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Em autobiografia em quadrinhos, Adão Iturrusgarai escancara seus momentos mais ridículos

Por Andréia Silva
 
Pense em uma pessoa com quem aconteceu o inimaginável. Quer um exemplo? Imagine que você está na estrada com alguns amigos e, de repente, bate aquela vontade de ir ao banheiro. Mas, claro, não há toalete, pois você está no meio do nada. O jeito é improvisar. Só que o vento no local é muito forte. O resultado: temos o protagonista do primeiro “auto golden shower” da história.
Esse é um dos momentos que o cartunista Adão Iturrusgarai, criador da personagem Aline, divide com os leitores em sua HQ autobiográfica Momentos Brilhantes da Minha Vida Ridícula.
“Foi durante uma viagem cruzando a Patagônia com meus amigos Cláudio Paiva e Silvia. Venta muito por lá”, explica ele sobre o episódio na abertura do livro. Na vida de Adão, o que não faltam são histórias inacreditáveis.
 
Em outra tira, relembra um fato ocorrido quando ainda era criança. Ele adorava jogar fliperama, mas, certo dia, seu dinheiro acabou. Adão se sentou na calçada quando, de repente, uma moto passou pela rua com uma caixa amarrada. A caixa se abriu e dela saíram dezenas de notas de dinheiro. Tudo ali, em frente ao garoto. O autor garante que não usou nenhum artifício para “turbinar” suas histórias e que essas peripécias realmente aconteceram com ele.
 
Tirinha da série "Minha Vida Ridícula"
Na HQ, o cartunista gaúcho mostra momentos entre amigos, outros em família, os mais pessoais — da idade adolescente às descobertas de ser pai — e os sinceros depoimentos “queima-filme” de pessoas próximas. Dos cartunistas com quem trabalhou, Angeli é, sem dúvida, a principal referência de Adão, o que fica claro pela quantidade de vezes que o amigo é citado nas tiras.
 
Referências a Angeli nas tirinhas de Adão
 
“O Angeli é uma espécie de Deus para mim (risos). Babei quando vi seus quadrinhos pela primeira vez. Isso foi em 80 e alguma coisa, numa banca de revista. Comprei um livro de tiras da Rê Bordosa e isso mudou a minha vida para sempre”, diz Adão em entrevista ao SaraivaConteúdo. 
 
Ao lado de Laerte e Glauco, Angeli forma o trio Los 3 Amigos, ao qual Adão foi incorporado como quarto elemento. Nas tiras, Adão brinca bastante com a admiração que tem por essa trina sagrada dos quadrinhos brasileiros.
"Fiz história, ‘putz’. Agora estou me sentindo um ancião (risos). Acho muito saudável a gente tirar sarro da gente. Nossa turma dos quadrinhos, do humor, faz isso muito bem. Não gosto de gente que se leva muito a sério e fica escondendo o jogo”, diz.
Boa parte das furadas e experiências inesquecíveis de Adão que foram retratadas nas tiras foi compartilhada entre os amigos da adolescência. Já sobre os acontecimentos ridículos vividos por todos, ele diz que invejou apenas um: “Eu odiava o fato de eles não terem espinhas”, brinca.
 
Outros companheiros de longa data aparecem em uma parte da HQ dedicada exclusivamente aos depoimentos dos “camaradas”. Além de Laerte, Fido Nesti, Eloar Guazzelli, Allan Sieber, Caco Galhardo, o animador Otto Guerra, Estevan Santos, Arnaldo Branco, Benett, Zed Nesti, André Dahmer, Gustavo Sala e Rafael Coutinho desenham seus (des)encontros com Adão.
Mas a colaboração mais interessante do livro é a parceria com a mulher, a argentina Laura, na sessão “Roupa Suja”, criada no melhor estilo “Crumb” (referência ao cartunista Robert Crumb, que em parceria com a mulher, Aline Kominsky, produziu quadrinhos autobiográficos publicados na revista New Yorker).
 
Tirinha da série "Roupa Suja"
 
A dupla desenha a rotina de um casal com filhos pequenos, que tenta trabalhar, cuidar de casa e das crianças. Tudo ao mesmo tempo. Em uma tira da série, o casal fica em casa sozinho e, olhando para a cama, Laura diz: “Adão, agora podemos fazer o que a gente mais gosta”. No quadrinho seguinte, os dois aparecem deitados, lendo livros.
Questionado sobre qual tira melhor representa a sua vida hoje, Adão diz rindo que “a menos engraçada” e sugere a peça abaixo para ilustrar:
 
 
Depois de morar em Porto Alegre, Paris, São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Patagônia, ele atualmente reside na província de Córdoba, Argentina. Vivendo no país hermano desde 2007, Adão conta que a mudança teve reflexo em seu trabalho. “Acho que ocorreram muitas mudanças no meu trabalho desde que vim morar aqui. Coisas que não percebo e outras que reparo, como começar a pintar com aquarela”.
 
Entre seus cartunistas argentinos preferidos, Adão cita Gustavo Sala, Liniers, Crist, Carlos Nine e Lucas Nine. Engordando o time latino, ele também cita o chileno Alberto Montt, de quem Adão assina o prefácio de seu mais recente livro.
 
Além de colaborar com jornais brasileiros, Adão também desenha para publicações argentinas. E qual é o comportamento dos argentinos frente ao humor escancarado de suas tiras? “O humor dos argentinos é diferente. Eles têm uma cultura mais europeia, são mais fechados. O brasileiro é mais aberto – não estou falando dos gaúchos, esses não são brasileiros (risos)”. 
 
 
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