Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.10.2011 18.10.2011

Entre a arte e a necessidade: livro revela o que move os artistas de rua de São Paulo

Por Andréia Silva
Na foto ao lado, grupo de artistas de rua  durante apresentação em São Paulo
Crédito: Ariel Cahen
 
Joaquim era pedreiro e tinha tudo para se tornar um mestre de obras. Preferiu a música e fez das ruas do centro de São Paulo o seu palco. O maior sonho do baiano João de Jesus da Silva era tocar bateria. Mas antes disso, ele precisava ter uma. Sem dinheiro, decidiu montar uma com os materiais achados em um lixão em Salvador. Veio até São Paulo com o sonho inscrito em uma placa e a sua bateria reciclável.
 
Os detalhes por trás dessas e de outras histórias estão no livro Compasso Urbano – A Vida De Quem Transforma A Rua Em Palco E A Necessidade Em Arte (Editora Setembro), do jornalista Ariel Cahen, e com ilustrações de Fábio Machado.
 
O título é um retrato heterogêneo desses artistas populares que escolheram o centro de São Paulo, na região da Sé, para ser sua vitrine. Ali, a música se confunde com buzinas, gritos, passos e sonhos.
 
“Sempre tive um interesse por esse lado mais cultural e social do jornalismo, até que um amigo comentou sobre fazer um livro com artistas de rua”, conta Cahen. A partir daí, o jornalista foi a campo, fez dezenas de entrevistas, acompanhou o dia a dia e pode traçar um perfil de quem são esses artistas.
 
“A grande maioria faz esse trabalho por necessidade e podem ganhar mais com a música do que ganhariam em um trabalho comum, já que a grande parte deles não tem curso superior”, diz o jornalista.
 
Diariamente, os artistas conseguem obter uma renda entre R$ 50 e R$ 70. “Mas há exceções, há quem faça isso porque gosta, como é o caso do Joaquim. Ele é pedreiro e tinha condições de fazer um curso e se tornar mestre de obras. Mas seu grande sonho é a música, então ele resolveu largar a profissão de pedreiro e se dedicar ao que gosta”, diz Cahen.
 
Ariel Cahen
 
Entre homens e mulheres, brasileiros e estrangeiros, entre o gosto pela arte e a necessidade, cada artista tem uma preferência na hora de se apresentar.
 
Uns tocam vestidos a caráter, como o Trio Agrestino, outros levam apenas seu instrumento, na maioria das vezes o violão. Mas há quem surpreenda, como é o caso de Stephani Novais, que com seu violino silencia as esquinas por onde toca.
 
“O que mais me chamou atenção foi a criatividade desses artistas, principalmente a de um baiano [João de Jesus da Silva] que adora percussão e montou uma bateria com materiais que ele acho no lixão. Ele veio tocar em São Paulo porque os colegas dele disseram que ele ganharia mais dinheiro se viesse para cá. É uma engenhoca incrível”, diz Cahen sobre o instrumento criado por João.
 
Mas nem só de curiosidades e humor vivem esses artistas. O livro foi feito em 2009, antes, portanto, dos artistas de rua terem sua atividade regularizada pela prefeitura, o que acontecem em julho de 2011. Na época, o medo era muito presente já que a qualquer momento a fiscalização poderia confiscar os instrumentos de trabalho. Isso significaria pelo menos 30 dias sem o material de trabalho e ainda gasto com multa. Prejuízo que artista de rua nenhum poderia se dar ao luxo de ter.
 
“Eles tiveram a profissão regulamentada, mas ainda apresenta falha. Por exemplo, eles podem receber doações financeiras de pessoas, podem doar os discos, mas não podem comercializá-los. Ou seja, você tem uma brecha que ainda deixa a desejar na valorização desses artistas”, comenta o jornalista.
 
Para que o leitor possa conhecer os personagens, o livro vem acompanhado de um documentário de 33 minutos com trechos de entrevistas e imagens das apresentações, e mais de 100 fotos. “Essas histórias geram curiosidade. Você quer sentir a música, ver o rosto das pessoas. Vi no formato multimídia essa possibilidade”, diz o jornalista.
 
Confira o teaser do documentário de Compasso Urbano:
 
 
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