Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 01.09.2011 01.09.2011

Em Cão, terceiro volume da saga de Boudica, guerreira luta contra a escravidão de seu povo e conflitos internos

Por Carolina Cunha
Na foto ao lado a capa do livro Boudica
Ela era alta, forte e exibia longos cabelos ruivos. Descrita pelo historiador romano Tácito como “selvagem e feroz”, Boudica é considerada uma heroína nacional na Inglaterra por ter liderado uma revolta do povo celta contra o Império Romano no primeiro século. No entanto, no Brasil, poucos conhecem a história desta guerreira, que ganha a sua série de livros no país.
Há quase dois mil anos, Roma expandia seus domínios e aumentava o controle sobre a Grã-Bretanha. Enquanto isso, diversos clãs celtas conviviam nesse território. Mas o avanço dos romanos não foi pacífico. Obrigadas a pagar impostos, a negar sua cultura e ameaçados de escravidão, muitas tribos fizeram levantes sangrentos que foram abafados pela potência militar romana.
O mais famoso desses levantes foi liderado por Boudica, a rainha dos icenos, cujo nome significa Portadora da Vitória. Ela reuniu guerreiros e chegou a destruir duas cidades, as atuais Colchester e Londres.
E para contar o outro lado desse episódio – o das tribos -, a autora Manda Scott, 48, dedicou uma série inteira a Boudica. São quatro romances (Águia, Touro e Cão são os três já lançados no Brasil pela Editora Bertrand) baseados em fatos reais, com a riqueza de detalhes típica de uma boa contadora de histórias.
A saga narra a trajetória da heroína desde a infância, quando ela ainda era chamada de Breaca, até se tornar “a Portadora da Vitória” na idade adulta.
Em seu blog, Scott diz que procurou refletir a potência do povo britânico nos livros. “Em todos os sentidos, a escrita de Boudica foi um ato de sonhar e tomei o maior cuidado possível para garantir que o sonho descrito possa ser espelhado no século 21. Nós já não temos uma cultura que valoriza a arte acima do egoísmo e coragem acima do dinheiro. Não temos ritos de passagem, nem reconhecemos a nossa própria linhagem heróica – mas não há nenhuma razão pela qual não devemos recriá-los se assim desejarmos. Boudica é uma história de quem fomos, mas também é que nós poderíamos ser novamente”, diz ela.
Em Cão, o mais recente lançamento da série, o ano é 57.A.C, e Roma controla o leste da Bretanha enquanto o lado oeste ainda está sob domínio das tribos. Após o exílio do seu companheiro Caradoc, Boudica vaga sozinha pelos arredores da Ilha de Mona, um lugar sagrado que abrigava um dos mais importantes santuários druidas.
A Bretanha mítica recriada por Scott é um local de caçadores, guerreiros e artesãos, homens e mulheres que vivem livres e conectados à natureza e a espíritos ancestrais. Um mundo ameaçado pela tensão e violência crescente.
Motivada pela visão de uma vidente, Boudica é incitada a liderar as tribos do oeste na resistência contra a ocupação romana. No outro do oceano, na Hibérnia, o irmão de Boudica, Valerius, considerado traidor pelos dois lados, tenta levar uma vida pacata como ferreiro.
Atormentado pelos fantasmas de seu passado, Valerius entra numa jornada para se reaproximar dos seus ancestrais e deuses que ele não serve mais. Apenas se os dois se encontrarem, o seu povo poderá ser salvo.
Para atender a interesses políticos no oeste, Boudica casa-se com Prasutagos, o rei dos icenos. Após a morte do rei, o governo quebra o acordo, invade o reino, e ao tentar resistir, ela e sua família são brutalmente punidas.
Ao contrário dos livros anteriores da série, Cão não traz muitas cenas de ação e de batalhas. Nele, Scott costura uma teia de cenas repletas de urgência e espiritualidade. E para que decisões importantes possam ser tomadas, Boudica precisa seguir os instintos e confrontá-los em verdadeiras batalhas internas: uma líder que precisa acreditar em si mesma, uma guerreira que redescobre como ser mãe, uma mulher solitária que pode mudar um destino de um povo.
Veterinária, antes de escrever essa série, Scott já era uma respeitada escritora de romances policiais. Hoje, dedica-se a escrever thrillers históricos, um gênero cada vez mais popular na Inglaterra. 
Em Boudica, a escritora mergulhou na pesquisa histórica e utilizou um método criativo que ela chama de “sonhar”, baseado no xamanismo ocidental, que pratica desde os anos 80. Talvez por isso, ela consiga criar uma atmosfera de evocação de imagens e emoções ritualísticas que fazem um interessante contraponto com os flagelos e a violência daquela época.  
 
Curiosidade
Para quem é fã de personagens femininas guerreiras, deve ter percebido que a Boudica já deu as caras na extinta série Xena, em um episódio de 1997, intitulado The Deliverer. A atriz Jennifer Ward-Lealand interpretou a rainha. A heroína também já foi tema de séries para a TV e filmes, além de outras obras literárias inglesas dedicadas à sua história. Outra aparição foi no livro Os Corvos de Avalon, que faz parte da famosa série literária Avalon, de Marion Zimmer Bradley.
 
 
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