Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.03.2010 10.03.2010

Em torno d’ A mulher que transou com o cavalo

Por João Ximenes Braga
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de João Ximenes Braga ao SaraivaConteúdo 

É ponto pacífico que não seresponde a resenhas, quem o faz é visto como um ressentido que não temmaturidade para ser criticado, ou pior, alguém que quer criar polêmica para sepromover. Mas vários pontos da resenha de Beatriz Resende (O Globo, Prosa & Verso, 23 de janeiro) para meu mais recentelivro, A mulher que transou com o cavaloe outras histórias (Língua Geral,2009), necessitam de uma discussão. 

Diz ela que, ao receber o livro,logo “surgiu uma forte implicância com o título grosseiro,abertamente apelativo. Não acredito que nenhum leitor inteligente seja atraídopor uma obra com a frase de duplo sentido estampada na capa”.  Admito que fiquei chocado, nem tanto por ver alguémcom mais de 17 anos partir de “implicância” para fazer uma análise, mas com agrosseria: ela basicamente chama os leitores que se aproximaram do meu intento– e não são poucos – de burros. Tal atitude não é inédita vinda de professoresuniversitários que fazem críticas de livros. Recentemente, um colega de BeatrizResende, escrevendo sobre O rastro dojaguar (Leya,2009), de Murilo Carvalho, concluía: “É verdade,porém, que essa mesma ligeireza (da narrativa) tende a seduzir os leitoresmenos severos.” 

Críticos de cinema e música entendem que háespectadores e ouvintes com desejos diversificados. Chegamos aos livros e,danou-se, os acadêmicos, e certos críticos que sempre falam em “a literatura”com artigo definido, como se houvesse um único cânone a ser seguido, não fazemcerimônia em dizer que o leitor que não os obedece é burro ou pouco exigente. Dificilmentehaverá uma versão brasileira contemporânea de fenômenos de qualidade epopularidade como o inglês NickHornby e o americano DavidSedaris (não me comparo a eles, não são minha praia, apenas os uso comoexemplo). Certos críticos locais os matariam no nascedouro, trucidariam sualinguagem simples, pois negam a possibilidade de uma literatura que não sejadirigida a uma casta de leitores que habita uma torre de marfim. MuriloCarvalho escreve um romance histórico com linguagem simples e narrativa ágil,mas vem um professor de literatura, chama o leitor interessado no seu romancede desleixado e ainda afirma que “não é nada que se aparente a Grandesertão:veredas. Meu senhor, a única coisa que se aparenta a Grandesertão é Corpode baile.

Num ponto concordamos, eu e Beatriz Resende: meutítulo é apelativo, sim. Não tem duplo sentido como ela alega (e logo mais àfrente ela mesma demonstra que não), mas é intencionalmente sensacionalista. Quero leitor com senso de humor. O leitor com cultura popular para entenderque o título é uma paráfrase de “Cachorro faz mal a moça”, manchete maiscélebre do jornalismo sensacionalista brasileiro. Ou o leitor que, pelagrosseria do título, antecipe a entrada num universo de contos anti-eróticos,contos sobre personagens que não sabem lidar com as próprias perversões sexuaise afetivas, contos sobre a poeira do asfalto sujando lençóis, contos de maugosto sobre um mundo grosseiro que poderia render aquelas manchetes geniais do MeiaHora, cujas primeiras páginas, em exibição nas bancas, decoram as ruas doRio de Janeiro tal como quadros que se renovam a cada dia.  

E creio que estou na direçãocerta quando vejo dois amigos, desconhecidos entre si, postarem no twitter queleram A mulher que transou com o cavalono metrô e despertaram curiosidade a seu redor, com outros passageirosindagando sobre o livro. Mais feliz vou ficar no dia que isso acontecer numtrem da Central. Beatriz Resende tem todo o direito de fazer uma crítica rigorosade meu livro e meu talento. Mas não chama meu leitor de burro, mermão, que eu engrosso. Não sei se Beatriz Resende tem o direito deinterferir no meu processo criativo e demandar que eu me dirija ao tal “leitorinteligente” que ela idealiza, mas, com essa frase, me deu o direito de dizer:de imediato, eu queria mesmo era uma crítica menos idiota. 

Primeira regra ao se ler uma crítica sobre seutrabalho: não leve para o lado pessoal. Num ponto pelo menos, ficou difícil. Soumacumbeiro. Nem me digo umbandista, mas ma-cum-bei-ro, pois gosto da sonoridadee de desafiar a carga de preconceito que ainda segue a palavra. Sou chegado aopovo da rua, como chamamos os exus e malandros. Meus primeiros contatos cara acara com uma entidade foram com o Exu Tranca-Rua, sob a recomendação de umaamiga filha-de-santo: 

– Ele é punk, você vai se identificar. 

Quando criei um personagem que é médium e recebe oTranca-Rua, o fiz com o mais profundo respeito pela entidade. Bem antes demandar para a Língua Geral, mostrei o conto a umbandistas mais experientes ecientes das tradições. Disseram que peguei muito bem o jeito dele falar, não sóa prosódia, mas o jeitão mesmo. O Tranca-Rua é curto e grosso, sacana,sarcástico, briguento, mau-humorado e simples. 

Aí vem Beatriz Resende e escreve: “O ‘cavalo’ é simplesmente” – simplesmente?! – “o umbandista que recebeExu de capa e cartola, incorporando um Tranca-Rua tatibitate”. Tudo é possível, mas seu textoleva a crer que ela não tem o menor conhecimento de causa, projetou suaignorância no que escrevi, e foi absolutamente leviana ao induzir o leitor desua resenha a concluir que eu, logo eu, fui desrespeitoso com minha própriareligião.

