Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.01.2010 15.01.2010

Edney Silvestre, memórias afetivas

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

 

> Assista à entrevista exclusiva com Edney Silvestre no SaraivaConteúdo
 

Edney Silvestre é muito conhecido por sua dedicação ao jornalismo. Entre matérias e reportagens guardam-se muitas imagens antológicas, como, por exemplo, a visita do Papa João Paulo II a Cuba e a cobertura do 11 de setembro. Agora, vale reservar um tempo para as histórias ficcionais do escritor Edney Silvestre, autor do romance Se eu fechar os olhos agora (Record).

“Tentei escrever o livro de várias formas. Eu não tinha entendido que são várias histórias reunidas numa única: um polaco que vem parar no Brasil na época da Primeira Guerra; uma mulher condenada a uma vida religiosa; uma menina arrogante que tem uma libido muito desenvolvida… Todas essas histórias giram em torno de Anita, mulher que aparece morta no primeiro capítulo. Eu não havia entendido porque não encontra a voz narrativa.”

Depois de mais de 14 anos pensando no esboço dessa história, Edney conseguiu desenvolver uma narrativa do romance a partir de uma frase: "Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos".

Um cadáver de mulher é encontrado no meio do mato por meninos de 12 anos. A história se passa numa pequena cidade da antiga zona do café fluminense, em abril de 1961 – assim como a cidade de Valença, onde autor morou os primeiros anos de vida: “A história se passa numa cidade que mistura a topografia de Tiradentes e de Valença. Fiquei até meus 15 anos lá. E Tiradentes tem uma mágica e um lado, ao que me parece, muito sombrio”.

Antes do romance, Edney Silvestre publicou outros livros, entre eles Contestadores (entrevistas, Francis, 2003); Outros tempos (crônicas e memórias, Record, 2002) e Dias de cachorro louco (crônicas, Record, 1995). Apresentador do programa Espaço Aberto Literatura na Globo News, o jornalista também exercita a paixão pela literatura através de diálogos com escritores como Antonio Lobo Antunes, Lygia Fagundes Telles, José SaramagoMilton Hatoum, João Ubaldo Ribeiro e Luiz Ruffato – referências para sua produção ficcional.

De onde vem esse interesse pelas letras? “Eu era uma criança doente, aos quatro anos eu não andava. Alguém me alfabetizou e me deu livros. Eu me apaixonei pelas histórias, era uma criança pobre que vivia numa cidade muito pequena. Havia uma biblioteca em Valença – hoje parece que funciona mal – que tinha todo tipo de livro que se possa imaginar”, relembra Edney.

A memória é elemento catalisador da narrativa do romance – e dessa entrevista.

“Escrevendo descobri que as pessoas ainda estão comigo.”

 

Você se sente mais confortável como entrevistador ou entrevistado?

Edney Silvestre – É muito mais fácil não responder nada, perguntar e ficar olhando. Mas eu tenho gostado muito de falar do livro, muito. Eu passei seis anos escrevendo, quase secretamente, pouca gente sabia. Falar sobre o livro, discutir, ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre o romance e os personagens é muito enriquecedor. É outra visão que se dá dos personagens. Mostra também a minha relação afetiva com os personagens – quando falo sobre eles é como se falasse de pessoas.

Além do romance Se eu fechar os olhos agora (Record, 2009), você publicou livros de entrevistas e crônicas: Contestadores(entrevistas, Francis, 2003); Outros tempos(crônicas e memórias, Record, 2002) e Dias de cachorro louco (crônicas, Record, 1995). Por que a demora para estrear na ficção?

ES – Eu não conseguia escrever. Quem lia minhas crônicas acreditava, pela maneira que elas estavam escritas, que eu havia feito de uma tacada. Mas não era verdade, levava três ou quatro dias escrevendo. Eu sou lento, edito muito. Não sou José Saramago que se senta, digita e o que sai ele publica. Não tenho o talento do Saramago. Eu tinha a história, ela já estava na minha cabeça. Tinha feito um esboço, mas não conseguia o formato. Fiz um primeiro formato, mas não acontecia, não acontecia, não acontecia… Tentei escrever o livro de várias formas. Eu não tinha entendido que são várias histórias reunidas numa única: um polaco que vem parar no Brasil na época da Primeira Guerra; uma mulher condenada a uma vida religiosa; uma menina arrogante que tem uma libido muito desenvolvida… Todas essas histórias giram em torno de Anita, mulher que aparece morta no primeiro capítulo. Eu não havia entendido porque não encontra a voz narrativa.

Você levou seis anos para publicar…

ES – Seis anos escrevendo. Essa história já existia antes, 14 anos antes. Eu tinha medo, leio muito.

Você é muito crítico?

ES – Tenho que ler, não é? Quer dizer, todo mundo… [risos] Eu me perguntava: “Por que publicar?” É pretensioso falar: “Acho que faz diferença”. Acho. Ninguém escreveu sobre aquela região da forma que escrevi; os anos 1960 em geral são abordados de uma forma Anos Dourados, ou se fala após o Golpe Militar, a bossa nova… Não é nada disso, não é verdade. É verdade para quem viveu uma situação muito protegida. Para quem viveu no interior não era assim, não.

Gostaria de entender o quanto de Valença tem neste livro.

