Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 21.06.2012 21.06.2012

Eduardo Kobra, um muralista da arte urbana

Por Carolina Cunha
A parede branca de um edifício dos anos 30 de Nova York aos poucos vai se transformando num painel colorido, que relembra a famosa foto da Times Square, clicada por Alfred Eisenstaedt em 1945. A imagem mostra o beijo entre um marinheiro e uma enfermeira após receberem a notícia do fim da Segunda Guerra Mundial.
Equilibrando-se numa escada estreita que alcança o terceiro andar, com um pincel na mão e um chapéu panamá na cabeça, o paulistano Eduardo Kobra, 36, chama a atenção das pessoas que caminham no High Line, antiga linha de trem que foi transformada em parque na metrópole norte-americana.
 
O painel demorou 15 dias para ser feito e, desde que ficou pronto, na semana passada, se tornou uma atração turística. Assim como em outras obras, o artista plástico não chegou ao espaço com a ideia pronta. Inquieto com o passado, seu ponto de partida é a pesquisa da memória da cidade em livrarias, museus e arquivos históricos. A icônica foto de Eisenstaedt, publicada na revista Life, chamou a sua atenção por condensar o afeto num cenário tão urbano, veloz e cinza.
 
“Sempre procuro contar algo importante, algum momento marcante da história do local”, conta Kobra, conhecido por seus murais em paredes e espaços públicos de São Paulo, onde retrata cenas e construções do século passado.
 
Um dos maiores expoentes da arte de rua brasileira, Kobra aterrissou nos Estados Unidos para uma temporada de um mês, que inclui o acerto de uma exposição individual numa galeria de Manhattan e o encontro com nomes de peso da street art, como o francês Mr. Brainwash e o grafiteiro americano Jay Milder, com quem pretende fazer um mural coletivo durante os próximos Jogos Olímpicos, em Londres. 
 
Com mais de vinte anos de carreira, o paulistano vive um bom momento e, nos últimos três anos, vem conquistando projeção internacional, com convites para mostras e intervenções em diversos países. A próxima parada é uma exposição em Paris, em setembro. “Estou muito feliz e satisfeito. Costumo dizer que meu trabalho é a parte mais bem resolvida da minha vida”, brinca.
Painel feito por Kobra em Nova York, EUA
 
O começo
 
Crescendo na periferia de São Paulo, Kobra segurou a primeira lata de spray aos 12 anos. Assim como muitos grafiteiros, começou pichando muros, muitas vezes com cal, fugindo frequentemente da polícia para não ser preso. Aprendeu a desenhar sozinho e, aos poucos, foi se envolvendo com o circuito do rap.
 
No início, seu trabalho de grafite indicava uma forte influência dos elementos do hip-hop. A guinada na sua carreira aconteceu em 2005, quando criou o projeto “Muros da Memória”, que faz releituras de fotografias antigas em diversos pontos da cidade, com cenas do cotidiano e personagens pintados a látex e spray.
 
A ideia surgiu após visitar uma exposição em São Paulo que mostrava os casarões e árvores da Avenida Paulista dos anos 20. “Percebi que quase tudo havia se perdido, daí a ideia de reconstruir artisticamente e pintar o que eles haviam demolido, criando uma janela para uma cidade que já não existe mais”.
 
O gosto pelo antigo não termina na paisagem urbana. “Sou colecionador de objetos antigos, gosto das roupas, carros, chapéus. Tenho uma coleção com cerca de 50 livros de fotos antigas”, revela.

Com um traço hiper-realista, sua principal inspiração veio de pintores muralistas como o mexicano Diego Rivera e o brasileiro Di Cavalcanti. Kobra começou a consolidar seu estilo e a se enxergar também como um muralista. Com obras gigantescas espalhadas pela cidade, começou a ganhar visibilidade.
 
Em 1995, fundou o Estúdio Kobra, especializado em painéis artísticos. Sua equipe conta com doze artistas. “Faço a criação e, como trabalho com projetos específicos em grande escala, tenho que ter artistas competentes e com a mesma visão”, avalia Kobra.
 
Mural na Avenida Hélio Pellegrino, em São Paulo
São Paulo, onde vive, sempre foi o seu cenário preferido. São mais de 50 obras na metrópole, algumas monumentais, como o muro de 1000 m² que ele pintou na Avenida 23 de Maio em 2009, com cenas da década de 1920, lembrando uma fotografia em preto e branco.  
 
“Me acostumei com o barulho dos carros, a poluição, os prédios… tudo isso faz parte da minha criação. Acabo interagindo com esse ambiente, tanto que o tema que mais ocorre nas minhas obras é justamente os cenários com cidades. Sou hiperativo, gosto de passar nas madrugadas para visitar essas pinturas”, revela o artista.
 
Se para ele a rua é um ateliê, Kobra teria um acervo suficiente para lotar um museu. O artista não sabe estimar quantas obras suas sobreviveram nas cidades. Já assinou mais de mil e tem cerca de 100 espalhadas pelo Brasil. Como a arte de rua pode ser admirada por um tempo indeterminado e efêmero, costuma tirar fotos de tudo, e seu arquivo já tem mais de três mil imagens.
 
A obra de maior escala é a fachada de uma caixa d´água de dois mil metros quadrados, pintada este ano no campus da universidade Senac, onde Kobra retratou os bondes da Avenida São João e os edifícios Martinelli e Banespa na década de 50.
 
O 3D chega ao asfalto
Além dos murais, Kobra pesquisa o uso de materiais reciclados e novas tecnologias, como a pintura 3D em pavimentos, que cria uma ilusão de ótica com efeitos de perspectiva, luz e sombra, confundido o olhar do público.
Pioneiro da técnica no Brasil, ele começou a experimentá-la em 2007. Sua primeira obra foi um carro antigo pintado em uma calçada na Praça Patriarca, em São Paulo. Depois, veio uma piscina em Copacabana e a reprodução da escultura Dois Candangos em Brasília. Pinturas essas que não podem mais ser vistas.
“É preciso ter desapego”, diz o artista, que pinta em calçadas e espaços públicos com giz e airbrush, materiais que duram pouco e são apagados pela chuva.
 
 
No ano passado, foi premiado no Sarasota Chalk Festival, o maior evento de arte 3D no mundo, do qual participou a convite do americano Kurt Wenner, considerado o precursor da técnica. Ele mal teve tempo de admirar seu trabalho. Pouco depois, as obras foram apagadas por um carro-pipa.
Outro projeto importante é o “Greenpincel”, que critica a destruição da natureza e a matança de animais pelos homens. Criada em 2011, a iniciativa traz painéis como “Caça às Baleias”, que denuncia a caça das baleias no Japão, “Welcome to Amazonia”, que mostra uma floresta devastada pelas queimadas, e “Belo Monte em Alta Mira”, que apresenta a figura de um índio sob a mira de uma arma, alusão à construção de uma hidroelétrica no Pará.
Obra em 3D de Kobra em calçada no centro de São Paulo
 
“Sou um amante da natureza e amo os animais. Estou fazendo minha parte, tentando utilizar os murais para conscientizar  sim, por que não?”.
 
Kobra gosta de mudar e não se importa com as críticas sobre a variedade de estilos. “Gosto de viajar, conhecer pessoas e lugares. Na verdade, gosto de deixar minha marca por onde passo”.
 
 
 
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