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Em ‘Freud, Me Tira Dessa’, autora mineira recorre ao pai da psicanálise para sobreviver às catástrofes amorosas

Por Andréia Silva

Freud sempre foi aquele tipo de quem se esperou obter respostas para toda e qualquer pergunta. Dúvidas, angústias, desespero, pergunte ao Freud e saia com a solução para os seus problemas.
 
No entanto, haveria algo que seria de impossível compreensão até para o pai da psicanálise: as mulheres.
 
O psicanalista confessou em vida que não conseguia entendê-las – coro no qual ele não está sozinho – e que “descrever o que quer uma mulher” era tarefa “irrealizável”.
 
E é com essa questão que a escritora mineira Laura Conrado brinca em seu terceiro livro, Freud, Me Tira Dessa.
 
Na obra, a protagonista Catarina passa por poucas e boas: tem que lidar com a novidade de morar sozinha, novo emprego, leva um pé na bunda, descobre que a atual do ex esta grávida, tem pequenas divergências com meninas do trabalho, abriga a amiga fugitiva que foge da mulher do namorado e, quando você pensa que a catástrofe já é grande, se apaixona pelo terapeuta, o querido Luiz.
 
É nesse contexto atrapalhado que, embora mergulhe em frias, Catarina passa por um processo de autoconhecimento e aceitação da própria história em experiências que muitos já vivenciaram.
 
A autora que o diga. Misturar os problemas cotidianos – mas que parecem perseguir, em especial, as mulheres – com a psicanálise começou na vida da autora, que também se apaixonou pelo terapeuta.
 
Em idas à biblioteca, Laura conta que buscava nos livros encontrar uma explicação para tudo aquilo. "Havia alguns estudos de Freud sobre a transferência – um fenômeno muito comum, onde o paciente desloca sentimentos infantis para o terapeuta. Estava tão angustiada que olhava para a foto do Freud nos livros e dizia 'Freud, seu danado, você inventou isso, agora você me tira'. Por isso o título do livro, era um apelo meu", diz.
 
A narrativa da obra é um pouco biográfica, envolvendo fatos ocorridos com Laura e com amigos, mas também tem um pouco de ficção. Porém, alguns dos trechos mais engraçados dessa trama aconteceram mesmo na vida da autora.
 
“Em dois meses, fiquei apaixonada pelo meu analista. Aí eu virei detetive, assim como a Catarina. Queria saber tudo dele para alimentar minha fantasia. E passei a me arrumar para ir às sessões”.
 
Para isso, Laura comprou uma cinta, “para despistar a barriguinha”, como ela diz. Tudo ia bem, até que o apetrecho estourou minutos antes de Laura entrar na sessão. “Foi um desespero”.
 
A diferença entre Laura e Catarina é que a segunda, a personagem, parece vencer no quesito “vida amorosa catastrófica”. Algo que parecia ter virado regra na rotina de Catarina era namorar rapazes que pouco depois decidiam voltar para as ex-namoradas.
 
Um dos pontos altos do livro é não disfarçar a sensação de raiva em algumas situações. Catarina não se faz de politicamente correta, e embora busque respostas, culpa é algo que não faz parte da sua rotina.
 
Certa vez, ela diz que foi à academia pensando que a cama elástica na qual ela pulava era a cabeça da colega de trabalho nem tão simpática, Carmem. Claro, tudo dito com muito humor e ironia. Afinal, quem já não fez uma comparação dessa uma vez – ou outra – na vida, que dê o primeiro salto.
 
“Rir de situações doloridas é o primeiro sinal de que a cura está acontecendo. Não pode ser um riso alienado, de fuga, claro. Tem que haver um momento de choro, de elaboração de dor, da perda. Rir de si mesmo mostra aceitação da própria história. Não podemos mudar algumas situações, mas podemos vê-las de maneiras diferentes”, diz Laura.
Essa não foi a primeira aventura da mineira pelo universo da escrita. Antes vieram duas publicações voltadas para o público infantil: Miguel e Pão dos Anjos e Lendo com Papai e Mamãe, um livro de histórias em forma de poemas.
Agora, ela planeja uma sequência para a história de Catarina e até um livro de crônicas sobre os dramas e confusões da mulher contemporânea.
"Dizem que Freud morreu sem saber o que, de fato, querem as mulheres. Somos realmente mais complexas do que os homens, e nossas aspirações mudam conforme a época. Para mim, isso é ótimo: terei assunto para diversos livros". Quando se trata do universo feminino, parece mesmo que nem Freud explica.
 
 
 
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