Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.05.2014 14.05.2014

Elisa Lucinda passeia entre o real e a ficção

Por Maria Fernanda Moraes
 
Quando começou a escrever Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada (Editora Record), Elisa Lucinda comentou com o amigo e também escritor Mia Couto sobre seu projeto. Duas mensagens depois e o moçambicano ainda não tinha dado sinal de vida. A saída foi, então, enviar o livro para o amigo ler. A resposta veio em forma de um prefácio com o seguintes recado: “escrevi isso depois que li o seu livro, amiga. Use-o como quiser”.
 
A escritora recorda a história com graça e lisonja. “Foi um presente de ouro”. Já Mia, no próprio prefácio, conta os estágios passados com a situação. “Quando ela me anunciou esse propósito [de escrever o livro] pensei: Elisa enlouqueceu. Veio-me a ideia de que a devia demover. Como podia ela viajar para a vida de quem não teve vida senão na palavra poética?”. Mas Elisa optou por outro caminho, continua ele. “Ela não traduziu o poeta, ela traduziu-se nele”.
 
É assim, pelas mãos de Elisa, que os leitores são convidados a conhecer mais sobre a vida do poeta que se escondia por entre as palavras. Ela assume a voz de Pessoa para contar essa história. Mas não se trata propriamente de uma biografia. Ao se imaginar na pele dele, a escritora preenche as lacunas de biografias já existentes – com todos os melindres que a ficção permite.
 
A voz do narrador em primeira pessoa é intercalada com trechos de cartas, diários e poemas que a escritora cita e assimila em sua prosa, propondo uma deliciosa brincadeira entre a ficção, a realidade e a forma peculiar de contar histórias.
 
Acompanhe a conversa com a escritora:
 
Como foi lidar com esse limite tênue entre ficção e não-ficção?
 
Elisa Lucinda. Eu achei muito bom caminhar entre a ficção e a realidade porque até quando você conta sua história para alguém às vezes você mente, deliberadamente. Todo mundo faz uma certa ficção da própria história. E tem também as várias versões de uma mesma história. Mas eu respeitei muito a história dele. Nada do que eu criei mexeu no tronco, sabe?
 
Por que a escolha de uma biografia narrativa? Você já tinha interesse pela vida do poeta?
 
Elisa Lucinda. Eu conheci o Pessoa desde muito pequena, quando fazia aula de declamação aos 12 anos. Na verdade, era pra ser uma coisa específica para escola, de iniciação dos mestres da literatura e acabou se transformando. Acho que a gente precisa mesmo conhecer a biografia dele porque somos muito confusos em relação a Fernando Pessoa. Quem conhece o Álvaro de Campos [um dos heterônimos] não conhece ele, assim como quem conhece Ricardo Reis também não, é apenas uma parte. O livro tem isso: dá uma ordem ao caos que a gente sabe sobre o poeta.
 
Acho a vida dele apaixonante, uma vida doida. Ele ficava muito ensimesmado, mas ao mesmo tempo era muito produtivo na solidão. Ele não casou porque dizia que tinha que cuidar da obra dele. Não tinha emprego fixo porque não podia ter horário fixo, o que iria roubar o tempo da obra. Mas o que eu achei bacanérrimo foi achar a vida dele dentro da obra poética e da prosa. Muito da vida dele está contada na poesia. É assim que acontece… nós sabemos muito da vida do Caetano por causa das letras dele. A poesia é confessional. Então esse diário está armado, espalhado por toda a obra.
 
O narrador personagem tem alguma identificação que tende mais para algum dos heterônimos de Pessoa?
 
Elisa Lucinda. O fato de ter escrito em primeira pessoa foi muito confortável para mim. O livro tem várias citações que aparecem em itálico e são do Pessoa. E, no geral, tem muito do Álvaro. Eu acho que o Álvaro é o que mais representa o Fernando Pessoa, no sentindo do que ele gostaria de ser. Ele é o mais revolucionário, o mais inquieto, então usei muito o espírito dele pra fazer o livro. Algumas das falas ficcionais incluídas foram feitas pensando que o Álvaro diria aquele tipo de coisa.
 
