Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 24.09.2010 24.09.2010

Entre a nostalgia e a verborragia

   Por Ramon Mello

A suprema felicidade, de Arnaldo Jabor, estreou com glamour,abrindo o Festival do Rio 2010, na última quinta 23 de setembro. Após um jejum de quase 20 anos longe dos sets, diretorde longas de sucesso como Eu sei que vou te amar, Eu te amo e Toda nudez será castigada (que levou oUrso de Prata no Festival de Berlim de 1973), Jabor parece ter se perdido nanostalgia de suas memórias.

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No filme, com traçosdeclaradamente autobiográficos, acompanhamos a transformação do jovem, entre os10 e 18 anos de idade, no Rio de Janeiro do pós-guerra, no final dos anos 1950.A conflituosa relação com os pais, a sólida cumplicidade com o avô boêmio, edescoberta do mundo e de si mesmo são desdobradas sob o olhar de Paulo,personagem principal é interpretado por três atores: Jayme Matarazzo, MichelJoelsas e Caio Manhente. E um elenco de peso, incluindo Marco Nanini, AryFontoura, Dan Stulbach, Mariana Lima, Elke Maravilha e João Miguel, nos fazementender que a felicidade está em diferentes lugares. E dura pouco tempo.

O filme aproxima-se de um romancede formação, gênero literário que tematiza a educação dos iniciantes e tem comoum de seus pressupostos que o personagem e o leitor tenham um aprendizado. Noentanto, na tela do cinema, algumas cenas, sublinhadas pelas falas daspersonagens, soam como clichês. A história poderia fluir melhor se o cineastase preocupasse mais com sua visão sobre o personagem, na busca de um olharmenos comentarista.

Dedicando-se diariamente aojornalismo, especialmente ao gênero da crônica, é possível entender porqueArnaldo Jabor faz um filme verborrágico. Com roteiro realizado a partir decrônicas publicadas na imprensa, a narrativa do filme estrutura-se a partirpequenos pensamentos temáticos – amor, guerra, morte, desilusão – que se pulverizamentre os personagens, sem o alargamento dessas histórias.

Há momentos que cativam o espectador pela sinceridade e aparente simplicidade com que a história é contada, porexemplo, quando Paulo, aos 18 anos, encanta-se com uma dançarina de bordel emarca um encontro na Urca. Seguimos, deuma forma fragmentada, acompanhando a vida do jovem e suas inquietações, naexpectativa de que os 125 minutos não se justifiquem pela repetição.

Com A suprema felicidade, Arnaldo Jabor mostra uma época em que Rio deJaneiro ainda era, segundo o diretor, uma espécie Amarcord brasileiro. Mas Jabor extraiu somente a nostalgia fellinianado io me ricordo (eu me lembro),esquecendo de se aprofundar nas histórias das personagens que habitam ocotidiano onírico do seu protagonista.

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