Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.10.2012 29.10.2012

Em busca de um novo começo

Por André Bernardo
 
A escritora irlandesa Lucinda Riley não consegue disfarçar o encabulamento ao ser indagada sobre como surgiu a inspiração para escrever A Casa das Orquídeas, seu primeiro livro publicado no Brasil. “Essa história não é lá muito romântica…”, despista ela, bem-humorada.
Há três anos, Lucinda estava curtindo férias na Tailândia com o marido quando, lá pelas tantas, os dois tiveram uma discussão acalorada no quarto do hotel. A certa altura, ela deu a discussão por encerrada, saiu para a varanda e bateu a porta atrás de si. Quando se deu conta, estava presa do lado de fora do quarto, numa varanda de proporções mínimas. “Felizmente, havia um guia ilustrado sobre a Tailândia numa mesinha. Estava tão irritada que eu comecei a folhear o livro para me distrair. Foi quando me deparei com um capítulo inteirinho sobre orquídeas. Foi ali que tive a ideia do meu próximo livro”, recorda.
Na mesmíssima hora, Lucinda deu de ombros para a discussão, bateu na porta do quarto e fez as pazes com o marido. Na volta para casa, ainda no avião, começou a rascunhar o romance que veio inaugurar uma nova fase em sua carreira.
Antes de lançar A Casa das Orquídeas, que já vendeu 1,5 milhão de exemplares em todo o mundo, Lucinda Riley já havia escrito sete outros livros: todos com o nome de Lucinda Edmonds. “Até pensei em usar o nome antigo nos livros novos, mas senti que, depois da separação, eu precisava recomeçar, sabe? Quando meu novo livro chegou às livrarias, eu me senti uma completa desconhecida. Ninguém sabia que Lucinda Edmonds e Lucinda Riley eram a mesma pessoa. Por esse motivo, a ideia de recomeçar a carreira do zero como Lucinda Riley era realmente assustadora…”, admite ela.
Passado o susto inicial, Lucinda Riley está disposta a retomar a carreira de escritora. Por aqui, acaba de ser lançado, pela Editora Novo Conceito, seu novo romance, A Luz Através da Janela. E no primeiro semestre de 2013, será publicado The Girl On The Cliff. Se depender de Lucinda, ela pretende lançá-lo no Brasil.
Recentemente, a escritora participou de uma tarde de autógrafos na Bienal Internacional do Livro em São Paulo. E garante: foi uma das experiências mais incríveis de sua vida. “O que eu vivi lá foi extraordinário. Quando cheguei para autografar os livros, encontrei duas mil pessoas à minha espera. Quando pus os pés no estande, começaram a gritar meu nome. Alguns fãs trouxeram cartas. Outros, presentes. Sei que alguns escritores não gostam de tardes de autógrafos. Mas eu adoro. Sempre saio de lá com alguma ideia bacana”, confidencia.

Muitos escritores afirmam que não existe a fórmula do sucesso. Se existisse, eles só escreveriam sucessos. Em sua opinião, qual é o segredo do sucesso?

Lucinda. Quando escrevo, escrevo para mim. Se tenho vontade de escrever algo, vou lá e coloco aquilo no papel. Quando escrevi este livro, ainda não tinha fechado com nenhuma editora. Ou seja: não havia ninguém interessado em publicá-lo. Escrevi porque quis, porque tive vontade. Quando terminei de escrevê-lo, mostrei-o para o meu agente. Ele gostou, mas disse que o mercado editorial em Londres estava ruim, que não seria fácil publicá-lo, essas coisas. Isso aconteceu há três anos. Quando comecei a escrevê-lo, não sabia se conseguiria publicá-lo. Se não conseguisse, talvez estudasse Psicologia. Felizmente, três dias depois de o meu agente enviar o livro para as editoras, muitas demonstraram interesse. Isso foi ótimo! Não deu muito dinheiro, mas, honestamente, não escrevi pelo dinheiro. O mais bacana é que, em pouco tempo, vários países começaram a se interessar pelo livro. Hoje, ele já está à venda em mais de 26 países. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Talvez seja porque a história é universal. Fala de amor, esperança, perdão. Gosto de escrever sobre o fato de que todos nós, de vez em quando, enfrentamos momentos ruins na vida. Mas que, mesmo assim, temos que seguir em frente. Acredito nisso: não só como escritora, mas também como pessoa. Temos sempre que perdoar, procurar esquecer e seguir adiante. O livro fala da necessidade de esquecermos o que passou e olharmos sempre para frente.
 
Durante a infância, você viajou muito, especialmente para o Extremo Oriente, para visitar seu pai, Donald. Qual é a lembrança mais forte que você guarda dessas viagens?
Lucinda. Por conta de seu trabalho, meu pai viajava bastante. Nem sempre eu e minha irmã podíamos acompanhá-lo. Lembro que, quando eu tinha 12 anos, ele foi para o Leste Europeu. Nessa época, estávamos na escola e só podíamos visitá-lo nas férias. Um de seus lugares favoritos era a Tailândia. Por isso, quando ele morreu, há seis anos, resolvi comprar um terreno na praia e construir uma casa lá. Da mesma forma que visitei a Tailândia quando criança, quis que meus quatro filhos fizessem o mesmo. Gosto muito da Tailândia. Quando vou lá, me esqueço de tudo. Vejo o sol nascer, a maré subir e nada mais. Volto renovada. Num lugar desses, todo o resto perde a importância. Na cidade grande, você não tem tempo para nada. De vez em quando, sinto necessidade de fugir para lá. Além de ser um lugar maravilhoso para se viver, é também muito inspirador para escrever. Por mais que tentasse, não sei se conseguiria escrever um livro em meio à agitação de uma cidade grande. Escrevo melhor na praia do que na cidade.
 
