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Eduardo Coutinho presta homenagem à canção brasileira em novo documentário

 
Por André Bernado
Ao lado, de óculos, Eduardo Coutinho durante gravação de As Canções
 
“Qual é a música que marcou a sua vida?”. Foi essa a pergunta que Eduardo Coutinho fez a cada um dos 18 integrantes de seu mais recente trabalho, As Canções. Durante dois meses, a equipe de produção do cineasta percorreu as ruas do Rio atrás de personagens.
 
Ao todo, 237 pessoas participaram do processo de seleção. Elas tinham que cantarolar um trecho da música e, em seguida, explicar por que ela marcou tanto a sua vida. Algumas não foram selecionadas porque esqueceram a letra. Outras porque cantaram mal mesmo. “Tudo nesta vida você precisa saber fazer bem. Até desafinar. Tem um montão de gente por aí que desafina bem e grava um disco atrás do outro”, dispara Coutinho, com a sua já famosa rabugice.
 
 
Das 237 pessoas que participaram do projeto, apenas 42 tiveram seu depoimento filmado. Por fim, apenas 18, com idades entre 22 e 82 anos, aparecem no longa, que estreia nesta sexta, dia 9.
 
Aos 79 anos, Eduardo Coutinho já voltou suas lentes para importantes temas, como religião, em Santo Fonte; velhice, em O Fim e o Princípio, e teatro, em Moscou. Desta vez, o alvo é – como o próprio título já entrega – aquilo que o autor de Cabra Marcado para Morrer considera ser o mais rico patrimônio da cultura brasileira: a canção. “Não é a literatura. Não é o cinema. O maior patrimônio do Brasil é a canção. Em termos de canção, acho que só os Estados Unidos rivalizam com a gente”, opina o cineasta.
No documentário, através de canções de Roberto Carlos, “Olha”; Chico Buarque, “Retrato em Branco e Preto”, e Jorge Benjor, “Que Nega é Essa?”, Eduardo Coutinho revela histórias para lá de comoventes de gente desconhecida, como Lídia, que revela que chegou a comprar um revólver para acabar com a vida do sujeito que tanto a fez sofrer ou, então, Gilmar, que cai no choro ao se lembrar da música que a mãe, ainda viva, aos 85 anos, gostava de cantarolar enquanto costurava.
 
“Ah, um dos momentos mais emocionantes é quando o sujeito chora ao se lembrar da mãe. E, depois, fica chateado porque chorou. O choro desse homem é a coisa mais linda do filme”, garante Coutinho.
 
 
Em As Canções, anônimos dão depoimentos sobre músicas que marcaram suas vidas. Como surgiu essa ideia?
 
Coutinho. A princípio, a ideia era fazer um filme só sobre músicas do Roberto Carlos. Mas, aí, já viu, né? Ia dar um trabalho danado negociar os direitos das músicas. Daí, resolvi fazer um filme sobre anônimos cantando músicas que marcaram suas vidas. Foi o filme mais rápido e barato que já fiz. Só para você ter uma ideia, gravei 42 depoimentos em seis dias. A câmera não tem zoom. A luz é sempre a mesma. O cenário é um só o filme inteiro. Levei só dois meses para selecionar os participantes. A história do Brasil que me interessa é essa. É a história da canção brasileira. Não estou falando de Pixinguinha ou de Hermeto Pascoal. Estou falando de canção. A canção é o maior patrimônio brasileiro. No filme, apareceu gente cantando tudo que é tipo de música: de Noel Rosa a Jorge Benjor, de Silvinho a Roberto Carlos, de Orlando Silva a Nelson Gonçalves. Curiosamente, não tivemos uma música estrangeira sequer. Isso me intrigou bastante.
 
Como você chegou aos 18 personagens de As Canções?
 
Coutinho. Não fui eu que cheguei neles. Foram eles que chegaram a mim. Não faço nada pessoalmente. Por técnica e por preguiça também. Contratei uma pesquisadora, que saiu pelas ruas do Rio em busca de personagens. Colocamos anúncio nos jornais, na internet, enfim, a gente queria saber a música que marcou a vida das pessoas. Nessa, apareceu um monte de mulher. É claro, você não esperava que fosse aparecer um advogado do Banco do Brasil, não é mesmo? Mesmo assim, havia limites para participar do filme. Não podia esquecer a letra. Nem desafinar. E a história também precisava ser boa. Umas não entraram porque a história por trás da música era fraca. Houve uma candidata, por exemplo, que cantou “Rosa”, do Pixinguinha, maravilhosamente bem. Infelizmente, a história por trás daquela canção não rendeu.
 
Qual foi a parte mais difícil? Negociar os direitos autorais das músicas?
 
Coutinho. É. Hoje em dia, você não pode mais filmar um torcedor do Flamengo no Maracanã que o sujeito pode processar você. Isso é o fim! É a morte do documentário! O direito de imagem virou uma mercadoria. Você acha que eu paguei Frank Sinatra para incluir uma música dele em Edifício Master? Eu, não! Neste filme, a música era a origem de tudo. Por isso, contratamos uma advogada para negociar os direitos autorais. Ao que me consta, está tudo acertado. Bem, se o camarada quisesse cobrar milhões, eu estava ferrado. Até o momento, ninguém criou caso. Mas, se criasse, convenhamos, não ia ter cabimento. O filme presta uma homenagem à canção brasileira através do Noel Rosa, Chico Buarque, Roberto Carlos. Paguei o mesmo valor para todo mundo e ponto final. Espero que ninguém crie confusão.
 
