Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 27.06.2014 27.06.2014

Em ‘Graffiti Moon’, de Cath Crowley, arte de rua divide a atenção com protagonistas

Por Andréia Martins
A escritora australiana Cath Crowley não é marinheira de primeira viagem na literatura, mas está se tornando conhecida de jovens leitores brasileiros só agora, com a publicação de Graffiti Moon no país.
A autora pegou o contexto da arte de rua para contar a história de dois jovens: Ed, um rapaz tímido e com pouca articulação que atua como artista pelo codinome “Sombra”, e Lucy, que, aos 18 anos, ama arte e trabalha como assistente em um ateliê. Ambos são apaixonados por arte e um pelo outro. Graffiti Moon conta um dia na vida desses dois personagens e sua turma e discute também o papel e a importância da arte na juventude.
“A arte nos ajuda a descobrir quem somos, nos dá compaixão, e eu não consigo pensar em nada mais de que precisemos no momento.Você precisa de comida, abrigo e das coisas práticas. E você precisa de algum tipo de beleza em sua vida”, diz a autora em entrevista ao SaraivaConteúdo.
Animada com sua estreia no Brasil, Cath contou mais sobre o livro e onde buscou inspiração para criar esse universo artístico. Ela revelou ainda que John Green, autor do best-seller A Culpa é das Estrelas (Intrínseca), é uma de suas referências quando se trata de escrever para jovens.
Aqui em São Paulo seria fácil imaginar o contexto da história de Ed e Lucy, pela variedade de artistas se expressando nas ruas. Como é a cena de arte de rua aí em Melbourne (Austrália)?
Cath Crowley. Parecia fácil imaginar essa história acontecendo nas ruas de Melbourne, uma mistura dos lugares na cidade com uma paisagem industrial. Lembro-me de sentar debaixo de uma ponte perto da minha casa. As luzes que saíam das fábricas eram espetaculares, como se um céu noturno tivesse saído dos edifícios, era o lugar perfeito para o livro. Há lugares em Melbourne onde a arte de rua é legal, como Hosier Lane, Caledonian Lane, Degraves Street. Eu moro em Yarraville e, no caminho para pegar meu café, tenho a sorte de ver o trabalho de Baby Guerrilla (uma das principais artistas da Austrália) pelas ruas.
E como nasceu a história de Ed e Lucy?
Cath Crowley. Os personagens vieram de alguns lugares diferentes. Escrevi Ed depois de trabalhar com alguns jovens disléxicos. Escrevia para eles, que ditavam seus textos para mim. Conseguia ouvir os pensamentos desses estudantes que amavam arte, eram muito articulados, mas não podiam escrever sobre como se sentiam. Essa experiência levou, em parte, ao livro. Lucy foi criada depois que eu falei com uma artista chamada Bethany Wheeler. Lucy é positiva, determinada e uma sonhadora. Então, acho que a história começou em minha mente como um livro sobre arte – sobre personagens que eram apaixonados por ela –, mas também como uma história de amor, sobre Lucy e Ed se apaixonando um pelo outro.
Quando você fala de como criou o personagem Ed, no livro ele se expressa muito através da arte, como se não houvesse outra forma de se fazer ouvir. Isso veio dessa experiência com os jovens disléxicos?
Cath Crowley. Fiz várias pesquisas para compor o universo artístico de Ed, mas houve um momento em que eu deliberadamente parei de olhar e pesquisar. Não queria que ele fosse parte de qualquer grupo social. O ponto do personagem é que ele é um completo estranho. Ele é um “outsider”. Em segundo lugar, eu sabia que sua arte seria o seu diálogo interno, então tive que fazer a sua obra de arte. Não queria ser influenciada pelo grafite que eu tinha visto. A arte tinha que refletir a narrativa de Ed.
Certa vez, John Green disse que os jovens precisam se reconhecer de fato na história, e disso dependem bons diálogos, falas reais. Como você constrói esses diálogos nos seus textos?
Cath Crowley. John Green é uma de minhas referências. No meu caso, faço pesquisa e trabalho com os jovens. Eu nunca tento usar o vocabulário exato de um adolescente, mas tento captar o ritmo de seu discurso, o conflito e as brincadeiras que eles têm. Eu li algumas passagens para grupos de jovens, para ver se eles riam, se divertiam. Eles são muito honestos – se não gostam ou acham que não é verdadeiro, eles vão te dizer.
“Fiz várias pesquisas para compor o universo artístico de Ed, mas houve um momento em que eu deliberadamente parei de olhar e pesquisar. Não queria que ele fosse parte de qualquer grupo social”
Ed e Lucy ganharam vários fóruns criados por fãs, no EUA e na Austrália. O que, na sua opinião, é o forte desse casal?
Cath Crowley. É verdade. Acho que é porque eles estão se apaixonando num curto espaço de tempo, por isso é intenso e romântico. E eles estão se apaixonando por causa dessa paixão que eles têm pela arte. Ou talvez seja porque eles são corajosos e não estão aceitando o papel que a sociedade lhes deu. Lucy é pobre, vive nesta paisagem sombria, mas ela ama obras de arte. E ela luta para fazer arte. Ed faz o mesmo. Talvez estejamos todos à procura de uma faísca – e fazer um pouco mais do que apenas sobreviver neste mundo.
Podemos dizer que, de certa forma, o livro fala de como a arte de rua abre perspectivas para jovens, especialmente os que não têm muitas possibilidades de se expressar e encontram nessa forma de arte sua voz? É uma arte política, sempre?
Cath Crowley. É uma pergunta muito interessante. Acho que é uma arte política e social. Os jovens precisam de tempo para criar. Eles precisam de arte, estejam ou não pensando em uma carreira artística. Certa vez, alguém comentou comigo que nós precisamos das artes assim como precisamos de ar. Eu não poderia concordar mais. A arte nos ajuda a descobrir quem somos, nos dá compaixão, e eu não consigo pensar em nada mais de que precisemos no momento. Essa necessidade de ser ouvido para escapar da pobreza, lutar por algo mais do que você tem, é política e social. Você precisa de comida, abrigo e das coisas práticas. E você precisa de algum tipo de beleza em sua vida.
Uma curiosidade: você já grafitou?
Cath Crowley. Sou apenas uma escritora. Meu irmão é um artista brilhante, mas eu não tenho esse gene. Todos os meus irmãos são músicos, e eu não toco uma nota. Tenho inveja deles. Mas tenho sorte porque posso falar com eles sobre suas paixões e habilidades.
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