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Educação na base do rap e repente

Por Carolina Cunha
 
Quando a psicanalista Maíra Soares Ferreira entrou num colégio público de São Paulo para fazer uma pesquisa sobre culturas juvenis e educação, ela não sabia qual seria seu ponto de partida.
 
Por causa da falta de professores, todos os dias mais de duzentos alunos ficavam sem aulas. Certa vez, durante um desses intervalos, uma cena chamou sua atenção.
 
No pátio da escola, alguns alunos da oitava série passavam o tempo cantando rap e criando rimas. Ela se aproximou do grupo e perguntou:
 
– Quem são vocês?
– Sou um favelado, respondeu um dos garotos.
 
A resposta impressionou a pesquisadora. “Quando a pessoa explica quem ela é a partir de uma condição social e não de seu próprio nome, isso é muito marcante”. 
 
Os jovens eram moradores da favela Parque Real, que naquela época, em 2007, era formada por quatro mil pessoas que viviam em barracos à beira da Marginal Pinheiros, na zona sul.
 
Maíra sabia que em vez de se enxergarem como favelados, muitas outras respostas eram possíveis. E era isso que ela buscava.
 
Com a ajuda de professores, entrou em sala de aula e começou a fazer perguntas como: de onde eles vieram? Do que gostavam? Quais projetos sonhavam para o futuro?
 
Descendentes de nordestinos, os jovens do colégio negavam suas origens e tinham vergonha de falar que eram negros ou indígenas. Neste momento, Maíra entendeu que faltava na escola um elemento fundamental: o reconhecimento daquela comunidade.
 
A tese da pesquisadora era de que conhecendo a própria origem, os jovens poderiam recontar sua história. E para isso, usaria a linguagem do rap – que os alunos tanto amavam –, a literatura de cordel e o repente nordestino como ferramentas de trabalho, aproximando assuntos que pareciam distantes.
 
A experiência é contada no livro A Rima na Escola, O Verso na História, que a pesquisadora acaba de lançar pela editora Boitempo.
 
“Meu desafio era tentar ligar presente e passado. Enquanto a gente não se apropria do passado, não conseguimos tomar consciência e fazer uma boa leitura do presente. Dessa forma, a gente não consegue fazer um projeto de vida próprio do futuro”, acredita.
 
Na estrada
 
Para conhecer as origens dos moradores da favela Real Parque, Maíra embarcou para o sertão nordestino, numa viagem que durou 40 dias entre o chão de Pernambuco, Sergipe e Alagoas.
 
Na estrada, visitou diversas cidades e povoados, conversou com poetas de cordel, cantadores de viola e do coco de embolada e presenciou “pelejas” de importantes repentistas.
 
O ponto final da viagem foi a metrópole de Recife, terra do mangue beat de Chico Science e da embolada de Caju e Castanha. Assim como em São Paulo, o movimento hip-hop também fazia a cabeça dos jovens de periferia. 
 
Cada vez mais, as semelhanças entre a cultura hip-hop e a sertaneja impressionavam a pesquisadora.
 
O rap e a embolada, pelo fato de se basearem praticamente no improviso e no ritmo acelerado dos versos, têm muito em comum. Há ainda os desafios dos repentistas, semelhantes às batalhas de MCs, nas quais os versadores disputam as melhores rimas em criação livre e espontânea. 
 
Para acompanhar as letras, bases de percussão, como o coco, que usa instrumentos africanos como o ganzá e o pandeiro.
 
Nas artes visuais, o grafite e a xilogravura. Já as danças dos b.boys e b.girls são feitas em rodas, como na capoeira e nas aldeias indígenas.
 
Nada disso surpreende os rappers do Nordeste, que convivem desde sempre com a mistura das duas culturas. É o caso do grupo Confluência Rap e Repente, que Maíra conheceu na capital pernambucana. 
 
A banda faz rap com sotaque nordestino e com inspirações de todos os lados – "de influências sensatas, pego Ariano Suassuna e misturo com Afrika Bambaaata", diz uma das letras da banda.
 