Qual é a música que marcou a sua vida?
 
Coutinho. Ah, eu não tenho esse troço de música favorita, não. Até tem uma ou outra de que eu gosto. “Força Estranha”, do Caetano Veloso, por exemplo. Adoraria que alguém tivesse escolhido “Força Estranha”, mas ninguém escolheu. Olha, para ser honesto, a única fraude que eu cometi no filme foi incluir a música da Wanderléa, “Ternura”. Em 1999, conheci uma das personagens do filme. Na ocasião, Fátima era hippie. Hoje, virou evangélica. Só que a música da vida dela era um hino religioso. Nada contra. Mas não combinava com a história dela. Foi quando pedi que cantasse “Ternura”, da Wanderléa.
 
Qual teria sido o trecho mais emocionante ou surpreendente do filme?
 
Coutinho. Ah, um dos momentos mais emocionantes é quando o sujeito chora ao se lembrar da mãe, que está viva. E, depois, fica chateado porque chorou. O choro desse homem é a coisa mais linda do filme. O filme tem momentos muito interessantes. Tem a história do filho que compôs uma música para o pai que morreu em um acidente. E da mulher que, até hoje, guarda a carta que o namorado escreveu para ela em 1969. Dá para imaginar o que é isso? Todos os personagens já viram e reviram o filme. Não queria causar constrangimento a ninguém. Para alguns, o filme funcionou como uma terapia. Alguns momentos registrados ali são bem catárticos.
 
Dos 42 depoimentos gravados, 24 ficaram de fora, certo? Você se lembra de algum depoimento em especial?
 
Coutinho. Sim, claro! Lembro do garoto que cantou “Pais e Filhos”, da Legião Urbana. O pai do garoto conheceu uma mulher, constituiu outra família e abandonou a dele. O cara vivia prometendo que ia buscar o filho em casa para passear e nunca aparecia. Daí, o moleque cantava “Pais e Filhos”. O problema é que a música é muito grande… Eu até podia editar, mas a música é legal porque conta várias histórias em uma só. Além disso, o menino cantava mal à beça. Ele tentava imitar o Renato Russo e ficava uma coisa horrorosa (risos). Infelizmente, a música ficou de fora. No filme, só temos duas histórias envolvendo pais e filhos. Todas as outras são entre homem e mulher.
 
Que conselhos você daria para quem sonha em fazer cinema no Brasil?
Coutinho. Olha, o destino do documentarista no Brasil é se ferrar. No Brasil, você não ganha dinheiro com documentário. Querem um conselho? Façam ficção. Moralmente, não há diferença entre documentário e ficção. Não é pecado fazer ficção. Ninguém vai para o inferno por causa disso. Querem outro conselho? Façam tudo o que puderem. Não tenham pureza. A pureza é a morte do documentarista. Ninguém vive de cinema no Brasil. Isso não existe! O sujeito tem que estar aberto a tudo. Mas sem vender a alma, entendem? Não é porque você vai fazer publicidade, por exemplo, que você tem que vender a alma ao Diabo. Certa vez, resolveram me chamar para gravar um comercial. “Vocês têm certeza disso?”, perguntei. Pedi a eles seis vezes mais do que normalmente pediria. Eles toparam, mas o projeto acabou não saindo. Quando você gosta de algo, eles pagam mal. Quando não gosta, pagam bem. Essa é a verdade.
 
Qual é a maior virtude que um bom documentarista precisa ter?
 
Coutinho. Não faço a menor ideia. Acho que depende do documentário que ele se propõe a fazer. Tenho ido a alguns e confesso a você que tenho cochilado no meio. Infelizmente, não posso dizer os nomes porque um deles, inclusive, é de um amigo meu. (risos) No meu caso, gosto de valorizar a palavra. A palavra é a coisa mais importante que existe. Jamais vou colocar alguém tocando um cavaquinho na tela. O cavaquinho não me interessa. O que me interessa é o sujeito que está por trás daquele cavaquinho. O meu filme começa com uma personagem cantando “Minha Namorada”, do Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, numa única tomada, de 2min10seg. Onde é que você vê um negócio desses? É uma única tomada, sem corte, sem zoom, sem firula. Bem, se eu tenho uma qualidade, acho que é saber ouvir as pessoas. Penso que algumas contam para mim histórias que jamais contariam para outras pessoas. Gosto de ouvir histórias. Histórias dão sentido à vida. Por isso, muitas delas não são verdadeiras. Sei disso. Muitas das histórias do meu filme não são verdadeiras. Aliás, nenhuma biografia é 100% verdadeira. Mas, pode ter certeza: cada uma daquelas 18 histórias daria um excelente filme.
 
Confira o trailer de As Canções:
 
 
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