Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 21.03.2014 21.03.2014

Em novo disco, Bruce Springsteen faz cover de si mesmo

Por Andréia Martins
Bruce Springsteen fechou o ano de 2013 não como “o chefe”, mas como um rei. Com uma turnê que tirou o fôlego de todos que o viram ao vivo e que foi eleita pela Rolling Stone como o melhor show do ano, o próximo passo do cantor era aguardado com expectativa.
Esse passo foi sacudir a poeira e rever canções que estavam perdidas em gravações de estúdio e foram apresentadas por ele nos shows, mas que nunca haviam sido registradas em um álbum. O resultado foi o disco High Hopes, 18º trabalho do cantor em que ele, em oito das 12 faixas, faz um cover de suas próprias canções. De inéditas, apenas quatro: “Heaven’s Wall”, “Frankie Fell In Love”, “This Is Your Sword” e “Hunter Of Invisible Game”.
High Hopes começa e termina com covers – essa é a primeira vez em que isso acontece na discografia de Bruce. Há músicas de diferentes temáticas e momentos da carreira dele. O álbum não foi tão bem recebido pela crítica, mas os fãs rapidamente colocaram o disco no número um da parada da Billboard 200. Foi a 11ª vez que um disco de Bruce alcançou o topo entre os mais vendidos.
“Embora High Hopes seja um álbum totalmente diferente da linha de Bruce, que normalmente preza para criar discos cujas músicas estejam conectadas por um elo comum, sua falta de coesão não chega a ser exatamente um ponto fraco, já que dá a possibilidade de Bruce explorar diversos temas. Não chegará a se incorporar aos clássicos, mas certamente há aqui grandes momentos, nos quais pode ser encontrado o melhor de Bruce Springsteen”, comenta André Espínola, do blog sobre música O Filho do Blues.
Já o editor e crítico de música da Rolling Stone, David Fricke, diz que “High Hopes é um olhar profundo sobre a década passada de Springsteen, só que com um afiado viés para a frente. O trabalho é um apanhado de coisas antigas e emprestadas de outras fontes, mas tudo parece renovado. É algo retrospectivo, mas com pegada”. Ele é um dos poucos a reconhecer qualidades no disco.
 
  Capa do disco High Hopes
Bruce revelou que estava trabalhando na reunião desse material há anos. O guitarrista Tom Morello, que se juntou à banda do cantor para substituir Steve Van Zandt durante a etapa australiana da turnê Wrecking Ball, em 2013, foi definitivo para dar um rumo ao projeto. Abaixo, você conhece a história por trás das oito regravações de High Hopes:
“HIGH HOPES”
Em um depoimento em seu site oficial, Bruce conta que estava trabalhando na ideia de registrar o melhor do seu material inédito “desde a década passada, quando Tom Morello sugeriu que deveríamos adicionar ‘High Hopes’ ao nosso set ao vivo”. A canção, composta por Tim Scott McConnell em 1987, já havia sido tirada do repertório pelo próprio Bruce. Mas, com os arranjos de Morello, Bruce mudou de ideia. A música era parte da antiga setlist dos shows do cantor. Foi gravada em 1995 pela E Street Band e registrada no EP Blood Brothers, uma raridade na obra de Springsteen. O frescor que o rockabilly ganhou com a guitarra de Morello foi suficiente para convencer Bruce a colocá-la também no disco. 
 
 
“HARRY’S PLACE” E “DOWN IN THE HOLE”
Compostas por Bruce em 2001, as músicas deveriam ter entrado no disco The Rising (2002), pós-atentados de 11 de setembro. Segundo Bruce, elas ficaram de fora do álbum porque seu tema não combinava com o das demais. Em High Hopes, o saxofonista Clarence Clemons, o preferido de Bruce e falecido em 2011, “marca presença” em “Harry’s Place” com seus solos resgatados das gravações de estúdio.
“AMERICAN SKIN (41 SHOTS)”
Das músicas do disco, essa é a única que Bruce tocou com mais frequência na última turnê. O artista compôs a canção em homenagem a Amadou Diallo, um imigrante guineano de 23 anos que foi morto com 19 tiros por quatro policiais que o confundiram com um suspeito de cometer uma série de estupros. O crime aconteceu em 4 de fevereiro de 1999, perto da casa de Diallo. O caso teve forte repercussão no país. A família processou a polícia de Nova York por negligência, já que ficou provado que Diallo não tinha relação com os crimes e nem era fichado. A prefeitura criticou Bruce pela composição. A música já havia sido gravada duas vezes em 2001 – numa versão ao vivo do disco Live in New York City e em outra de estúdio, em um EP distribuído para algumas rádios. Agora, a canção ganha um registro oficial.
 
 
 
 “THE GHOST OF TOM JOAD”    
 
Sim, você já ouviu essa canção em algum disco antes. Inclusive, o álbum em questão leva o nome da música e foi o 11º da carreira de Bruce, lançado em 1995. Aqui, a composição ganha nova roupagem com a participação de Tom Morello na guitarra. Essa música representa bem a parceria entre os dois. Com o Rage Against the Machine, o guitarrista já havia regravado a faixa no disco Renegades (2000). Depois, ele tocou a canção com a E Street Band em uma apresentação na Califórnia e repetiu a dose com Bruce, durante um show no aniversário de 25 anos do Hall da Fama do Rock. Durante a turnê na Austrália, em 2013, “The Ghost of Tom Joad” foi tocada em todos os shows.
 
Tom Morello e Bruce, parceiros no palco e no estúdio
“THE WALL”
Bruce tocou a música pela primeira vez em 2003, durante um show. É uma homenagem a um amigo e ídolo que morreu no Vietnã. “A canção apareceu depois que eu e Patti fizemos uma visita ao Memorial dos Veteranos do Vietnã, em Washington. Foi inspirada em minhas memórias de Walter Cichon. Walter foi um dos grandes roqueiros de Jersey, que, junto com seu irmão Ray (um dos meus primeiros mentores da guitarra), liderou os Motifs. Eles foram os heróis que você queria ser”, conta Bruce em depoimento sobre o novo disco em seu site. A banda foi uma inspiração na cena de Nova Jersey nos anos 1960. Obrigado a servir o Exército, Walter desapareceu durante uma ação no Vietnã em março de 1968.
“JUST LIKE FIRE WOULD”
Os covers de High Hopes mostram duas fortes referências punk de Bruce. A primeira é essa canção da banda australiana The Saints, um dos nomes fortes do gênero do início dos anos 1970. A música foi originalmente gravada em 1986. A sugestão para gravá-la em High Hopes veio de Tom Morello.
 
 
“DREAM BABY DREAM”
Cover da banda Suicide, grupo de punk rock nascido em Nova York. Bruce costumava cantar trechos dessa música, lançada originalmente em 1979, no final dos shows de sua turnê “Devils & Dust Tour”, em 2005. A banda é uma das grandes influências de Bruce, que no disco Nebraska (1982) compôs "State Trooper" em referência a "Frankie Teardrop", música do Suicides sobre um homem de família que ficava louco devido à pobreza. Em setembro de 2013, quando encerrou a turnê “Wrecking Ball”, Bruce fez um vídeo de agradecimento a todos que assistiram aos seus shows tendo a canção como trilha sonora.
 
 
 
 
 
Recomendamos para você