Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Sem categoria 04.11.2014 04.11.2014

Elementar, meu caro leitor

Por  Anna Carolina Lementy
 
Poucas coisas na vida são tão estimulantes quanto se entregar às reviravoltas de um bom mistério. Aquele da ficção, nascido de um crime que choca a sociedade e que só pode ser desvendado pelo melhor detetive de que se tem notícia. O nome dele (ou dela – basta se lembrar da sagaz Miss Marple, velhinha criada por Agatha Christie) varia conforme a época e o gosto do freguês. A única certeza é a de que o crime será solucionado, por vias pouco ou nada ortodoxas.
 
Aqui no Brasil, um dos representantes da classe é Remo Bellini. Criado pelo escritor Tony Bellotto (que também dá expediente como titã), o detetive chega à sua quarta aventura no livro Bellini e o Labirinto (Companhia das Letras). "Agora ele está um pouco mais desencantado. Acho que, com o passar do tempo, todos nós vamos cortando algumas ilusões típicas da juventude. Por outro lado, tem uma participação mais heroica, afiou suas habilidades de detetive. Mas não acredito no pleno heroísmo dele, nem o leitor acredita. O mais interessante são as observações que ele faz, e aí sim desvenda coisas muito relevantes", diz.
 
Bellini surgiu na literatura em 1995, mas já existia antes mesmo dos livros e nem sempre foi um detetive. Os primeiros rascunhos da personalidade do personagem nasceram durante a adolescência de Bellotto, no interior de São Paulo. "Ele foi aparecendo como um alter ego, e quando decidi escrever um romance policial, ele já estava pronto. Mas a cada livro eu o reconstruo um pouco".
 
E por que explorar um tipo já tão conhecido da literatura? "Difícil dizer. Quando nasceu esse desejo de escrever me passavam muitas ideias, eu escrevia e não ia adiante. Mas estava lendo muita literatura policial na época e descobrindo sua força narrativa. É como se eu tivesse pensado 'eis um livro que posso escrever'", conta o escritor. Junto com o primeiro volume, surgiu também a ideia de fazer uma série, um genuíno exemplo de fidelidade ao gênero investigativo.
 
Na nova trama, Bellini vai desvendar um mistério em Goiânia, uma cidade que sempre intrigou Bellotto, desde os primórdios dos Titãs. "Fiquei tomado por essa cidade que é tão representativa do Brasil. Provinciana e, ao mesmo tempo, cosmopolita. E a história do césio-137 é ímpar, trata-se do maior acidente nuclear do mundo fora de uma usina e foi causado pela incompetência brasileira. Também falo do mundo do show business, que conheço bem. Foi estimulante".
 
No futuro, Bellotto pretende escrever mais uma obra sobre Bellini, logo após seu próximo trabalho, que não será policial. A respeito do destino do personagem, é econômico: "Acho que ele é um cara que se condenou à solidão. Me perguntam se ele vai ficar sempre sozinho. Espero que ele não escute, mas sim, ele vai ficar sozinho. O fracasso amoroso é fundamental".
 
Ele ainda conta que o amor pela escrita vai além do gênero, mas as histórias de Bellini lhe deram fluência para se aventurar. "E eu acho que estava com saudades dele, porque esse novo livro foi escrito em seis meses. Geralmente levo um ano e alguma coisa".
 
                                                                                                                        Jorge Bispo
Remo Bellini, criado pelo escritor Tony Bellotto, chega à sua quarta aventura no livro Bellini e o Labirinto (Companhia das Letras)

 
Se podemos nos divertir um bocado com Bellini e outros detetives admiráveis, devemos muito a Edgar Allan Poe e ao investigador Auguste Dupin, personagem criado por ele em 1841 junto com o romance Assassinatos na Rua Morgue. O livro é considerado um marco no gênero, pelo menos em língua inglesa. 46 anos depois, nasceria outro símbolo dessa literatura, o influente Sherlock Holmes, que, como Dupin, também se valia da lógica e de um ombro amigo inseparável.
 
A abundância de adaptações baseadas em Sherlock indica que ele é o tipo de personagem que jamais envelhece. A mais cultuada delas, com Benedict Cumberbatch no papel-título, é contemporânea e não perdeu nem um pouco de seu brilho e ritmo, com deduções incríveis e muitas interjeições brotando na cabeça do espectador.
 
Mas será que os detetives de hoje, como Bellini e o próprio Sherlock dos anos 2000,se parecem com os do passado?Quais características e complexidades esses novos investigadores revelam? Siga estas pistas e tire suas próprias conclusões, caro leitor.
 

Não apenas um, mas dois detetives conduzem a trama de uma das séries mais elogiadas de 2014. Os personagens de Matthew McConaughey e Woody Harrelson são investigadores que entram em conflito sobre um caso que acaba se arrastando por longos 17 anos e inclui a caçada a um serial killer. O perturbado Rustin Cohle (McConaughey), como os detetives da velha guarda, vale-se da psicologia e da intuição, métodos que geram muita desconfiança. Carrega sempre com ele notas sobre os casos em andamento e acredita que, um dia, elas se combinarão perfeitamente e lhe trarão as respostas de que precisa. É atormentado por uma vida sem sentido desde que perdeu a filha e rechaça qualquer conforto trazido pela religião ou Deus. Seu único porto seguro é o trabalho, ao qual se dedica ferozmente. Leva uma vida frugal e se aproxima perigosamente da bebida. Praticamente um Sherlock Holmes, em seus vícios e virtudes, só que mais sombrio e mais "real".
 
