Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 05.04.2013 05.04.2013

Em ‘Segredo de Família’, Eric Heuvel mostra a Segunda Guerra pela ótica do colaboracionismo na Holanda

Por Rafael Roncato
 
Desde os 10 anos de idade, o tema da Segunda Grande Guerra Mundial intriga o quadrinista holandês Eric Heuvel, que tranformou o interesse e o gosto por esse período histórico justamente em seu ganha-pão. A paixão de Heuvel nasceu em 1970, com a publicação de um quadrinho comemorativo dos 25 anos de paz que se estendia pela Europa; de lá para cá, nos últimos 30 anos, o tema tornou-se quase uma fixação para o autor, numa mistura de entretenimento e educação.
Inspirado pelo traço e pelas tramas de Hergé, o grande criador de As Aventuras de Tintim, Heuvel construiu uma longa carreira nos quadrinhos através de sua parceria com o roteirista Martin Lodewijk, desde 1986, resultando nas histórias de January Jones, uma exímia piloto de avião dos anos 30, na melhor mistura de sua principal influência (Tintim) com Indiana Jones.
Por volta dos anos 2000, chocado ao perceber que diversos jovens não conheciam direito a História de seu próprio país – "Alguns não sabiam onde colocar a figura de Hitler em uma linha do tempo; ele estava vivendo antes ou depois de Napoleão?" –, o quadrinista resolveu encabeçar, em conjunto com a Fundação Anne Frank, publicações que contassem de forma educativa e dinâmica os feitos de seu povo, focando nos horrores da Segunda Grande Guerra (a primeira publicação de Heuvel no Brasil sobre o tema foi em 2009, com A Busca).
 
Em sua graphic novel mais recente, Segredo de Família, Heuvel conta uma história inventada, mas entrelaçada com fatos reais – históricos e familiares –, sobre o colaboracionismo holandês durante a perseguição aos judeus na Alemanha de Hitler. Quando Jeroen vai ao sótão de sua avó Helena em busca de algo interessante para vender, ele descobre um diário de recortes que ela manteve durante a guerra; desse modo, as memórias da avó são trazidas à tona, juntamente com as dores do passado ao perder sua melhor amiga, a judia Esther. 
 
A Segunda Guerra é um assunto que parece jamais se extinguir, seja qual for a mídia: filmes, livros, quadrinhos… É um tema que também parece falar com todos, desde pessoas que vivenciaram a guerra até crianças e adolescentes que estão estudando.
Heuvel. Tenho certeza que você está certo. O que faz essa guerra ser ainda mais horrenda é também ter tornado o Holocausto algo possível. Ensinar os jovens que algo desse tipo jamais deve se repetir faz com que a educação sobre esse assunto seja ainda mais importante que lições sobre as Guerras Napoleônicas, Primeira Guerra ou a Guerra do Vietnã.
 
Qual é a dificuldade de escrever quadrinhos que falam sobre períodos históricos? Quanto o autor pode adicionar aos eventos históricos sem ser muito ficcional ou irreal?
Heuvel. É realmente importante ser historicamente preciso. Ainda há pessoas que negam o Holocausto, e não queremos dar espaço para teorias, por exemplo, de que não existiram campos de concentração. Esse é um dos motivos pelos quais procurei a Fundação Anne Frank. Eu sabia que nossas habilidades (a minha como desenhista e contador de histórias, e a deles como a grande autoridade na Holanda sobre esse tema) poderiam levar a um quadrinho reconhecido pelo que ele realmente é: um produto útil para alimentar o interesse dos jovens sobre esse período da História. Mesmo que nossos personagens sejam ficcionais, eles são baseados nas experiências de pessoas reais, seja vítima, criminoso ou espectador. A evacuação de Helena da região de Amsterdã para a província de Friesland durante a Fome Holandesa de 1944 foi baseada na história de vida da minha própria mãe. Inúmeras outras histórias retiradas dos arquivos da Fundação foram conectadas com outros personagens da graphic novel.
 
Em Segredo de Família, Heuvel conta uma história inventada, mas entrelaçada com fatos reais
 
Aqui na Holanda, os meus quadrinhos já são usados em classes no país todo. Dois dos álbuns – Segredo de Família e The Return (De Terugkeer, sobre a Segunda Guerra no Oriente) – foram considerados "tesouros nacionais", o que significa que uma grande quantidade, cerca de 200 mil, foram doados pelo governo holandês aos estudantes de ensino fundamental nos anos de 2005 até 2010.
 
Como você se prepara na hora de escrever e desenhar sobre História? Há estudos, entrevistas com historiadores e professores?
Heuvel. Não são apenas fatos e datas que devem ser precisos, mas, já que estamos falando do meio gráfico de troca de informações, também é muito importante que tudo que eu mostrar em cada quadro seja o mais correto: as roupas, os uniformes, as locações, os meios de transporte… Isso significa muita documentação, e é uma parte do trabalho que realmente gosto. Quando havia lapsos no meu conhecimento, a Fundação me ajudava.
 
O que diferencia um bom quadrinho histórico/educacional de um ruim?
Heuvel. Não é apenas a coerência histórica que conta, mas também contar uma história boa e envolvente com um final inesperado, que capte o leitor durante toda a leitura do quadrinho. Dessa forma, o leitor é coberto de informações históricas e há a possibilidade de se interessar pelo assunto. Estes álbuns são considerados apenas um bê-á-bá da história da guerra, ocupação, holocausto, descolonização, etc. Talvez os leitores se aprofundem em toda essa história através de livros, documentários e estudos, um reflexo da leitura dos quadrinhos.
 
 
 
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