Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 25.07.2011 25.07.2011

Em ‘Nó na Orelha’, Criolo vai além do horizonte do rap dos guetos de SP

Por Mauro Ferreira, do blog Notas Musicais
 
Resenha de CD
Título: Nó na Orelha
Artista: Criolo
Gravadora: Sem indicação
Cotação: * * * * 1/2
 

Em seu segundo álbum, Nó na Orelha, Kleber Cavalcante Gomes, vulgo Criolo, vai (muito) além do horizonte rítmico do rap produzido nos guetos periféricos de São Paulo (SP), dos quais o artista emergiu no mercado fonográfico em 2006 com o lançamento de seu primeiro álbum,Ainda Há Tempo. Se este foi urdido nos moldes mais tradicionais do hip hop, numa época em que o rapper ainda se apresentava com o nome de Criolo Doido, Nó na Orelha extrapola rótulos e clichês a ponto de incluir abolerada canção brega, Freguês da Meia Noite, entre os temas autorais do repertório formatado com inventividade por Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman (do coletivo Instituto). Nó na Orelha é um disco de rap mais pela atitude e pela temática afiada das letras do que pelo som em si, embora haja rap entre os afrobeats de Mariô, única música não assinada solitariamente por Criolo, parceiro de Kiko Dinucci no tema. E o fato é que o álbum surpreende a cada faixa. Em Bogotá, metais e batida à moda do Funk Como Le Gusta emolduram letra que expõe a indignação do artista com a escancarada rota do tráfico de drogas. Em Subirusdoiztiozin, ele subverte as normas gramaticais e cria linguajar próprio que remete ao idioma particular dos sambas de Adoniran Barbosa (1911 – 1982), como se o Poeta do Bixiga estivesse imerso no cotidiano violento da Zona Leste de São Paulo (SP), lugar onde"filho chora e mãe não vê", como diz  verso da letra. Belíssima balada de alma soul, adornada com cordas, Não Existe Amor em SP destila fina poesia ao retratar a automação dos relacionamentos sociais e afetivos na maior metrópole do Brasil.

Com título que alude ao bairro (Grajaú) da periferia paulista onde vive o artista, Grajauex é a faixa que mais se aproxima do que se espera de um disco de hip hop, tanto na letra como na batida do rap. Apesar do nome, Samba Sambei mergulha na praia jamaicana do reggae e do dub. Samba mesmo é Linha de Frente, de cuja letra saiu o título Nó na Orelha. A letra versa sobre personagens da Turma da Mônica sob a ótica de quem sempre teve que driblar a violência cotidiana da periferia. "Cascão é rei do morro e a chapa esquenta fácil", canta Criolo, fazendo jus aos elogios unânimes colhidos por esse disco tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante do universo do rap. Álbum é capaz de dar nó na cabeça de quem nivela o rap brasileiro por baixo.

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