Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 21.09.2010 21.09.2010

Entre fronteiras inexistentes

   Por Bruno Dorigatti 
   Fotos de divulgação

No dicionário, está lá: “Fronteira(sf.) 1.Linha divisória entre territórios ou países; DIVISA; LIMITE; 2. Região próxima a essa divisa; 3. Soc. Separação, divisão ou diferença entre os vários grupos sociais; 4. O ponto máximo a que se pode chegar”.  

Sabemos,porém, que fronteira é muito mais. Cutucada por este sentimento e pela noção dofilósofo alemão Martin Heidegger –para quem “uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas, como os gregosreconheceram, é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente” – MayaDa-Rin mudou-se em 2005 para Letícia, cidade colombiana localizada na fronteiraamazônica com Tabatinga, no Brasil, e a ilha de Santa Rosa, no Peru. Morou umano por lá, quando então chegaram mais três amigos para filmar um documentário.O resultado, Terras, chega agora aos cinemas, e procura apresentar demaneira impressionista um possível entendimento do que, afinal, falamos quandofalamos em fronteira, seja no seu conceito mais abstrato, mas também nas trocase presenças diárias entre línguas (espanhola, portuguesa e indígena) eculturas. 

Com pouco mais de uma hora, Terras apresenta aos poucos a geografia, as cores, os sons e as gentes da Amazônia,mas uma Amazônia urbana. A diretora ressalta na entrevista abaixo que quase 80%da população amazônica vivem nas cidades. Não se assustam com a câmera, emboraela sempre vá gerar algum tipo de reação. Frequentam lan houses diariamente, têmacesso às traquitanas tecnológicas no camelô da cidade e vão a bailes movidosao som de tecnobrega cantados em dialeto indígena. 

Alguns personagens do filmeexteriorizam o quem pensam sobre o assunto. Fala o taxista colombiano: “Letíciae Tabatinga são divididas por uma fronteira imaginária. É uma fronteiraimaginária porque muitas pessoas que não conhecem passam sem saber onde está afronteira. Porque este é um único povoado, uma mesma cidade. Existe apenas umlugar em que dizem: aqui é o Brasil e lá é a Colômbia. Fora isso, tudo énormal. A vida cotidiana é normal”. Logo adiante, algo que seria imaginário seconcretiza e se solidifica: “As fronteiras servem para tirar a liberdade. Paraimpedir o trânsito livre e o desenvolvimento de algumas pessoas. Ou seja,ficamos limitados à vontade do governo da outra nação. Eu, por exemplo, soucolombiano. Se encontro na fronteira um controle de militares brasileiros, queme impedem a passagem porque não tenho autorização, não estão permitindo meudesenvolvimento… Por quê? Porque não sou cidadão brasileiro. O mesmoocorreria com um brasileiro que deseja entrar na Colômbia. Se não tem osdocumentos, não lhe permitem. Ele é deportado. Mandam o peruano de volta paraseu país. As fronteiras não as entendo.” 

Junto com os registros em trânsitopelas cidades e pelos rios, somos inundados por sons e barulhosda floresta, cenas estáticas da mata, da vegetação, formas abstratas que vãoganhando figuração conforme se observa o chão, galhos, folhas,raízes de um mundo que vive a seu ritmo, indiferente ao ruído caótico e àconfusão sem saída da cidade grande, mas não ao barulho de carros e motos e doburburinho que encontramos em cidades pequenas como Tabatinga e Letícia, compouco mais de 47 mil e 37 mil habitantes, respectivamente. Aqui, o microcaos seorganiza em um tempo próprio. Planos aéreos que passeiam pelavastidão amazônica de verde entrecortada pelo rio barrento. A lenta e solitáriatravessia de pequenos barcos debaixo de chuva. 

