Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 20.11.2009 20.11.2009

Em filme sobre turismo sexual, Joel Zito Araújo retoma questão do negro

Um dos poucos realizadores brasileiros que se dedicam à questão do negro no país, o mineiro Joel Zito Araújo, 55, apresenta hoje à noite em Berlim, dentro da mostra Première Brasil, seu mais novo documentário: “”Cinderelas, lobos e um príncipe encantado””.

A mostra, que fica em cartaz até segunda-feira (22/11), terá ainda um concerto com o cantor e compositor Gilberto Gil.

Araújo é autor do livro “”A negação do Brasil“” (ed. Senac), fruto do documentário de mesmo nome que ele lançou em 2000. No filme, vencedor do festival É tudo verdade daquele ano, ele se debruça sobre a participação (subalterna) do negro na televisão brasileira, em especial nas telenovelas.

Anteriormente, o tema já havia sido abordado em seus curtas e médias-metragens, como “”São Paulo abraça Mandela”” (1991), “”Retrato em preto e branco”” (1993), “”Ondas brancas nas pupilas pretas”” (1995) e “”A exceção e a regra”” (1997).

Também na ficção Araújo se mostra um defensor do espaço para o negro. Em “”Filhas do vento“”, ele dirigiu um elenco dominado por atores negros, como Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Léa Garcia e Thaís Araújo, e saiu do Festival de Gramado de 2004 com nada menos que oito prêmios.

Justificando seu empenho na questão, Araújo declarou certa vez que seu trabalho “”tem de ter um compromisso com a auto-estima, com a valorização do componente racial negro no Brasil. Então, ‘A negação do Brasil’ fala dessa contradição de um país que é marcadamente multirracial, em que a cultura negra e a população negra tiveram e têm um papel importantíssimo no jeito de o país ser, na cultura do país, e no entanto, o país na televisão, não só na telenovela, mas também no cinema, está preso a uma estética que é uma estética do branqueamento””.

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Em “”Cinderelas…””, que estreou na última edição do Festival do Rio, Araújo enfoca o turismo sexual no Brasil, em especial no Nordeste e no Rio de Janeiro, onde ele vive.

Em entrevista no inicio desta semana ao jornal alemão “”Tageszeitung””, Araújo aponta como seu novo filme também aborda a problemática do negro no Brasil lembrando que os “”turistas sexuais”” não têm papas na língua ao assumir que procuram as “”mulheres de pele escura”” do país.

E, de forma um tanto surpreendente, o diretor conta que existe “”um número crescente de mulheres européias que vêm ao Brasil em busca de sexo com homens negros””.Araújo também fala na entrevista que o turismo sexual tem raízes no colonialismo, no fascínio dos europeus pelos corpos dos negros, e ainda no mito da permissividade das mulatas.

Diante da câmera do diretor, mulheres negras entrevistadas se dizem “”mais mulheres”” do que as brancas: “”No Brasil, as mulheres negras são consideradas feias e não têm uma posição social importante””, diz Araújo. “”O reconhecimento vem apenas de seu corpo””.

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