E você acha que seu narrador poderia ser visto como um quarto heterônimo?
 
Elisa Lucinda. [risos] Não é minha intenção de maneira nenhuma, mas assim, foi incrível fazer isso. Eu fiquei lembrando como memória minha, eu viajei. Talvez não fosse um heterônimo, mas é como se eu estivesse vivendo um personagem para o teatro. Eu acessava aquele cara como se eu estivesse acessando um personagem.
 
O quanto do feminino está presente nessa narrativa? Você teve essa preocupação? Houve um distanciamento?
 
Elisa Lucinda. O feminino deve aparecer inevitavelmente, mas eu tentei ser muito coerente com aquele cara que não se alimentava bem, que bebia muito, que fumava muito… ele tem um certo torpor, mas é um homem com muitas particularidades. Ele mesmo fala que ‘tem uma cabeça feminina, que tem muito medo que desça ao corpo’. Então, acho que eu estava em casa [risos].
 
Capa do livro e a autora, Elisa Lucinda
Gostaria que você falasse um pouco sobre esse título: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada.
 
Elisa Lucinda. O Cavaleiro de Nada é também um heterônimo, é o primeiro amigo invisível dele. É ele quem assina o primeiro verso da vida de Pessoa, aos seis anos de idade. Eu achei que esse deveria ser o título porque, em vida, ele se considerava o cavaleiro de nada, não teve nenhum reconhecimento. Para mim, a grande charada da vida dele que a gente quer matar é essa dor que ele sente. O pai dele morre quando ele tinha seis anos e, então, a mãe se muda para a África do Sul e o leva junto. Tudo isso foi muito forte e traumático para ele, não deu conta. Toda sua obra tem a saudade desse tempo, desse dia antes dos seis anos. Então, para mim, o Cavaleiro de Nada é um heterônimo importantíssimo, é quem escreve o livro, de certa forma, é a grande sombra do livro.
 
Você pode contar algumas das passagens do livro que tiveram interferência ficcional?
 
Elisa Lucinda. A vó de Pessoa, Dionísia, era uma personagem que todos diziam ser louca. E ele morou na casa dela um certo tempo, mas não tinha nada de detalhes deles dois. Com a pesquisa, eu fui percebendo que eles se gostavam muito e fui inventando que ele era ‘o cara dela’, o neto querido, o único que a entendia. E, então, eu comecei a entrar nessa de que ele herdou a loucura da avó. Porque ele tinha uma certa doideira, de perto ninguém é normal mesmo. A avó chegou a fugir do hospício, por exemplo, e ninguém sabia como. Então, eu inventei essa forma.
 
A parte da vida dele na África eu também ficcionei bastante, porque ele não escreveu quase nada sobre isso. E como eu conheço muito a África do Sul, eu criei a Paciência, que é a empregada dele cabo-verdiana para botar o Fernando Pessoa em contato com a ‘negada’ da África [risos]. Foi ótimo! E tudo é muito crível, é possível, porque ninguém vai ficar dez anos em África sem ouvir um tambor, né?
 
Tem também uma cena dele com os poetas brasileiros. Ele gostava muito do Olavo Bilac, aí criei uma cena dele perdido na rua e de repente ele escuta uma voz de um poeta do subúrbio carioca, de quem Olavo Bilac falou muito bem. Olavo dizia que ele bebia muito, tinha um defeito na boca, mas era um cara sedutor à beça, cheio de amores. O verso que ele escutou é ‘quem acha vive se perdendo’. E esse verso parece que foi feito para mim, mas na verdade foi feito por esse poeta Noel Rosa. É assim que ele cita Noel Rosa, que eu acho que ele poderia perfeitamente conhecer.
 
 
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