Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 22.06.2012 22.06.2012

Em ‘A Febre do Rato’, Claudio Assis volta a falar do submundo de Recife, desta vez com mais poesia

Por Andréia Silva
“Ele é um homem fiel, né?”. A frase seguida de uma gargalhada libertadora é de Matheus Nachtergaele ao falar de sua terceira parceria no cinema com o diretor Claudio Assis, o filme A Febre do Rato, que estreia nesta sexta-feira (22) em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
O ator é o único a acompanhar o diretor em todos os seus três longas-metragens – Amarelo Manga (2002), sobre figuras do submundo pernambucano, Baixio das Bestas (2006), sobre as violências dos agroboys, e agora A Febre do Rato. Uma das coisas que Matheus já percebeu é que, da escola ‘Assis’, nenhum ator sai o mesmo.
“Os filmes do Claudio têm sempre um conceito muito bonito, uma certa raiva necessária, e nos relembram de certa forma qual a função real da arte. A gente volta para o encontro com o Claudio e pensa muito no que nós fazemos, como e por que fazemos”, conta.
No filme – produzido em preto e branco, rodado em 2010 e grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado –, o diretor levanta questões como a liberdade sexual, a do amor e a de expressão, que, como prega o protagonista, o poeta Zizo (Irandhir Santos), são liberdades encarceradas hoje em dia. É contra isso que a febre do rato, expressão popular típica do nordeste e que significa "aquele que está fora de controle", atiça o poeta.
Na trama, Febre do Rato é também o nome dado ao jornal que Zizo publica de forma independente. Seu universo é abalado quando Eneida (Nanda Costa), uma mulher “com nome de guerra”, nas palavras do poeta, cruza seu caminho, desafiando todas as suas certezas. Juntam-se ao poeta um grupo de amigos que vive uma relação aberta: as mulheres mais velhas da vizinhança – com quem Zizo se relaciona – e o casal Pazinho, coveiro da cidade (vivido por Nachtergaele), e Vanessa, um travesti (interpretada por Tânia Granussi), tidos como modelo pelos conhecidos do bairro.
 
Assista o trailer de A Febre do Rato:
 
As cenas são também transformadas em poesia graças à opção pelo preto e branco. “O preto e branco ajuda você a se distrair, a amar, a abstrair”, diz Assis, que guarda outra resposta inspiradora para explicar a escolha de um poeta como personagem principal. “O poeta pode tudo. O poeta pode desejar a mulher mais bonita que não existe. Na poesia você pode querer, você pode tudo”.
 
Os versos declamados por Zizo no filme são todos de Hilton Lacerda, roteirista de A Febre do Rato. O texto é outro pilar forte da obra, onde cada palavra parece calculada.
“Quando li o texto, eu disse ‘Caramba, como é que eu vou me aproximar dessas palavras e fazer com que elas sejam minhas?’. Tentei vários processos e nada funcionava. Então, fui até o Hilton e pedi que ele me contasse sobre o que eram aqueles versos, para quem e quando foram feitos. E ele foi de uma generosidade tamanha”, relembra Irandhir Santos, o protagonista.
Além de questionar as liberdades individuais, a obra explora a nudez, mas sem excessos, e aborda de forma sutil os conflitos do casamento entre um homem, ainda revestido do pouco que lhe resta do machismo, e um travesti.
“O que diferencia essa história é a forma como Claudio optou por contá-la, sem ser da forma caricata como esse universo é retratado na maioria das vezes”, diz Tânia ao comentar sua personagem. Uma das poucas do elenco a não ter raízes em Recife, ela conta que, para viver Vanessa, precisou conhecer o submundo pernambucano.
Esse gosto pelo submundo é recorrente na obra de Assis, natural de Caruaru, em Pernambuco. Foi assim em Amarelo… e Baixio…, tendo a cidade – com seu lado moderno e urbano – usada apenas como pano de fundo. “A cidade também é epiderme. Por isso, no meu cinema, sempre tem a cidade, pois nós somos iguais na diferença, independente do CEP”.
Irandhi, natural do agreste pernambucano, diz que a opção do diretor faz sentido. “Lá [em Recife], essas pessoas, esses núcleos [à margem] são o pano de fundo. Isso é latente. O que o Claudio faz é reverter isso, trazer essas pessoas para o primeiro plano”, diz o ator, que já havia trabalhado com o diretor em Baixio das Bestas.
O elenco conta que, devido à preparação, entrar nesse clima libertário proposto pelo filme foi fácil. No entanto, uma cena causou alvoroço no centro de Recife.
“Há uma cena em que o poeta lê um poema para Eneida [personagem de Nanda Costa] e pede que todos se dispam. As pessoas entraram no clima, mas foi o [fato de o] nu aparecer que chocou. Chamaram a polícia, até que lembraram que tínhamos uma autorização para filmar. Então, é estranho. A gente consegue essa liberdade no filme, mas o mundo onde essa ficção acontece parece não querer essa liberdade nem na ficção”, conta Irandhir.
Por estar nas três produções que lançaram Assis ao público, Nachtergaele acompanhou o processo de produção e de criação de todas as realizações e diz não entender o porquê de tantas polêmicas envolvendo as obras do diretor. “Os temas do Claudio não são novos. Eles são temas que já foram ditos. No cinema do Claudio, repetimos temas à exaustão, as coisas são ditas e reditas, e não são resolvidas. Quando as pessoas dizem que ficam chocadas, eu não entendo. Chocada com o quê?“, questiona ele.
“O Claudio já semeou essa efervescência, essa latência e impulsividade nos trabalhos que ele faz. E, não por acaso, isso já está atrelado à obra dele. E é isso mesmo”, brinca Irandhir. “Trabalhar com ele é dar espaço a isso. A sensação é de que eu saio expandido”. Para o público que assiste às realizações desse pernambucano arretado, a sensação não é muito diferente.
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