Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Sem categoria 01.11.2014 01.11.2014

Ela’: vale a pena ver de novo

Por Priscila Roque
 
Na solidão de sua mesa de escritório, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) escreve cartas de amor sob encomenda. Separado de sua esposa e visivelmente depressivo, ele encontra em Samantha (Scarlett Johansson), um novo sistema operacional consciente e com certa personalidade, muitas características que procurava em uma companheira.

Entretanto, o Oscar de melhor roteiro original de 2014 não esgota sua discussão no relacionamento entre homem e máquina. Ela, de Spike Jonze, despertou o interesse de diversas áreas acadêmicas por instigar a reflexão sobre a complexidade do amor e do ser humano.

Recém-lançado em DVD e Blu-ray no Brasil, o filme é guiado pela tecnologia e mostra um envolvimento comum das pessoas com seus gadgets (como são chamados os dispositivos móveis inovadores). Portanto, são suas frustrações, projeções e rotina que se sobressaem e oferecem embasamento para uma análise mais profunda da sociedade atual. Aqui, listamos algumas delas, que não se esgotam nos comentários dos especialistas, assim como outras interpretações que a produção pode suscitar.  

SOLIDÃO x CONTEMPORANEIDADE
 
A Universidade Federal de Alagoas mantém um projeto para a recepção dos calouros de psicologia intitulado “Psicologia em Tela”. Em sua 8ª edição, o professor Cleyton Andrade foi convidado para uma conversa sobre Ela. “O intuito de discutir esse filme era, de certa maneira, falar da entrada de recursos tecnológicos da contemporaneidade, provocando solidão. Mas uma das vertentes para as quais eu chamei a atenção é quase o inverso disso. Na verdade, a solidão não é uma consequência da contemporaneidade. Ela, muito menos, é uma consequência da inclusão de instrumentos de uma tecnologia”, revela Cleyton.

Os alunos foram surpreendidos pela colocação do professor. “Observando os fatos empiricamente, dá essa impressão. Porém, essa não é a primeira vez que um homem se mostra só. A solidão é bem anterior à tecnologia e à contemporaneidade. Ela se encontra em diferentes momentos históricos, espaços culturais, manifestações e maneiras diferentes de se apresentar. Portanto, uma certa solidão, um certo desamparo, é anterior. Nesse momento, a tecnologia acaba sendo um viés por onde uma das formas dessa solidão vem aparecer”, esclarece o professor.

Para Andrade, “o filme tem uma narrativa que sugere o futuro, mas ele é extremamente marcado por sobre o que é se relacionar, se apaixonar, criar uma expectativa sobre o outro e se ver decepcionado nessa expectativa atualmente”.

Certo desamparo do protagonista com relação ao seu antigo casamento reaparece sob outras formas no relacionamento com Samantha. “Podemos pensar em como é interessante um software que não responde literalmente como um software. Softwares são capazes de decodificar mensagens, mas não conseguem interpretar nas entrelinhas, coisa que Samantha consegue. Pensar no filme como uma relação entre o homem e uma máquina é diminuir muito seu alcance. Ele diz das relações, inclusive entre homens e mulheres.
 
O protagonista repete com o sistema operacional o mesmo modo de leitura que já havia feito com uma mulher. O filme atualiza uma questão tão antiga quanto qualquer modalidade de relação, como os impasses de um contexto amoroso, das relações, das dificuldades de encontros com o outro”, completa.
 
Os desejos e as angústias comuns em um namoro não são diferentes por Samantha ser um sistema operacional  
 
A VOZ
 
No 3º Colóquio Internacional de Cinema, Estética e Política, a professora do Departamento de Filosofia da UFRJ, Carla Rodrigues, apresentou a palestra “Ela, a voz”, com base em seus estudos e nas discussões que já havia feito em sala de aula sobre o filósofo Jacques Derrida. “Muitos dos presentes se surpreenderam com as questões que eu coloquei. Como é um filme comercial, as pessoas tendiam a vê-lo como uma comédia romântica com algumas características inusitadas. A rigor, o debate foi muito interessante justamente por isso”, explica.

“Uma questão forte no meu texto é o problema de a voz ser aquilo que nos define como humanos”, apresenta Carla. “E ali havia uma voz que era uma máquina”, acrescenta. “Durante muito tempo, a tradição filosófica, pelo menos desde Aristóteles, pensa ou pensou que o que nos faz humanos é a emissão de voz com sentido. Isso, por exemplo, nos diferencia dos animais”, esclarece.
Há mais de 10 anos direcionando seus estudos ao trabalho de Derrida , a professora, ao ver o longa, trouxe a pergunta do filósofo: “O que nos faz humanos ainda é a produção de voz com sentido?”. “A máquina do filme produz voz com sentido. Então eu posso pensar, a partir do filme, nessa distinção entre humano e não humano. Foi isso que fiz no meu trabalho. Apresentei o filme como uma alegoria para esse problema filosófico”, inclui.

A certa altura, um dos organizadores questionou a professora a respeito dos ciúmes que Theodore sentiu da máquina, já que ela era capaz de se relacionar com tantas pessoas diferentes. “Lembro-me de ter contraposto e dito a ele: ‘Mas nós também nos apaixonamos por muitas coisas: livros, alunos, textos, autores, pessoas, amigos. O problema é a gente pretender que isso seja restrito a uma relação romântica entre um homem e uma mulher. Todos nós temos o mesmo potencial que essa máquina, mas pode ser limitado por outras razões. Potencialmente, nós poderíamos ser tão ilimitados quanto ela’”, argumenta.
 
TECNOLOGIA
 
Observar a tecnologia como elemento capaz de amplificar desejos e medos é um dos pontos destacados por Parcilene Fernandes de Brito, coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do Centro Universitário Luterano de Palmas. “No filme, os personagens buscam um ‘outro’ que os entenda, que esteja à altura de suas expectativas, um ‘outro’ que não pode existir no humano, tão incompleto, imperfeito, cansado, mas que parece pulsar nessa nova entidade. Há o desejo de imaginar que o outro seja a sua imagem e semelhança, mas há o medo do que o espelho possa revelar quando se libertar do seu reflexo”, analisa.

“Sem a Samantha, Theodore perdeu o chão, pois o sentido da sua vida estava baseado na existência dela. Sem ela, o que restava a ele? A angústia que sentiu talvez seja um reflexo da falta de resposta. Hoje, o que somos sem nossos aparatos tecnológicos? Lembramos do número de telefone da nossa mãe sem a memória do nosso celular? Conseguimos nos lembrar do menino que sentava na primeira fileira da sala de aula sem que várias fotos dele estejam compartilhadas em uma rede social? Nosso cotidiano ainda tem interesse se não há ninguém para curtir um post nosso em uma rede social?”, questiona Parcilene.
 
A Los Angeles “futurista” contrasta com as roupas e o visual retrô adotados pelo protagonista
 
 
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