Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.02.2012 17.02.2012

Em estreia como diretora, Letícia Sabatella mostra tribo que usa riso como arma

Por Bruno Ghetti
Hotxuá
Crédito foto: Salete Hallack
 
Hotxuá é um registro do dia a dia dos membros da tribo indígena krahô, que acredita que a base da vida em harmonia está no equilíbrio de forças opostas e, principalmente, no bom humor.
 
Muito conhecida pelo seu trabalho como atriz, Letícia Sabatella mostra agora que é capaz de direcionar parte de sua sensibilidade artística para outra função: a de cineasta.
 
Autora de alguns curta-metragens amadores, Letícia se aventura pela primeira vez em um longa, o documentário Hotxuá, em cartaz no país.
 
 
 
 
O filme é co-dirigido pelo cenógrafo e artista plástico Gringo Cardia, conhecido por seu premiado trabalho em peças como Fica Comigo Esta Noite (montagem de 1990) e As Três Irmãs (espetáculo de 1998).
 
O documentário é um registro da rotina e dos rituais do grupo indígena krahô, que vive no estado do Tocantins.
 
A tribo tem um estilo de vida bastante peculiar e seus membros possuem uma característica muito própria: são extremamente sorridentes, alegres, que acreditam que o humor é a base para a felicidade e vida em harmonia.
 
Não é à toa que os grandes líderes krahôs são uma espécie de palhaço sagrado (os chamados hotxuás), cuja função é ao mesmo tempo divertir toda a tribo e usar a sua sabedoria (e seu humor) para resolver questões sérias, como brigas e desentendimentos entre membros da tribo.
 
Os krahôs também têm uma visão de vida em sociedade muito particular, defendendo valores democráticos, pregando a ecologia e acreditando que a base da organização em grupo está no equilíbrio de forças opostas.
 
O primeiro contato de Letícia com a tribo foi na década de 1990, quando visitou os krahô pela primeira vez como parte de um laboratório para um de seus trabalhos como atriz.
 
Ela jamais perdeu contato com lideranças da tribo, e anos depois, foram os próprios indígenas que a convidaram para registrar sua rotina e torná-la mais conhecida em todo o país.
 
Letícia convidou o amigo Gringo Cardia para ajudá-la na empreitada. A dupla passou vários dias em meio à comunidade, principalmente durante a Festa da Batata, principal evento krahô, que marca a passagem da temporada de chuvas para o período de seca.
 
Durante o convívio, eles puderam não apenas registrar a rotina da aldeia como também compreender melhor como é a vida de um krahô e a relação da aldeia com o hotxuá.
 
Embora o registro tenha mais propriamente um caráter poético do que de estudo antropológico, é uma oportunidade de compreender melhor essa tribo tão especial e tão pouco conhecida.
 
Letícia Sabatella falou com exclusividade ao SaraivaConteúdo sobre o filme.
 
É sua estreia como diretora. Já tinha vontade de dirigir há muito tempo?
Letícia Sabatella. Fui escolhida por este filme, embarquei nessa viagem por amor e pelo tema ser também formador para o meu trabalho de atriz. Já havia dirigido uns curtas com o Angelo [Antonio, ex-marido da atriz] e gostei da experiência, que foi extremamente criativa.

Por que a opção por falar dos índios krahô?

Letícia Sabatella. Eu já os conhecia desde 1996, quando estive a primeira vez na aldeia. Tinha estabelecido um forte vínculo de amizade e responsabilidade. Quando eles me procuraram para participar dessa recuperação da aldeia e das sementes antigas, eu me dispus a produzir o documentário.

Você conviveu com os krahô por alguns dias. Como foi? Que lições tirou desse período?

  
Letícia Sabatella. Concluí que eles são fundamentais para a saúde do nosso planeta. Que sua filosofia de equilíbrio com a natureza, seu conhecimento do cerrado, sua cultura são extremamente sofisticadas e tem contribuído para a preservação de grande parte do nosso patrimônio. Que a importância que dão ao hotxuá na aldeia é exemplar para que todos os atores compreendam sua função na sociedade também. Que podemos e devemos pensar nosso futuro sem abrir mão da riqueza cultural e da sabedoria desses povos que se originaram em nosso país.

A direção do filme é assinada por você e Gringo Cardia. Como vocês se organizaram?

Letícia Sabatella. Eu chamei o Gringo quando já estávamos com tudo alavancado para filmarmos na aldeia, menos de 15 dias antes de embarcar, e ele topou na hora. Eu já tinha as idéias: seguir o roteiro da Festa da Batata, captando ações cotidianas da preparação da festa, os rituais… Queria levar uma grua e já havia conseguido apoio para os planos aéreos. Gringo me deu todo o apoio, me ajudou com a equipe, sempre concordamos. Na edição, eu participava o tempo todo, diariamente, e a cada 15 dias me reunia com o Gringo para mostrar o que tinha sido feito. Eu sabia que ele podia contribuir com seu lado de artista visual, de diretor de arte. Eu tinha o conteúdo e idéias de situações e cenas. Éramos essa dupla complementar, que os krahô ensinam no filme. Yin-Yang, Wakmeyê-Katamiê. Eu tive ainda de voltar mais uma vez à aldeia para mais 15 dias de filmagem, em uma nova Festa da Batata, e fui sem ele, mas sempre bem acompanhada da fotografia excelente do Sylvestre Campe.

Para dirigir o filme, vocês se inspiraram em alguma obra ou diretor em específico?

Letícia Sabatella. Eu assisti a alguns documentários, sim, e a certa altura, já na edição, quando decidi que não iria usar as entrevistas de fora, ouvi do Gringo a mesma conclusão. Tivemos o documentário Camelos Também Choram [de 2003, dirigido por Byambasuren Davaa e Luigi Falorni] como principal referência.
 
Você pretende se dedicar à direção de agora em diante?
Letícia Sabatella. Pretendo mesmo é ser atriz por muito mais tempo. Mas quem sabe? Se me apaixonar novamente por outro projeto…
 
Confira o trailer de Hotxuá:
 

 
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