Ao longo do filme, vamos sabendo que sãoos peruanos que mais dão trabalho aos barqueiros e transportadores de carga,quando trazem cebola e batata para vender no Brasil. Em Letícia, Colômbia, 50%da população são oriundos de outra localidade, seja da Colômbia ou dos paísesvizinhos, nos informa um taxista. “Costeños” e “Paisas” são os que maisimigram, iludidos por uma suposta vida mais fácil que a fronteira os leva acriar e imaginar, inclusive de transpô-la para encontrar um suposto paraíso dooutro lado. Há ainda os “desplazados”, pessoas expulsas de suas terras pelaguerrilha, como em Putumayo, no Peru. Crianças índias brasileiras assistem à umfilme brasileiro na televisão dentro de uma construção que lembra uma oca, masque utiliza tijolos com cimento, enquanto balançam na rede e entoam um hinoevangélico misturado a um canto indígena – “Cristo salva, cristo salva, salvatodos nós…” vem seguido de palavras no dialeto local. Uma índia peruana nosfala das tribos separadas pelas fronteiras territoriais impostas séculos atrás,impossibilitadas de se visitarem. Acompanhamos o registro de uma cerimônia com ayahuasca,a bebida alucinógena e ritualística, também usada como medicamento, conhecemoso bate-estaca da selva, na verdade, o bailinho na Ilha de Santa Rosa, no Peru,que acontece todo domingo, com a banda Eware que toca suas próprias composições em ritmo detecnobrega e forró, cantadas na língua Tikuna e acompanhadas com guitarra,bateria, teclado e instrumentos tradicionais indígenas. 

“Aondeestá a fronteira neste lugar em que os limites se perdem nas curvas do rio enas ramificações da floresta?”, pergunta Maya em artigo publicado noProsa & Verso, de O Globo, de11 de setembro. Ela mesma procura responder: “A fronteira está nos corpos, napele, na paisagem, nas fissuras da terra, na topografia, nos olhares eencontros. Está também na impossibilidade de enxergarmos o todo, noenquadramento das imagens pela câmera e nos diferentes timbres sonoros”. Em Terras, nos aproximamos intuitivamentede algumas fronteiras – entre elas a de um vilarejo urbano na nossa maislongínqua localidade amazônica – que, sabemos, na verdade, intransponíveis. Leia a seguir alguns trechos da entrevista com a diretora Maya Da-Rin.

Porque a fronteira, e especificamente a fronteira amazônica? 

MayaDa-Rin. O projeto surgiu em2005, quando me mudei para Letícia, na Colômbia, com essa ideia mais abstratado que seria a fronteira no cotidiano daquela localidade, uma fronteira tãorarefeita, pouco vívida. Como se dão as trocas entre os países, e como essasfronteiras se desdobram, entre cidade e floresta, entre as terras indígenas eos demais territórios. Em 2006, três amigos chegaram e foi quando iniciamos asfilmagens. 

Quaisas dificuldades em filmar lá, entre elas a própria geografia amazônica epessoas que não estão acostumadas com a presença maciça e crescente de câmerascomo temos na cidade grande? 

Maya.A ideia do estranhamento da câmerapersiste, claro, mas a tecnologia é algo muito presente. Quase 80% da populaçãoamazônica vivem em cidades. Tabatinga tem muitas lan houses, camelôs onde épossível encontrar as últimas novidades tecnológicas. Claro que algumestranhamento com a presença das câmeras e de gente que veio de tão longe foiimportante para gente, para o filme, esse encontro. Mas passamos bastante tempocom eles antes de filmarmos exaustivamente, então a câmera funcionou como maisum elemento da equipe. 

Oque chamou a atenção nesse período por lá? 

Maya.A recriação cultural nos faz repensar otempo inteiro. A banda Ewake toca tecnobrega e forró com instrumentos comoguitarra e bateria, mas também usa instrumentos indígenas e cantam em portuguêse no dialeto local. As crianças indígenas que aparecem no documentário estãocantando uma canção evangélica mistura com o dialeto também. Estas igrejas têmuma forte presença na região, traduzem a Bíblia para as línguas locais. Háainda outra relação com a terra, que habita a gente, com os mortos, que têm umaimportância muito grande, a relação dos povos indígenas com suas terrasdividias pelas fronteiras. A identidade lá sempre foi fundada na relação com ooutro, o suposto estrangeiro, as trocas sempre existiram entre eles. É umarelação com a cultura sempre em constante transformação. 

E oque mais chamou a atenção daquelas pessoas em relação a vocês que chegaram deum lugar tão distante? 

Maya.Somos estrangeiros lá, sem dúvida. E afloresta é brutal, forte, sempre te expelindo. É um exercício de tradução otempo todo.

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