Antes de escrever, você foi atriz. Como descobriu a vocação de escritora?
Lucinda. Parei de atuar quando tinha 23 anos. Fiquei muito doente na ocasião. Na falta do que fazer, comecei a escrever. Depois, tive meus filhos e, para uma atriz, é difícil conciliar a vida pessoal com a agenda profissional. Quando se é atriz, você nunca sabe ao certo onde estará na semana que vem. Por conta dos compromissos profissionais, está sempre viajando. Um dia, aqui. Outro, lá. Você nunca sabe ao certo onde vai estar amanhã. Felizmente, encontrei o que eu realmente gosto de fazer e não sinto falta nenhuma de atuar. Além disso, quando se é atriz, você está sempre dependendo dos outros: roteiristas, cineastas, produtores. Quando se é escritora, você só depende de si e de sua imaginação. Hoje em dia, posso organizar melhor meu dia de trabalho. Quando escrevo livros, eu me sinto um pouco Deus. E pode apostar: isso é uma experiência incrível.
 
Você escreveu sete romances como Lucinda Edmonds. Por que mudou de nome? Hoje em dia, você nota diferença no estilo de uma e de outra?
Lucinda. Ah, sim, noto. Afinal, são 15 anos que separam a Lucinda Edmonds da Riley… (risos) Só mudei de nome porque me casei de novo. Até pensei em usar o nome antigo nos livros novos, mas senti que, depois da separação, eu precisava recomeçar, sabe? Quando meu novo livro foi para as livrarias, eu me senti uma completa desconhecida. Ninguém sabia que Lucinda Edmonds e Lucinda Riley eram a mesma pessoa. Ninguém conhecia a minha história. Por esse ponto de vista, a ideia de recomeçar a carreira como Lucinda Riley era realmente assustadora…
 
Capa dos livros da escritora
 
É verdade que você teve inspiração para escrever A Casa das Orquídeas na Tailândia? De que maneira? Você pode falar um pouco sobre isso?
Lucinda. Sim, posso. Mas, na verdade, essa história não é lá muito romântica… (risos) Bem, eu tive uma discussão séria com meu marido. Sabe quando você não tem mais argumentos e, de repente, sai de um aposento, batendo a porta? Foi exatamente isso o que eu fiz. Saí do quarto e fui para a varanda do hotel onde estávamos hospedados. Quando percebi, estava presa naquela varandinha, às cinco da manhã. O que eu podia fazer? Olhei para os lados e vi um guia ilustrado sobre a Tailândia numa mesinha. Estava tão irritada que eu comecei a folhear o livro para me distrair. A certa altura, cheguei a um capítulo que falava sobre orquídeas. Gosto de orquídeas porque são as únicas plantas que eu consigo regar sem matar… (risos) Então, comecei a ler a história das orquídeas, acredita? Como elas vieram do Extremo Oriente, viajaram pelo mundo inteiro e, hoje em dia, nascem em qualquer lugar. Na mesma hora, pensei: “É isso! Esse será o tema do meu próximo livro!”. Na mesma hora, bati na porta do quarto, fiz as pazes com o meu marido e começamos a conversar sobre orquídeas… (risos) Foi assim que veio a inspiração… Quando voltamos para casa, aproveitei a viagem de avião para escrever os primeiros capítulos. Gosto de escrever quando estou no avião porque não há risco de o telefone tocar…
 
Lá fora, você já lançou sua próxima obra, The Girl On the Cliff? O que pode falar sobre ele?
Lucinda. Esse livro já foi lançado em três países: Alemanha, Noruega e Reino Unido. É um livro muito especial para mim. Talvez seja até o meu favorito, não sei. É sobre uma criança que vive em West Cork, na Irlanda. Um dia, essa criança encontra uma mulher que tinha acabado de perder seu filho. Logo, descobrimos que existe uma ligação muito forte e muito antiga entre essa mulher e aquela criança. De certa forma, é um livro muito espiritual. Outro dado curioso é que, nesse livro, existe uma personagem bastante autobiográfica. Nunca coloquei tanto de mim em uma personagem. O que penso, como vejo o mundo, entre outras coisas, está tudo ali. Curiosamente, pelo que andei lendo, The Girl On the Cliff já chegou ao topo da lista dos mais vendidos na Alemanha. Sinceramente, não esperava por isso. Até o final do ano, ele chegará ao Brasil. Espero que gostem!
 
Este ano, você participou da Bienal Internacional do Livro em São Paulo? O que achou da experiência? Feiras literárias ajudam a aproximar os escritores de seu público?
Lucinda. A Bienal Internacional do Livro entrou para a minha vida como uma das experiências mais incríveis que já tive. Estou acostumada a participar de feiras literárias em todo o mundo, mas, quando cheguei lá e encontrei cerca de duas mil pessoas à minha espera, gritando meu nome, tomei um susto. Assim que entrei no estande, todos me aplaudiram. Foi muito emocionante! O público brasileiro foi muito carinhoso! Alguns fãs trouxeram cartas. Outros, presentes. Procurei responder a todos pelo Facebook, mas não consegui. Sempre que lanço um livro, tenho a impressão de que só a minha família é que vai querer lê-lo, sabe? E fiquei espantada ao constatar que meu livro foi muito bem recebido por aqui. Não sei explicar ao certo o porquê de ele ter tocado o coração dos leitores brasileiros. É uma conexão inexplicável. Sei que alguns escritores não gostam de participar de tarde de autógrafos. Mas eu adoro! Sempre saio de lá com alguma ideia bacana.
 
 
 
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