Sobretudo quando ela escreve que o médium, “apesar de razoavelmente competente nas camas de hotel barato, se recusa atrazer a entidade de que é cavalo para as fantasias da moça”. 

Meu títulopode ser grosseiro, mas a resenha rivaliza pau a pau. Esse tom leva a crer que,na cabeça da crítica, o médium devia mais é incorporar o exu e foder a moçapara acabar logo com essa bobagem. Ora, estamos falando de um sacerdote! É impossível se aproximar desseconto se o leitor, seja qual for sua crença ou descrença, não admitir apremissa de que pelo menos aquele personagem é verdadeiro em sua fé. Por mais que possa ter falhado como escritor ao desenvolver o conflito, ébastante nítido que, de partida, desde quando se referiu a ele como “simplesmente o umbandista”, a críticanão confere qualquer respeito à religiosidade do personagem. Infelizmente, o preconceito contraa umbanda ainda é forte, e a leitura de Beatriz parece impregnada dele. Aindadecreta que esse conto deveria ter sido cortado, como se fosse a única pessoacapaz de julgá-lo. 

Primeira regra da ética dacrítica, ou pelo menos assim aprendi no tempo em que as fazia: não se podeapenas impingir seus preceitos à obra, é preciso tentar entender minimamente aque o autor se propõe. Ela tanto não o fez que não me reconheço nem noselogios. Começa com um que me sinto constrangido a recusar: “conhecido como cronista inspirado que é, dono de umaprosa inteligente atravessada por humor sutil”. Agradeço o “inspirado”, mas…“prosa inteligente”? “Humor sutil”? Eu? 

Como cronista, sou conhecido por ser curto e grosso,sacana, sarcástico, briguento, mal humorado e simples. Já fui acusado de muitascoisas, nunca de sutileza. Se fosse leitora habitual das crônicas, a críticanão ficaria surpresa com “o título grosseiro”, nem com o que chama de oscilaçãoentre “o bom e o mau gosto pelo livro afora”. Aliás, desde aquela música daCalcanhotto, eu jurava que o uso do bom e o mau gosto no sentido qualitativo jáhavia caído no ridículo. 

Longe de mim esperar que alguém tenha lido todas as crônicas que publicohá 13 anos (no mesmo jornal em que foi publicada a resenha em questão), masdesconfio que Beatriz não tenha lido mais que quatro ou cinco e não devia nemter feito a menção, pois quando se percebe que o elogio é leviano, a críticatambém parece ser. Ela nem precisava ter qualquer conhecimento prévio,bastava ter dado um google e lido um resumo de meus livros anteriores paraentender que o mau gosto é, para mim, ferramenta de trabalho e universo deescolha. 

Aliás, nem precisava pesquisa,bastava ler o título do livro com um pouco menos de auto-condescendência e nãosubestimar tanto a inteligência do autor e do editor ao presumir que não houvereflexão sobre a escolha. Tenho certeza de que ela não gostaria do livro damesma forma, mas talvez pudesse desancá-lo com alguma propriedade e não com suaimplicância tatibitate. 

Da mesma forma que elacontinuaria não gostando da personagem que reflete sobre suas próprias reações,mas não deveria subestimar o autor a ponto de falar disso como se fosse acaso edescaso, sem entender, ou sem querer entender, que esse é o traço mais marcanteda personagem. Estou ali retratando uma mulher eternamente insatisfeita que seauto-analisa o tempo todo, característica comum a várias mulheres que conheçoda geração e meio social da personagem. 

Num único momento a críticaparece se abrir à idéia que não basta trazer preceitos prontos, é precisopensar a que o livro se propõe: “É nos momentos em que Ximenes desenvolve suapremissa básica, a de que a qualquer tentativa de encontrar a felicidade éimpossível, sobretudo se for buscada na mais banal e freqüente de suas versões,a da vida em família, que sua escrita cresce”. Ela me atribui uma pretensãoinumana. Como provar que “qualquer tentativa” de encontrar a felicidade éimpossível em 12 histórias? E mais, como vou pretender mostrar que a felicidadeem família é ainda mais impossível que “qualquer felicidade”, se em 12 contosapenas três giram em torno de estruturas familiares? E como ela pode dizer queminha premissa é a impossibilidade da felicidade se, poucos parágrafos acima,ela mesma resume o fim do segundo conto da seguinte forma: “Aquela Andréadesiludida com os homens casa-se com Arnaldo e cada um pratica suas diversõessolitárias, felizes para sempre”. 

Sabendo que essa premissa passa longe do meu livro, só posso crer que elase ateve a uma frase que aparece de passagem no texto da orelha: “Masdemonstram um ponto em comum: a busca de uma forma de felicidade que foge dosparadigmas da sociedade burguesa”. O editor atentou para “um ponto em comum(entre os personagens)” e Beatriz Resende infere daí “a premissa básica”. Noúnico momento em que se propõe a entender a intenção do autor, ela recorre àorelha e esquece os contos. E mesmo o texto da orelha ela distorce. O editorescreve que os personagens buscam umaforma de felicidade, ela me atribui a tentativa de provar que essa busca éimpossível. 

Tenho um arquivo cheio de e-mails de leitoresacumulados ao longo de anos para me lembrar que um texto pode, para o bem oupara o mal, ser lido de forma totalmente diferente da intenção original, e épreciso respeitar a variedade de interpretações. Mas a crítica de BeatrizResende é uma ficção vertiginosa e autocentrada, aquém das suasresponsabilidades.

> João Ximenes Braga na Saraiva.com.br

 

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