ES – A cidade do livro tem uma topografia… A topografia de Valença está presente no livro, mas está muito misturada com Tiradentes.

Por quê?

ES – Gosto de Tiradentes, acho que a cidade tem uma atmosfera também sombria, com aquelas montanhas em volta. Quando eu imaginava a história, imaginava as madrugadas. Quando os personagens caminham, eles caminham por Valença e, em alguns momentos, por Tiradentes.  A história se passa numa cidade que mistura a topografia de Tiradentes e de Valença. Em Valença porque foi muito do que vivi, fiquei até meus 15 anos lá. E Tiradentes tem uma mágica e um lado, ao que me parece, muito sombrio. Muitos momentos da trama parecem se passar em Tiradentes.

Valença contribui de que forma para seu trabalho de escritor e jornalista? Você é capaz de identificar?

ES – Valença é cenário de um grande livro do século XX: A crônica da casa assassinada (Civilização Brasileira, 1999. A primeira edição é de 1973), de Lúcio Cardoso. Meus anos de formação foram lá. Não nasci em Valença, mas tinha meses quando cheguei à cidade. Os barões de café levaram o Brasil à Valença. Lá tem uma catedral de 1800, gigantesca, muito bonita. Umas das demonstrações do poderio dos barões de café. Próximo à Valença, em Santa Clara, tem uma fazenda com terras de má qualidade. Então, não cultivavam café nem cana, era uma fazenda de criação de escravos. Toda a parte da senzala – veja que coisa perversa – tem as janelas pintadas para que o aspecto estético continue muito bonito, mas era toda fechada. Tudo isso se reflete na história. 

Você é um jornalista respeitado que apresenta diversos quadros na televisão, inclusive um programa onde entrevista escritores. Como é sua relação com o tempo e atividade literária?

ES – Eu escrevo em aviões, de madrugada, no fim de semana, quando espero… Eu escrevo no tempo em que não trabalho como jornalista. No começo, há seis anos, me incomodava. Mas depois que encontrei a voz [narrativa], a qualquer momento eu voltava para a história. Eu faço em ordem, há autores que conseguem escrever o 13º capítulo seguido do 58º…

Há alguns anos você se dedica a entrevistar escritores no programa Espaço Aberto Literatura na Globo News. Quais são os autores você tm como referência?

ES – Isso é fácil, começo com [José] Saramago. Fico impressionado como Saramago consegue construir da maneira que ele constrói. Eu gosto das construções do Milton Hatoum, ele vai descendo até chegar ao clímax. Gosto muito do Luiz Ruffato. Há muitos outros, mas cito esses três… Agora me veio a imagem do João Ubaldo [Ribeiro], ele tem uma dança com a língua, escreve de tal forma que você se sente bailando. Fico encantado, adoro ler.

De onde vem o amor pela literatura?

ES – Eu era uma criança doente, aos quatro anos não andava. Alguém me alfabetizou e me deu livros. Eu me apaixonei pelas histórias, era uma criança pobre que vivia numa cidade muito pequena. Havia uma biblioteca em Valença – hoje parece que funciona mal – que tinha todo tipo de livro que se possa imaginar.

Lembra de algum livro que tenha marcado sua infância?

ES – Claro. Lembro de David Copperfield, que eu lia escondido. Às vezes, chegava certa hora da noite que meus pais me obrigavam a apagar a luz. Mas eu acendia o abajur e ficava lendo escondido. E lia Tarzan, adorava história em quadrinhos. Gosto até hoje de quadrinhos. O Garfield era interessante no começo. Eu também adorava o Calvin, mas o criador desistiu dele. Fiquei com pena…

Você declarou numa entrevista que “a ficção trouxe a compreensão do poder da memória”. Fale mais a respeito.

ES – Ao sair de Valença, perdi muitos amigos. Depois perdi por overdose, aids, câncer e, muitos, por acidente de moto, carro… Acho que todos nós. Quando me mudei para os Estados Unidos, perdi o contato com meus amigos, alguns, realmente, eu perdi. Quando me mudei de volta perdi os amigos que tinha lá. Escrevendo, descobri que as pessoas ainda estão comigo. Escrevendo, se lembrando delas, as pessoas estão com você. Isso me deu um grande alívio. Até porque, alguns anos antes, eu perdi amigos muito queridos e muito próximos e foi muito doloroso e muito triste. Foi um período muito triste para o Brasil. Nada nesse país é o que parece. Fiquei muito triste, pelas perdas pessoais e de sonho: percebi que não vou ver o país que sonhei. Mas posso continuar a sonhar. De repente, daqui a 50 ou 100 anos, teremos um país melhor.

Você é otimista em relação à política brasileira?

ES – Estamos aprendendo, duramente, dolorosamente. Estou cético, não tenho esperança em pessoas. Tenho esperança em nós, cidadãos. Quando era jovem, achava que tudo ia acontecer em 20 ou 30 anos, mas não. Só daqui a 100 anos. E mesmo que eu viva até os 90 anos, não vai dar tempo.

O que você diria a um jovem autor?

ES – Eu recebi um conselho da minha primeira professora, Odete Coutinho da Silveira: Leia. Leia. Eu diria isso: Leia. É bom ler, a gente aprende e viaja. 

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