Já seu parceiro Martin Hart (Harrelson) é o típico homem comum e faz questão de cultivar uma boa imagem de si mesmo, principalmente na divisão de homicídios da delegacia. Típico, inclusive na hora de investigar, não lembra os excêntricos detetives que conhecemos ao longo dos anos. É um contraponto à figura quase folclórica do parceiro e uma artimanha e tanto dos roteiristas para cativar tanto aqueles que adoram os detetives intuitivos e quase míticos quanto os que preferem personagens mais "pé no chão".
 
True Detective
 

Sem surpresas. O Sherlock dos livros é muito parecido com o da série da BBC, só que com o sex appeal de Benedict Cumberbatch, numa atuação irretocável (ao lado de Martin Freeman, o fiel John Watson, também excelente). Muitas referências dos livros foram levadas diretamente para a TV, com algumas poucas adaptações. O que mais chama a atenção é a modernização do aparato de que o detetive dispõe. Como a história se passa no tempo presente, gadgets são bastante comuns. Já no primeiro episódio, uma avalanche de SMS toma conta da tela, enquanto um misterioso crime vai ganhando contorno. Os fãs apoiaram o uso da tecnologia – o sucesso da série é prova disso –,um recurso que ajuda a modernizar um personagem que já foi bastante explorado e de diversas maneiras.
 

Mais uma série feita sob medida para o personagem de Conan Doyle brilhar com suas deduções e erudição científica. Mas, aqui, a reverência britânica às raízes do personagem dá lugar a uma adaptação contemporânea que se passa em plena Nova York e com um Watson que, na verdade, é uma Watson! O problema de Holmes com as drogas é muito mais evidente, como na literatura, e vemos o personagem recém-saído de uma temporada na reabilitação. Watson (Lucy Liu) é contratada para mantê-lo sóbrio e, com o passar do tempo, torna-se sua aprendiz. Também há novos aspectos familiares, como uma relação paterna conturbada. Em termos de roteiro, é a mais audaciosa das adaptações, embora mantenha Sherlock Holmes bem perto do imaginário criado em torno de sua figura. Alguém muito, muito incomum e cativante em suas habilidades para lidar com mentes criminosas.
 
Elementary
 

Após dez anos, o personagem criado pelo Titã Tony Bellotto está de volta com um suspense que nasce a partir de uma ligação feita por um cantor sertanejo e desemboca no césio-137 e em uma Goiânia violenta. Desde o primeiro romance, o detetive Remo Bellini presta uma bela homenagem ao gênero com seu quê de homem incompreendido, nunca de uma mulher só, além da paixão pelo blues (teriam os detetives a erudição em comum?). Ele ainda almoça no mesmo Luar de Agosto, provando que a rotina pode ser uma boa aliada das mentes aguçadas. Como se, num universo onde tudo é incerto, algumas coisas precisassem se manter imutáveis e seguras. Bellini também usa como arma a ironia. Lembra alguém com um sotaque britânico? Pois é.
 

J. K. Rowling criou o pseudônimo de Robert Galbraith e lançou dois romances, O Chamado do Cuco e O Bicho-da-seda, que será lançado no Brasil em novembro. O que os livros têm em o comum? O detetive Cormoran Strike, um veterano da guerra do Afeganistão. No novo volume, ele investiga a morte de um escritor com muitos segredos a revelar (e que podem arruinar a vida dos envolvidos). Como vários investigadores clássicos, Strike se vale de uma parceira para elucidar mistérios, a fiel assistente Robin Ellacott. Na nova trama, existem muitos suspeitos, no melhor estilo Agatha Christie, conhecida pela criação de múltiplos perfis numa mesma obra. No fundo, as tramas conduzidas por detetives espertíssimos têm sempre os mesmos componentes. Mas a gente se deixa fisgar como se estivesse lendo pela primeira vez, não é?
 
J. K. Rowling criou o pseudônimo de Robert Galbraith e lançou dois romances

 
Se as palavras "crime", "suspeito", "provas" e "detetive" também provocam pequenos espasmos de euforia em você, não demore a rechear sua biblioteca ou se acomode agora mesmo no sofá na companhia de uma dessas séries sensacionais!
 
Manual do detetive – como se comportar diante de um crime
 
1) Seja excêntrico – ninguém confia em detetives que não tenham pelo menos uma mania esquisita. Você pode também portar objetos incomuns, como uma piteira, ou deixar crescer um bigode anacrônico (mas aí você pode ser confundido com um mero hipster. Cuidado).

2) Acredite na intuição. Os bons detetives enxergam pistas onde mais ninguém as viu e não têm medo do próprio faro, por mais absurdo que pareça o caminho a seguir.

3) Nunca confie na versão amplamente aceita e disseminada dos fatos. Enquanto a polícia tem pressa para resolver um crime, você pode se dar ao luxo de usar a massa cinzenta pelo tempo que quiser e surpreender a todos quando provar que o suspeito menos provável é, na verdade, um grande criminoso.

4) Desconfie de tudo e todos. Seu trabalho é ser chato, conforme-se.

5) Coloque-se no lugar do assassino. A velha tática de pensar como e por que alguém comete um crime tem grandes chances de funcionar.

6) Tenha um melhor amigo e transforme-o em parceiro ou vice-versa. Faça dele seu confidente. Mais do que isso, seu biógrafo. Não tenha medo de zombar das habilidades dele vez ou outra. É tudo brincadeirinha (ou não. Afinal, detetives se acham a última bolacha do pacote).

7) Interesse-se por enigmas e charadas, desses de jornal mesmo, e faça disso um passatempo. Treinar é preciso. Você nunca sabe quando um crime vai aparecer na sua frente.
 
 
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