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Ele está de volta

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

Os famosos bolachões, feitos de acetato, pretos, com um furo no meio devem voltar a ser produzidos no Brasil ainda este ano. O disco de vinil, que teria sido morto e enterrado pelo compact disc (CD), ressurge em tempos que este formato, popularizado nos anos 1990, é quem parece estar dando adeus, substituído pelo formato digital, o mp3, ou mesmo os DVDs, que cada vez mais ocupam as lojas de discos. 

Na verdade, não se trata de uma volta triunfal, com as vendas chegando às dezenas de milhões de cópias vendidas. Para muitos, ele sempre resistiu, ainda que marginalmente, à expansão dos novos formatos, vendendo pequenas quantidades e sobrevivendo, sobretudo nos sebos e lojas como a clássica Baratos Afins, de Luiz Calanca, situada na Galeria do Rock, em São Paulo. 

O Brasil contou, até o final de 2007, com a última fábrica de vinis do continente latino-americano. A Polysom, situada em uma rua de terra batida em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, sobreviveu no início deste século devido às grandes encomendas de igrejas evangélicas, que aproveitavam o fato de seus fiéis ainda terem em casa toca-discos. Conforme estes foram escasseando, substituídos, ainda que lentamente, pelos CD players, as encomendas religiosas foram decaindo, o que tornou impraticável a fábrica de long plays.

Os evangélicos não eram os únicos clientes da fábrica de Nilton José Rocha, criada em 1999, quando as grandes gravadoras já haviam abandonado o formato há alguns anos. Quando estas precisaram prensar os discos, recorreram à Polysom, assim como as gravadoras independentes, com destaque para a Monstro Discos, de Goiânia, que encomendava entre 300 e 500 unidades por vez. Porém, as encomendas religiosas eram as mais fiéis, ultrapassando as 100 mil cópias. A pirataria, porém, também se mostrou lucrativa para o mercado de discos religiosos e logo estas encomendas sumiram. Do total de 150 mil LPs fabricados nos tempos áureos, logo quando foi inaugurada, a Polysom chegou a prensar pouco mais de 5 mil nos últimos anos.

Houve um movimento dos Ministérios da Cultura e do Trabalho, através das Secretarias de Políticas Culturais e de Economia Solidária (Senaes) respectivamente, para recuperar a fábrica, através de uma cooperativa. O Iphan do Rio de Janeiro pretendia conceder o registro de patrimônio cultural imaterial. Ambas as iniciativas, porém, ao que tudo indica, não conseguiram sair do papel. 

Polysom, o retorno

Contando com três funcionários, a Polysom se viu obrigada a fechar as portas no final de 2007, justo no momento em que as vendas do bolachão voltavam se recuperar consideravelmente – lá fora. Em comparação com os decadentes números da venda de CDs, ainda representam uma quantia absoluta baixa. Mas, proporcionalmente, têm apresentado números positivos e que crescem a cada ano. Nos Estados Unidos, em 2008, vendeu-se 89% a mais de vinis, em comparação com o ano anterior. Já as vendas de CDs, decaíram 8,5%. Em números absolutos, vendeu-se 1,8 milhão de LPs, 25,5 milhões de CDs e 5,8 milhões de DVDs naquele país, em 2008. Só as vendas digitais crescem mais que os vinis, e já representam 20% do total das vendas de música gravada, segundo os números da Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD), associada à Recording Industry Association of America (RIAA).

Agora quem pretende reativar a Polysom, é a Deckdisc, gravadora independente capitaneada por João Augusto, com artistas como Pitty e Nação Zumbi em seu catálogo. Em entrevista a Veja.com, Augusto afirmou que a documentação e licenças necessárias já estão sendo providenciadas para a reativação da fábrica. “No exterior, os índices de crescimento anual do mercado de vinis são superiores a 50% e, por aqui, isso deverá se repetir. Além da própria Deckdisc, há vários selos e artistas querendo lançar projetos em vinil. A fila já é grande””, afirmou a Veja.com.

No Brasil, apesar da distância oceânica que nos separa do irmão do norte, têm aparecido algumas iniciativas que podem indicar um reaparecimento do vinil, não mais como um produto de massa, mas como um nicho importante, já que o que interessa às gravadoras, nesse momento, é voltar a dialogar com um público consumidor fiel e cativo. Nos últimos anos, alguns artistas têm lançado sua obra também em vinil, caso de Ed Motta com Dwitza (Universal, 2002), Nando Reis, com A letra A (Universal, 2003), Maria Rita com Maria Rita (Warner, 2003), Los Hermanos com 4 (SonyBMG, 2005), Caetano Veloso com (Universal, 2006) e Lenine, com Labiata (Universal, 2008). O preço, porém, continua salgado, pois são todos produtos importados. Enquanto a versão em CD de Labiata sai por R$ 24,90 no site da Livraria Saraiva, a versão em LP custa R$ 169,90. Mesmo assim, das mil unidades prensadas em vinil, 400 foram vendidas entre outubro de 2008 e fevereiro último.

A Sony também acaba de colocar nas lojas a coleção Meu Primeiro Disco, com relançamentos dos primeiros álbuns de João Bosco, de 1973, Chico Science & Nação Zumbi, Da lama ao caos (1994), Engenheiros do Hawai, Longe demais das capitais (1986), Inimigos do Rei, de 1989, e Vinicius Cantuária (1982). A próxima leva inclui Skank, Zé Ramalho, Sérgio Dias e Maria Bethânia. O kit inclui o LP original com áudio remasterizado, CD em formato de mini-vinil, além de reportagens e fotos da época do lançamento dos discos. Segundo o diretor de marketing e vendas da Sony Music Brasil, Marcus Fabrício, o foco não é o potencial de vendas. Em entrevista à Gazeta do Povo Fabrício fala do objetivo da coleção: “A proposta é trazer de volta ao mercado álbuns representativos da cena musical brasileira e que já estavam fora de circulação. Antes de tudo, é um projeto conceitual, de resgate de catálogo. Claro que o sucesso comercial do projeto possibilitará o surgimento de novas ações. Então, este é apenas o primeiro passo.” Com mil unidades por título, fabricados nos Estados Unidos, cada um vai custar em torno de R$ 150. 

> Veja mais

A última fábrica
De Felipe Nepomuceno. 2005. 8 min. Plano-seqüência sobre a Polysom, última fábrica de discos de vinil da América Latina.
 

A resistência do vinil 
Uma viagem ao mundo dos discos de vinil.

Parte 1. 


Parte 2.


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