As bases sonoras são produzidas pelo DJ Big PE, que mistura beats eletrônicos a ritmos regionais como a embolada, a ciranda e o maracatu.
Na infância, o DJ cresceu escutando Luiz Gonzaga pelo rádio e assistia às performances dos senhores da embolada nas praças públicas. Foi o pai quem o apresentou aos toca-discos e aos primeiros vinis.
“Meu pai tinha uma discoteca que ia de James Brown a Pinduca”, conta Big PE, que conheceu o rap através de um amigo e começou a escutar bandas como Racionais MC´s, Beastie Boys e Run DMC. Já na adolescência, mexendo no acervo do pai, ele redescobriu discos de cantadores de viola.
DJ Big PE
 
Quem está à frente das rimas é o Maggo MC, que começou a gostar de poesia pelo rock do Legião Urbana, mas hoje domina diferentes formatos de versos usados na literatura de cordel, como “quadra, sextilha, décima, martelo agalopado e galope a beira mar…”, enumera o versador.
 
Ao vivo, entre uma e outra letra de rap, o MC gosta de se divertir puxando uma poesia no melhor estilo “freestyle repentista”.
 
Para o DJ Big PE, a mistura orgânica desses ritmos é uma coisa única do Brasil, mas ainda é pouco conhecida.
 
“O universo criativo dessas misturas ainda não foi explorado o quanto deveria. Trabalhos como este livro tendem a ser novidades no aprendizado das novas gerações, além de divulgarem e manterem viva a história do poeta nordestino”.
A volta para São Paulo
Assim que retornou de sua viagem, Maíra trouxe para uma turma da 8ª série tudo que viu. Mostrou os vídeos da sua visita à aldeia Pankararu, as entrevistas com poetas nordestinos e os depoimentos dos mais velhos sobre os que se foram para São Paulo.
 
Ao conhecer os princípios do rap e da poesia do sertão, alguns jovens disseram se lembrar das histórias de cordel que ouviram de suas famílias.
 
Apostando na criação de rimas, a pesquisadora começou a abrir espaço para diálogos que traziam à tona temas como violência e preconceito.
 
Uma vez, ao perguntar sobre qual palavra combinava com “negão”, alguém gritou sem titubear: “ladrão!”.
 
“Aquilo dava uma discussão enorme. E eles perceberam uma hora: tem que rimar com cidadão. E os jovens se sentiam mais confiantes para dizer isso. A palavra falada tem o poder de dar nome à dor. Ao nomear as coisas juntos, eles vão se fortalecendo, é um processo de empoderamento com a palavra”, lembra a psicanalista.

Com o tempo, a turma começou a criar os próprios versos: “Sou filha de nordestinos, mas todos riem disso”, diz uma menina.

 
“Cheguei em casa inspirada/peguei lápis e papel/ estava toda animada/pra escrever este cordel/essa coisa de rimar/é difícil pra dedéu”, escreveu outra aluna.
 
A partir de um universo que eles já gostavam, como o rap, os jovens começaram a perceber que a comunidade tinha muito mais coisas para contar e ensinar. Tudo já estava enraizado em outras histórias.O objetivo da pesquisadora era testar um método para esse tipo de reflexão. 
 
No final da experiência, Maíra voltou a fazer aquela pergunta de quando entrou pela primeira vez na escola. “Quem é você?” Um menino já tinha uma resposta inusitada na ponta da língua. “Sou afro-indígena-sertanejo-paulistano”.
 
Embora tenha aprendido muito, Maíra avisa que o livro "não é uma receita de bolo para educadores, é uma inspiração".
 
"O educador tem que conversar com o jovem. Enquanto a gente falar pra o jovem que ele é uma tabula rasa, eles vão se rebelar. Tem que escutá-lo. Esse outro tem conhecimento, tradição e herança. A partir daí, quando ele se descobrir com tudo isso, é que vai se interessar pelo mundo".
 
 
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