática, pela opção do preto-e-branco, de um cinema direto e, sobretudo, pelas locações no sertão nordestino, ele é quase um tributo aos documentaristas brasileiros dos anos 1960, tais como Linduarte Noronha (Aruanda) e Vladimir Carvalho (Romeiros da guia).   
Embora a vida seja colorida, conforme observou Wim Wenders, no cinema, o preto-e-branco é muito mais realista. Inspirado nesta frase, talvez, José Padilha optou por filmá-la em Super 16 mm, queimando por dia uma média de 15 latas de negativo. Buscando não interferir na realidade daquelas pessoas, cada família é apresentada durante alguns minutos e, a partir daí, as histórias vão se entrelaçando. Assistir ao filme equivale à experiência de folhear um livro de Sebastião Salgado.

Poderíamos dizer que o filme tenta humanizar a fome. Ao trazê-la para mais próximo de nós, a fome deixa de ser apenas um distante problema de anônimos e desafortunados e passa, a partir de então, a ter cor, forma, sentimento e mau cheiro. Querer ignorá-la depois de assistir ao filme é uma questão ética e, sobretudo, um ato político. 

José Padilha ganhou projeção nacional e internacional em 2005 com o filme Tropa de Elite, que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Antes, chamara atenção com Ônibus 174. Mas as raízes de Garapa estão num documentário realizado em 1999, chamado Os carvoeiros, no qual foi produtor e roteirista. Lá já podemos ver a opção por retratar os desvalidos, a opção pelo cinema verdade, focando sem filtros a miséria do mundo através do dilema infantil, do trabalho semi-escravo, da extração do carvão vegetal no interior do país. No caso de Garapa, José Padilha e sua equipe acompanharam por um mês a rotina das três famílias cearenses em situação de “insegurança alimentar grave”, um problema que atinge mais de 100 milhões de brasileiros. 

O debate  

O debate que se seguiu à exibição do filme na noite do dia 19 de maio teve como mediador o jornalista d’ O Globo, Mauro Ventura. A mesa foi composta pelo diretor do filme, por Francisco Menezes, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), e por Consuelo Lins, professora da UFRJ e jornalista com doutorado em cinema e audiovisual na Universidade de Paris III. Lins é uma estudiosa da obra documental do cineasta Eduardo Coutinho, estudos estes reunidos no livro O documentário de Eduardo Coutinho: cinema, televisão e vídeo (Jorge Zahar, 2004).   
Francisco Menezes falou especificamente sobre a (in)segurança alimentar e nutricional no mundo e a crise de alimentos que, recorrentemente, tem ganhado espaço nos noticiários. Para ele, as discussões não estão levando em consideração que alimento é um direito, e não simplesmente uma mercadoria. E que o modelo hegemônico do sistema alimentar está calcado na lógica mercantil, que não reconhece o alimento adequado e saudável como um direito de todos e acima de qualquer interesse. Francisco é uma das pessoas que mais lutam para que o direito ao alimento esteja previsto na Constituição do país, coisa que não acontece nos dias atuais. Por fim, o diretor do Ibase expôs estatísticas ainda mais  revoltantes. Disse, por exemplo, que a política de armamento faz com que se gaste anualmente 40 vezes mais com armas do que com combate à fome. Ou, então, que o dinheiro investido na economia recente seria suficiente para acabar com a fome do mundo durante os próximos 100 anos. Foi quando José Padilha interferiu para citar o saudoso Renato Russo: “a humanidade é desumana”.  
José Joffily, diretor dos longas-metragens Achados e perdidos (2005) e Quem matou Pixote? (1996), dentre outros, embora cético quanto ao papel da arte enquanto ferramenta para alavancar mudanças e melhorias sociais, chamou a atenção para a ausência das políticas públicas. E salientou que a única presença política no filme estava num cartaz de eleição que servia de forro de mesa numa das casas. Ou ainda na estampa de algumas camisetas e bonés. No mais, realmente não é possível sentir a presença de nenhuma autoridade assistencial, exceto quando uma das personagens busca o posto de saúde na cidade. Apenas os projetos federais, tais como Bolsa Família e Fome Zero permeiam e atenuam o sofrimento de todos. Em outubro de 2008, Garapa teve sua pré-estréia mundial, durante a 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No Rio, foi a sensação do Festival É Tudo Verdade. No plano internacional, Garapa também representou o Brasil na mostra competitiva do Festival de Tribeca, em Nova York, em abril. E com certeza ainda terá muito chão a percorrer, inclusive no circuito comercial. Lembrando que ele vem abalizado pelo mega-sucesso Tropa de Elite, a maior bilheteria do cinema brasileiro em 2007.
 
Por fim, ficamos sabendo durante o debate que a renda do filme será toda ela revertida às três famílias nele documentadas. Isso de forma alguma resolve a fome do mundo, mas torna o filme mais tolerável, no final das contas.

> Assista ao trailer de Garapa

> Veja a entrevista de José Padilha ao “”Estúdio i””, programa da Globo News

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